A China realizou nesta quarta-feira um desfile militar pelos 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Sino-japonesa. A parada, organizada na Praça da Paz Celestial, no coração de Pequim, foi marcada por uma demonstração maciça de força militar e contou com a presença dos presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Coreia do Norte, Kim Jong-un — dois dos principais aliados de Xi Jinping no atual cenário global.
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Desde a Guerra Fria, os três países não reuniam seus chefes de Estado em um mesmo evento — a última vez havia sido em um desfile realizado em 1959, também em Pequim, quando Mao Tsé-tung recebeu Kim Il-sung e Nikita Khrushchev. Agora, imagens de Putin e Kim — cujos países enfrentam sanções dos EUA — ocupando lugar de destaque ao lado de Xi foram transmitidas para todo o mundo, no momento em que Pequim exibia mísseis com capacidade de atingir o território americano.
Veja abaixo o que se sabe sobre o desfile:
A China apresentou alguns dos mais recentes avanços de seu arsenal, incluindo mísseis intercontinentais, drones submarinos extragrandes, armas a laser e caças stealth, em uma demonstração de força que ocorreu poucos dias após a realização de uma cúpula de segurança internacional na capital chinesa. Veja as principais revelações:
- DF-5C – Míssil balístico intercontinental: O novo míssil nuclear de longo alcance, movido a combustível líquido, foi exibido sobre veículos camuflados. Segundo o Global Times, o projétil é capaz de atingir qualquer ponto do planeta e permanece em alerta contínuo para “prevenir guerras pela força”.
- Drones submarinos de grande porte: Foram apresentados os modelos AJX002 (presumivelmente de reconhecimento) e HSU100 (com possível capacidade de lançar minas), reforçando o avanço chinês no desenvolvimento de veículos não tripulados subaquáticos. A China possui hoje o maior programa global de XLUUVs (veículos submarinos não tripulados extragrandes).
- Novos mísseis antinavios: Os modelos YJ-15, YJ-17, YJ-19 e YJ-20 foram mostrados sobre caminhões. Eles fazem parte da linha Ying Ji (“Ataque da Águia”) e, segundo analistas, os três últimos podem ser hipersônicos — capazes de atingir ao menos cinco vezes a velocidade do som.
- Sistema de defesa a laser LY-1: Uma arma a laser promovida como “a mais potente do mundo” foi apresentada no desfile. Ainda em testes avançados, o equipamento se encaixa na categoria de armas de energia dirigida, tecnologia também em desenvolvimento pelos EUA.
- Veículos não tripulados de superfície e terrestres: O desfile incluiu embarcações autônomas, drones aéreos e veículos terrestres não tripulados, com funções de transporte, reconhecimento, evacuação e varredura de minas.
- Caças e aeronaves de nova geração: Alguns dos caças stealth mais recentes da China, incluindo o bimotor J-35 e os bombardeiros H-6, foram vistos decolando. Mais de 100 aeronaves participaram de um sobrevoo no local. Também foram exibidos aviões de comando e controle, jatos de transporte de quatro motores e uma frota de helicópteros carregando a bandeira chinesa.
- Radar e alerta antecipado: Aeronaves com sistemas de radar também sobrevoaram o local. Um dos destaques foi o avião KJ-600, projetado para operar a partir de porta-aviões. O modelo deve entrar em serviço no porta-aviões Fujian nos próximos meses.
China exibe força militar e frente de resistência aos EUA
O desfile foi organizado para marcar os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial no front asiático, conhecido na China como “Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa”. A data tem forte valor simbólico para o governo chinês e tem sido cada vez mais usada por Xi Jinping para reforçar o discurso de unidade nacional, poder militar e rejeição a interferências externas.
Em seu discurso de abertura, Xi afirmou que o mundo vive uma “escolha entre paz e guerra” e declarou que a China é uma nação “que nunca se intimida diante de valentões”. Sem mencionar diretamente os Estados Unidos, a fala foi interpretada como uma resposta indireta às críticas ocidentais à postura de Pequim em disputas como a de Taiwan e no Mar do Sul da China.
Quem participou? E quem se ausentou?
A lista de chefes de Estado e de governo presentes em Pequim nesta quarta-feira mostrou um perfil mais voltado a regimes autoritários do que em 2015, quando a China realizou sua primeira parada em comemoração à rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial. Além de Putin e Kim, este ano uma dúzia de líderes de países — do Irã a Cuba — participou pela primeira vez do evento a convite de Xi.
Também participaram do evento os presidentes de Belarus, Aleksandr Lukashenko; do Irã, Masoud Pezeshkian; da Indonésia, Prabowo Subianto; e o chefe da junta militar de Mianmar, Min Aung Hlaing. A imagem de Xi dividindo o palco com Putin, Kim e o presidente iraniano reforçou o que alguns analistas têm chamado de “Eixo da Turbulência” — uma coalizão informal vista como um desafio à ordem global dominada pelos EUA.
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Ao todo, líderes de 26 países participaram do evento, de acordo com a lista divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores da China — quatro a menos do que há uma década. Antigos aliados de guerra da China, como Reino Unido e Estados Unidos, porém, não marcaram presença. E, ao contrário de 2015, estiveram ausentes países como Polônia e República Tcheca — substituídos por nações europeias mais simpáticas à Rússia, como Sérvia e Eslováquia.
Outros países, como Coreia do Sul, Egito e Brasil, enviaram representantes de alto escalão ou enviados especiais.
Embora não tenha sido o foco oficial do evento, o tema esteve presente no discurso de Xi, que mencionou repetidamente o “rejuvenescimento da nação chinesa” — um conceito que inclui a “reunificação” com Taiwan. Pequim considera a ilha uma província rebelde, enquanto o governo taiwanês rejeita qualquer tentativa de anexação. Em resposta à parada, o presidente de Taiwan, Lai Ching-te, afirmou:
— O povo de Taiwan valoriza a paz e não comemora a paz com o cano de uma arma. (Com Bloomberg e AFP)