Nasci na cidade de Gaza, onde passei toda minha vida. Trabalhei como jornalista até junho, quando conseguimos sair, eu e minha família: meu irmão de 14, anos; minha irmã de 19; meu pai, professor artista de 49 anos; e minha mãe, advogada, 47 anos. Hoje vivemos em Marselha, na França.
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Tenho 22 anos, mas sinto como se fosse muito mais. Tenho um rosto jovem com alma idosa. Antes, saía com os amigos, vivia a vida com minha família. Gaza é um lugar tão pequeno e simples, não dá para fazer de tudo. Mas era o bastante. Estudava francês, porque queria ser empreendedora e trabalhadora humanitária, ajudar os outros. Também quis ser diplomata, mudar o mundo.
No dia 7 de outubro de 2023, eu tinha 20 anos. Fiquei chocada com o que o Hamas fez. Nos perguntávamos: o que está acontecendo? Queremos viver nossas vidas, não precisamos disso. Em maio, já tinha acontecido uma pequena guerra entre Israel e Hamas. Pensávamos: chega. Não queremos viver isso mais, estamos tão cansados. Já tinha sido 2008, 2012, 2014, 2019, 2021, 2023.
No terceiro dia da guerra, perdi minha casa. Não sei como sobrevivemos. O prédio de cinco andares onde toda a minha família morava era o alvo. No início, achamos que seria o prédio vizinho. Pensamos: “Não vamos fazer nada, não somos do Hamas, somos civis.” Mas eu disse que era melhor prepararmos nossas mochilas de emergência, com documentos e dinheiro.
Fomos para o porão. Um vizinho disse: “Vocês têm que esvaziar o prédio inteiro.” Alguém do Exército tinha alertado. Não pegamos nada. Ainda achávamos que, no máximo, janelas seriam quebradas, ou as portas, queimadas. Saímos, e veio o primeiro ataque. Vi o prédio pegar fogo, metade desmoronou. Corri de volta para buscar meus gatos e agradeci que só metade tinha sido destruída: poderíamos reconstruí-lo. Mas ligaram de novo e disseram que iriam completar a missão. Saímos de novo. O segundo ataque pôs o prédio inteiro no chão. Viramos desalojados. A partir daquele dia, entendi que a guerra não era apenas sobre o Hamas. Esta guerra também incluía civis.
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Naquela noite, dormimos no vizinho. De manhã, fomos para minha tia. E aí recebemos a ordem de que todas as pessoas no norte tinham que ir para o sul. Foi um pesadelo. As pessoas estavam deixando suas casas com suas coisas. Nós só tínhamos o carro e passaportes. No sul, nosso tio nos recebeu. Depois, moramos nas casas de outras pessoas e de aluguel. Fui para Deir al-Balah, Rafah, Deir al-Balah, Khan Younis… fui desalojada 17 vezes.
Sara foi a primeira amiga que perdi, em 16 de outubro de 2023. Malak, a segunda, no dia 31. Desde então, pessoas que conheço morreram todos os dias, mas não amigos. Sara era tão nova, tinha 17 anos. Um ataque aéreo atingiu o prédio em que ela estava.
Em dezembro de 2023, começou a ficar difícil encontrar comida. Todo mundo tinha dificuldade, mesmo que tivesse dinheiro, não tinha nada para comprar. Houve um período em que comíamos só uma vez por dia. Às vezes, estávamos tão deprimidos que não comíamos. Perdi dez quilos.
Não estudei jornalismo, virei jornalista sozinha. O jornal italiano La Repubblica me chamou para trabalhar porque eu falava inglês. Eles me chamaram no primeiro dia, mas eu estava em choque e não esperava que a guerra fosse durar dois anos. Depois de três meses, pensei: estou pronta.
A primeira coisa que fiz foi escrever no Google: “Como se tornar uma boa jornalista.” Estava pensando em fazer cursos, li muito. No começo, só fazia entrevistas e coletava histórias sobre a evacuação. O primeiro vídeo que fiz sozinha foi quando evacuavam Rafah, no dia que fecharam a fronteira.
Quando o cessar fogo aconteceu, fiquei deprimida. Tinham sido 44 mil mortos até então. Agora são 60 mil. Em só três meses, perdemos 16 mil pessoas. A terra, Gaza, Israel, esses lugares, podem ser reconstruídos. Mas, se o cessar-fogo acontecer, se vier uma solução de dois Estados, quem vai trazer de volta os amigos que perdi? Quem vai trazer de volta os 60 mil mortos?
Quando você é jornalista, tem que ouvir pessoas, reportar o que está lá fora, se ficar deprimido, pode desmoronar. Reprimi meus sentimentos para terminar o trabalho. Isso me salvou. Se me importasse com minhas emoções enquanto há um genocídio em Gaza, não iria me curar. Quero me curar quando tudo terminar. Escolhi trabalhar. Se estivesse reportando com sentimentos, não iria conseguir fazer nada, porque escutava histórias de pessoas que não encontravam comida, que perderam toda a família e viviam sozinhas, órfãos, pessoas que, com 16 anos, agiam como se fossem responsáveis por conseguir comida para suas famílias. Fiquei muito perto de desistir do jornalismo.
Pensei em desistir porque senti que estávamos reportando em vão, que as pessoas no mundo não se importavam. No ano passado, o norte de Gaza também sofreu com a fome, Israel não deixava nada entrar. Eu ouvia histórias de pais e seus filhos e pensei: dane-se o jornalismo. Não quero. Como se eu reportasse e ninguém se importasse. A segunda vez que quis desistir, eu estava cobrindo o ataque ao Hospital al-Aqsa. Pessoas queimaram vivas e ninguém fez nada por elas. Na terceira vez, foi quando o cessar-fogo aconteceu e Israel continuou atacando civis.
Quando eu estava apurando o ataque ao Hospital Nasser, em Khan Younis, ouvimos que jornalistas eram alvo: 215 jornalistas já tinham morrido. Pensei: por quê? Quis desistir muitas vezes. Só não desisti porque sou responsável pelo que escolho. Escolhi ser jornalista. Mesmo que as consequências sejam difíceis, meu dever é claro: relatar o que acontece em Gaza. Não quero me tornar famosa, só quero reportar o que acontece com dois milhões de pessoas. É minha responsabilidade. Não vou parar de fazer o que faço até que a guerra e o genocídio terminem.
Quando soube que poderíamos sair de Gaza, senti que não queria. Como se fosse a hora errada. Me sinto culpada todos os dias. Não deveria ter saído. Mais de dois milhões de pessoas ainda estão sofrendo. Dizem que tenho que ser grata, mas não sinto nada. Não consigo comer, meu estômago recusa comida. Vivo tomando água e bebendo café, lendo as notícias e reportando sobre Gaza. Mês passado não consegui fazer nada. Tentei, mas não consegui. Como superar? Meu povo ainda está lá.
Sou muito apegada ao mar. Por isso, amava Gaza. A praia sempre foi meu lugar preferido. Foi a última coisa que vi. No último dia, estava trabalhando. Quando terminamos, disse: podemos ir para a praia? Quero ver antes de ir embora. Fiquei lá, chorando. Chorava porque estávamos deixando Gaza, e eu não sabia se um dia poderia ver Gaza de novo.
Saímos por Kerem Shalom, passamos pela Jordânia e, de Amã, pegamos o avião para Paris e depois Marselha. Em todo o caminho, eu só chorava. Uma amiga fez uma playlist para mim antes de partirmos. O nome é “Você está indo embora”. Eu ia escutando as músicas: “Happy to be sad” [“Feliz em estar triste”], “It’s ok” [“Tudo bem”], “Pointless” [“Sem sentido”], “No one noticed” [“Ninguém percebeu”], que continuo ouvindo sem parar.
Às vezes, acho que seria mais fácil morrer do que viver aquela vida. Porque é como se estivessem nos matando aos poucos. E, mesmo que você sobreviva, quando você sai de Gaza, é outro tipo de morte.
Agora eu estou na França e sinto como se não tivesse saído do genocídio. Sinto como se estivesse vivendo tudo. Sinto que eu trouxe Gaza para a França junto comigo.
*Em depoimento a Paola De Orte, em Paris