Não tem muito tempo que começamos a beber bons drinques por aqui. Até a geração dos meus pais, o bico era mais para bebidas de garrafa. Depois, veio a discoteca. Copos grandes para durar mais tempo na pista e líquidos coloridos para chamar atenção. Nem precisava ser bom, tinha é que dar barato. O caldo entornou de vez quando Tom Cruise protagonizou o filme “Cocktail”, resumindo o trabalho atrás do balcão a jogar garrafas para o alto com um sorriso canastrão.
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A retomada foi lenta, começou a engatinhar na virada do século, e se deu de fora para dentro. Sem surpresas. É a tal síndrome de vira-lata, só não sabia que dava em cachorro engarrafado também. Passamos alguns bons anos amargando um negroni como bebida mais pedida nos bares. Veja, a combinação de gim, vermute rosso e Campari não é a mais vendida no mundo por anos à toa. Tem seu charme, mas não tem borogodó.
Um dos responsáveis por sacudir essa poeira e começar a dar a volta por cima foi Gustavo Stemler, com seu caju, caju, caju, caju. Um martíni que usava a fruta de quatro formas diferentes, do sal ao mel. A fusão de técnicas e sabores inéditos foi parar na Suécia, deixando muito gringo de boca aberta. Apesar da sofisticação do que criava, ele sempre deixou claro que gostava mesmo é de beber e se inspirar em botequins, com tudo e todos juntos e misturados.
Errado ele não estava. Poucos anos depois, foi num boteco de São Paulo que surgiu um dos ícones da coquetelaria popular brasileira: o macunaíma. Entediados com a falta de clientes, os donos do Boca de Ouro começaram a misturar mililitros de garrafas malditas e chegaram à fórmula mágica: cachaça, Fernet Branca e limão tahiti. Rapidamente, a beberagem tornou-se tão célebre quanto o herói sem caráter da obra de Mário de Andrade.
Hoje, a nova geração de bares se orgulha de nossas raízes, cascas, plantas e garrafadas. Um dos primeiros a destacar os clássicos brasileiros na carta foi o Suru Bar, no coração pulsante da cidade, entre a Lapa e a Glória. Mas Igor Renovato e Raí Mendes foram além de libertar ingredientes e bebidas marginalizados. Transformaram histórias e personagens da cidade em drinques, como o muquira: Campari, tônica de laranja e compromisso com quem bebe. Uma homenagem a Sérgio Rabello, do Galeto Sat’s, rei da saideira mais emblemática do Rio.
Os rapazes tomaram gosto pela coisa e nas próximas semanas abrem o Conserva, na Prado Júnior. A nova empreitada tem o reforço de Thiago Teixeira, jogador caro, com a mesma quilometragem de balcões abastados e botequins suspeitos. Spoiler: vai ter goiabada cascão etílica e guarnição com ovo de codorna colorido e salame no palito. Aliás, tudo por lá vai ser para comer no palito.
No sapatinho brota outra novidade, só que na Tijuca. É o Miudinho, irmão caçula do Botica. Se em Botafogo se bebem os ritos, raízes e uma pitada de axé, por lá o olhar será mais local. As visitas à Aldeia Maracanã, vizinha ao bar, foram fundamentais e inspiraram o marakanã, em tupi mesmo, com o destilado de mandioca tiquira, Paratudo, limão, açúcar e raspas de cumaru. Para pegar, passar a bola para o lado, brindar e continuar pisando nesse chão devagarinho.