Este conteúdo faz parte da newsletter IAí?, que existe para te guiar no universo da inteligência artificial. Assine aqui para receber toda terça-feira no seu e-mail.
Talvez você não saiba, mas existem cantos da internet em que modelos de inteligência artificial são colocados para “duelar”. Nessas arenas virtuais, as pessoas votam para decidir qual entrega o melhor resultado em diferentes tarefas. Foi em um desses “ringues” que, em agosto, um competidor misterioso chamou atenção, identificado apenas por ícones de bananas.
Rapidamente, a IA ganhou destaque por trazer bons resultados com imagens e aparecer no topo de rankings. Sem nome oficial, foi apelidada de “Nano-Banana”. Em 26 de agosto, Sundar Pichai, CEO do Google, chegou a publicar uma mensagem enigmática nas redes sociais de três bananas e nada mais. Foi então que a empresa quebrou o silêncio e confirmou que era responsável pelo sistema, chamado oficialmente por um nome menos chamativo: Gemini 2.5 Flash Image.
Mas não só o apelido curioso e o lançamento com ar de mistério fizeram da nova IA um fenômeno. O Nano-Banana realmente surpreendeu ao resolver, com o perdão do trocadilho, uma das cascas que faziam sistemas de IA escorregarem: a edição de imagens. O problema frequente estava na capacidade de modificar algo em uma fotografia, mas sem mudar o restante. Frequentemente, os sistemas também alucinavam ao executar pedidos básicos.
O ChatGPT, concorrente do Google, chegou a avançar nessa área. Em março, lançou um recurso que permite circular parte da imagem e pedir uma alteração. Mas, na prática, o resultado para muitas fotos reais ainda deixava a desejar (além de demorar). O chat com frequência mudava mais do que deveria e não conseguia preservar os elementos de forma consistente.
- Personagens sintéticos: IAs que simulam intimidade e até romance expõem crianças e adolescentes a riscos
Agora, o Google parece resolver esse problema — o que, como tem acontecido no mundo da IA, deve forçar outras ferramentas a correr para fazer igual ou melhor. Abaixo, veja como o Nano-Banana se sai em testes reais e em quais tarefas ele pode ser útil.
Para usar, é simples. Primeiro, acesse o site ou o aplicativo do Gemini (provavelmente você terá que fazer o login na conta do Google) no celular. Se nunca usou a IA, vai perceber que ela é bem parecida com o ChatGPT. Depois, adicione a imagem que quer editar. A opção para fazer isso está no ícone de “+”, com “enviar arquivo” ( 📎). Depois do envio, digite o seu comando (prompt) para realizar as edições.
O novo modelo do Google é lançado em um momento em que diversos aplicativos tentam aperfeiçoar funções de edição e criação de imagens com IA. É o caso de aplicativos como o Canva, que tem recursos desse tipo, e até de veteranos como o Photoshop, que incluem ferramentas de inteligência artificial, em que o usuário edita com pedidos de texto.
Entre os chats, para além de Gemini e ChatGPT, outros também têm avançado. O chinês Qwen, da gigante Alibaba, é um exemplo. Semanas antes do Nano-Banana, a empresa lançou uma função de edição de imagens com bons resultados em tarefas como inserir e remover objetos, mudar estilo da imagem e editar textos.
- Respostas mais confiáveis: Como usar o modo ‘investigação’ das IAs e fazer pesquisas profundas
As possibilidades de uso da IA do Google são parecidas. É possível pedir para incluir ou retirar elementos (e pessoas), mudar paisagens, iluminação e ângulos, pedir para melhorar a qualidade de uma fotografia ou até criar algo novo, a partir de referências. O próprio Google sugere alguns usos como: desfocar o fundo; remover uma mancha em uma camiseta; alterar a pose de um personagem ou colorir uma foto em preto e branco.
2. Testamos a IA: veja antes e depois
Para começar, o pedido para o Gemini foi relativamente simples: retirar uma pessoa de uma fotografia. O comando enviado foi o seguinte “Retire o homem de terno cinza e gravata azul claro que está na ponta direita desta fotografia”. O resultado veio rapidamente:
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/o/a/zTrurSRP6Sejg8kQEtTg/whatsapp-image-2025-09-01-at-23.14.33.jpeg)
A segunda edição foi mais elaborada. Na mesma foto, de um banco de imagem público, pedimos ao Nano-Banana para incluir Tom Cruise ao lado do grupo. O comando, detalhado, trouxe sugestão de pose, roupas e iluminação. Essa, aliás, é uma recomendação do Google: quanto mais informações incluir, melhor o resultado.
Duas fotos de referência de Tom Cruise foram incluídas. O pedido feito foi: “Estou anexando uma foto base de um casamento na praia e duas imagens de referência do Tom Cruise em trajes formais. Adicione Tom Cruise à foto base, ao lado direito da senhora de vestido azul. Ele está de pé, corpo inteiro visível, postura neutra, sorriso discreto, braços relaxados ao lado do corpo. Usa um terno azul com gravata cinza. Altura similar à dos outros homens do grupo e pés descalços na areia. Igualar à luz suave do pôr do sol da foto base”.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/a/S/lAvHM6TieFhl8qBPYqgw/whatsapp-image-2025-09-01-at-23.16.18.jpeg)
Os resultados foram rápidos e vieram depois de menos de um minuto. Ainda com a foto do casamento, testamos a troca de cenários. Com uma fotografia do tapete vermelho de Cannes, o pedido foi: “Gostaria de alterar o ambiente dessa fotografia. Em vez da praia, quero que as pessoas estejam no tapete vermelho do Cannes Film Festival, como enviado anexo”.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/1/M/bCEmwNTL61Gkabd2d9Cg/whatsapp-image-2025-09-01-at-23.19.38.jpeg)
3. Como fazer edições sutis (ou não)
Em outro teste, a referência original era um homem sentado em um ambiente descolado.Três comandos foram executados. O primeiro era para trocar as roupas atuais por um terno. No segundo, a IA precisava melhorar a luminosidade do ambiente; eliminar as plantas e trocar os óculos do homem (a imagem dos novos óculos foram enviadas como referência).
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/B/7/ywNs1fQXCPGlHa3KvIJA/whatsapp-image-2025-09-01-at-23.30.14.jpeg)
O Nano-Banana mantém aspecto realista mesmo em pedidos “absurdos”. Com a mesma imagem original, pedimos para fantasiar o personagem com uma fantasia de pirata (o prompt foi: “Gostaria que você deixasse tudo como está, mas colocasse uma fantasia de pirata ao invés de um terno. Ele também ergue a mão e mostra um gancho. Envio uma imagem de referência para a fantasia”). Veja o exemplo:
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/z/i/n31L9ZRBu78W9sDbrAYw/whatsapp-image-2025-09-02-at-00.07.47.jpeg)
Para comparar a IA do Google com o ChatGPT, veja como fica o primeiro pedido para trocar uma camisa xadrez pelo terno (o comando para os dois sistemas foi: Mantenha a foto original exatamente como está. Apenas substitua a roupa atual da pessoa por um terno formal escuro com camisa branca). O primeiro resultado veio bem. No segundo, em que era preciso mudar a iluminação, retirar a planta e alterar o óculos, o ChatGPT transforma a fotografia:
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/P/g/x6DVWxTkWQOqxjhaNkKg/whatsapp-image-2025-09-01-at-23.34.16.jpeg)
4. IA resgata imagens antigas
Outro uso interessante do Nano-Banana é dar “nova vida” a fotografias antigas. A IA melhora a nitidez, pode corrigir falhas e até colorir a fotografia. Mas o resultado depende muito do estado da foto original: se houver áreas borradas ou totalmente apagadas, fica mais difícil recuperar os detalhes. Já as cores aplicadas pela IA são uma interpretação e não necessariamente correspondem exatamente ao original.
Abaixo, o resultado do teste com uma fotografia histórica do atacante Filó, o primeiro jogador brasileiro a ser campeão de uma Copa do Mundo, em 1934, pela Itália. A foto é de 1920, quando ele defendia a Portuguesa.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/p/8/8eMQOSRweVB7nJPAfCrw/whatsapp-image-2025-09-01-at-23.42.12.jpeg)
Também testamos a mesma imagem com o ChatGPT, para compará-las. Ao pedir a restauração, o modelo da OpenAI refez quase que completamente a fotografia, mesmo que o pedido tenha sido apenas de uma restauração:
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/m/u/BZ6rrsStWWjpqpXvHMqA/whatsapp-image-2025-09-01-at-23.51.33.jpeg)
5. As possibilidades (e os riscos)
A seguir, algumas outras ideias para usar o modelo do Google:
- Fazer edições pontuais em retratos – Dá para trocar a cor de uma roupa, remover um acessório ou ajustar pequenos detalhes sem alterar profundamente a imagem
- Juntar elementos de fotos diferentes – Você pode combinar duas imagens, como uma pessoa e um objeto, para criar uma cena única
- Aplicar estilos visuais de uma imagem em outra – O modelo consegue transferir padrões ou texturas (como a estampa de uma roupa ou o estilo de um desenho) para outro objeto ou foto.
- Decoração e ambientes – testar como ficaria a sala com paredes de outra cor, trocar móveis de lugar ou experimentar estilos diferentes (minimalista, rústico, moderno)
- Troca de roupas em fotos pessoais – ver como você ficaria com um vestido de festa, um terno, uniforme de trabalho ou até roupas casuais de outra cor
- Planejamento de visual – experimentar cortes ou cores de cabelo diferentes em retratos
- Marketing e publicidade – criar variações de campanhas para testar cores de produtos, fundos e cenários
Para quem vai se aventurar, é bom lembrar: ao usar versões gratuitas do Gemini, as imagens e prompts podem ser aproveitados pelo Google para treinar os modelos de IA. Só nos serviços pagos ou corporativos há garantia de que o material não será usado dessa forma. Também é possível acionar o modo anônimo, que impede o uso das interações para treinamento (mas salva as conversas por 72 horas).
Não custa reforçar também que os modelos de edição de imagem, como o próprio Nano-Banana, ampliam os riscos de deepfakes realistas e desinformação, enquanto as marcas d’água e identificadores digitais ainda não são suficientes para garantir a rastreabilidade. Há ainda disputas judiciais envolvendo o uso de obras sem licença no treinamento desses sistemas.