O batuque ocupa os becos da Maré e se mistura às vozes de quem veio de longe. Território marcado por deslocamentos, a comunidade volta a ser palco de encontros culturais. Neste fim de semana e sábado e domingo que vem, sempre às 14h, o Centro de Artes da Maré recebe a primeira edição do Festival Movimentos Migrantes: Dança e Música Afro-Latina na Cena Carioca. O evento gratuito reúne apresentações de dança, performances, videoarte, pocket shows e oficinas com artistas de Cuba, Brasil e Moçambique e conta com intérprete de Libras para inclusão de pessoas surdas.
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A iniciativa é da dançarina e pesquisadora cubana Miriam Miralles, radicada no Rio desde 2013 e moradora da Zona Norte. Professora de danças populares brasileiras no próprio Centro de Artes da Maré e integrante da Redes da Maré, ela também atua no projeto social Mulheres ao Vento. Essa vivência fez com que se aproximasse da história da Nova Holanda, local onde fica o centro cultural.
— A Maré é marcada pela presença de migrantes de diferentes regiões do Brasil e de outros países. Realizar o festival aqui significa reconhecer e valorizar essa história, ao mesmo tempo em que o evento amplia os espaços de visibilidade para artistas que vivem processos de deslocamento e pertencimento — diz.
O festival nasceu de uma busca íntima da idealizadora. Durante anos, Miriam sentiu-se “entre lugares”: não queria ser apenas uma “voz de Cuba” no Brasil, mas também não era vista como brasileira. Essa sensação de não pertencimento a levou a refletir sobre a latinidade como um espaço possível de identidade.
— O festival surge para transformar essa busca individual em gesto coletivo — explica.
Mulher negra, estrangeira e mãe, Miriam também enfrenta preconceitos. Ela relata que já ouviu comentários xenofóbicos sobre “estrangeiros tirarem vagas de brasileiros” e viveu discriminação racial e religiosa por trabalhar com culturas e religiões de matriz africana.
— Cada experiência de preconceito se transformou em combustível para seguir lutando por respeito e pela valorização da diversidade cultural e espiritual — diz.
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A equipe do festival reflete essa pluralidade. É majoritariamente formada por negros, migrantes e periféricos.
— Essa diversidade faz com que nossas decisões estejam sempre atentas a questões invisibilizadas em outros contextos — afirma.
A curadoria foi estruturada a partir de dois eixos: Cosmopoéticas da Terra — obras ligadas às diásporas africanas, às culturas populares, aos povos originários e a contextos periféricos — e Emigração Latino-americana — que dá visibilidade a criações que partem das experiências de migração na América Latina e no Caribe.
Além de artistas convidados, houve chamada pública priorizando trabalhos autorais de artistas negros, indígenas, periféricos, trans, estrangeiros e brasileiros que afirmam sua identidade latina.
Entre os artistas participantes está Luyd Carvalho, morador da Maré, que apresenta pela primeira vez no Brasil sua videodança “Um por todos”.
— É uma experiência muito feliz e animadora ser convidado para o festival — diz Carvalho. — Apresentar “Um por todos” nesta programação rica, junto a artistas tão potentes, é incrível. É uma reação atemporal a múltiplas questões ligadas à minha vivência na Maré, território que recebe o festival.
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Carvalho também fala sobre os desafios de ser cria daquela comunidade e artista negro:
— Já enfrentei preconceito e barreiras por ser homem negro da Maré e usar a arte para desconstruir padrões de masculinidade. Existem espaços que até hoje não consigo acessar por simplesmente ser quem sou e vir de onde vim. Iniciativas como este festival são essenciais porque ampliam o alcance de artistas afro-latinos, periféricos e migrantes, derrubando essas barreiras invisíveis.
Thaina Iná, outra participante, ressalta o significado do convite:
— É uma afirmação e o reconhecimento do meu trabalho. Ver outros artistas com trajetórias diversas na programação reforça esse reconhecimento. Ela apresenta a videoperformance “Ponta solta”, que dialoga com identidade, gênero, raça e religiosidade.
Thaina reforça a importância do festival para a representatividade:
— É um evento feito de nós para nós. Nossas vozes e expressões precisam de destaque dentro de sua complexidade e diversidade, e o festival cumpre exatamente esse papel, inclusive na equipe de produção.
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Para Miriam, o festival também é um ato político:
— Realizar o evento na Nova Holanda significa afirmar a potência cultural de um território frequentemente estigmatizado. Ao colocar vozes migrantes, negras, indígenas e periféricas no centro, questionamos padrões hegemônicos e combatemos estereótipos. É sobre reconhecer que as periferias são espaços de criação, inovação e potência cultural.
A programação do festival traz oficinas de dança e percussão afro-brasileira, afro-cubana e moçambicana, além de videoarte e espetáculos que exploram memória, ancestralidade e resistência.
Neste sábado (13), haverá oficina de dança afro-brasileira com Fábio Batista, às 14h; seguida de uma mostra de videoarte, às 16h, com obras de Luyd Carvalho (“Um por todos”) e Thaina Iná (“Ponta solta”), além de “Escavação” e “Tem coisas que eu só sei dizer dançando”. Amanhã, a programação segue com oficina de percussão afro-brasileira com Kaio Ventura, às 14h; e o espetáculo “Terreno fértil”, dirigido por Tuany Tomaz Nascimento, às 16h.
No sábado seguinte, Sumalgy Nuro conduz oficina de percussão moçambicana, às 14h; seguida de performances artísticas, às 16h, com “Saia” (Camila Daniel), “Mar revolts” (Kley Hudson) e “Sua bença mãe” (Rafo Avelino). Por fim, no dia 21, haverá oficina de dança afro-cubana com Israel Valdés, às 14h; e, no encerramento, às 15h30, pocket shows de Kalebe (“Nossos passos vêm de longe”), Movimento Cultural Jongo da Lapa (“Negro veio de além-mar”), Ilessi (“Atlântico negro” e repertório autoral), Negro Mendes (música afro-peruana) e DJ Aiyra.