A maioria dos destinos turísticos tem placas indicando seus pontos históricos. Em Puerto Banús, perto de Marbella, na Costa do Sol, na Espanha, as placas direcionam os visitantes para grifes de luxo como Bottega Veneta, Bvlgari, Louis Vuitton e Rolex. Iates ocupam a orla, enquanto Ferraris, Lamborghinis e Bentleys circulam pelas ruas.
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Durante décadas, Marbella atraiu dinheiro internacional. Europeus — especialmente do Reino Unido e da Escandinávia — compraram segundas residências na região ou passaram a viver permanentemente ali no fim do século XX. O local também recebeu fugitivos internacionais em busca de refúgio da Justiça, o que lhe rendeu o apelido de “Costa do Crime”.
Mais recentemente, um grupo mais diversificado de compradores chegou à região, que se tornou ostensivamente rica, com residências de luxo e condomínios fechados se multiplicando e avançando pelas colinas ao redor.
Agora, a cidade quer se reinventar, com uma visão “2.0” que posiciona a Costa do Sol como um Vale do Silício da Europa, tendo Marbella como seu Palo Alto. Espaços de coworking e escritórios estão surgindo ao lado de apartamentos e restaurantes de alto padrão.
— Estamos ajudando a mudar a narrativa de Marbella, de um destino de lazer para um polo sério para profissionais modernos — afirmou Christian Rasmussen, CEO do hub de negócios The Pool. — Acho que o futuro de Marbella será muito diferente do que vemos hoje.
Famosa por seus resorts, marinas e condomínios de alto padrão, Marbella quer diversificar sua economia e atrair startups e investidores do setor de tecnologia
Zarateman/ Wikimedia Commons
O The Pool está localizado na chamada Golden Mile, uma faixa litorânea que liga o centro de Marbella a Puerto Banús, cercada por palmeiras, restaurantes e resorts de luxo.
Quando a Bloomberg News visitou o local, em meados de maio, um grande grupo de empresários finlandeses discutia negócios em uma sala de reuniões com paredes de vidro, enquanto empreendedores europeus e do Oriente Médio trabalhavam em mesas compartilhadas em um ambiente decorado com plantas e pinturas abstratas emprestadas de um colecionador de Madri.
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Esse público reflete a mudança no perfil dos imigrantes da cidade. Antes, o mercado imobiliário era dominado por europeus de meia-idade em busca de uma segunda residência. Desde a pandemia, porém, corretores observam uma nova geração de compradores mais jovens interessados em adquirir imóveis onde possam viver e trabalhar durante todo o ano, segundo o relatório Marbella Market Report 2025, da Pure Living Properties.
Embora britânicos, escandinavos, alemães e holandeses continuem sendo os principais compradores internacionais, houve um aumento expressivo do interesse de pessoas dos Estados Unidos, Canadá, Polônia e países do Golfo.
— Depois da pandemia, chegaram a Marbella novos perfis de pessoas, investidores e hotéis, o que elevou a qualidade do lugar. Antes era apenas uma cidade bonita. Agora também é uma cidade de verdade — disse Artur Loginov, CEO da imobiliária Drumelia. — Nos últimos quatro ou cinco anos surgiram novas academias, restaurantes, hotéis e marcas mundialmente conhecidas, com o padrão de Nova York ou Mônaco.
Há décadas, Marbella atrai milionários, celebridades e investidores estrangeiros
leedsyorkshire/Wikimedia Commons
As incorporadoras buscam reposicionar Marbella como uma base permanente para fundadores de startups e investidores conectados globalmente — uma porta de entrada para a Europa que combina sol com a conveniência e o luxo acessível normalmente associados aos Emirados Árabes Unidos.
Uma das novidades do mercado imobiliário de Marbella — semelhante ao que ocorre em Dubai e Miami — é o crescimento das chamadas residências de marca, em que incorporadoras firmam parcerias com atletas famosos ou grifes de luxo.
O tenista Rafael Nadal, por exemplo, uniu-se ao estilista Giorgio Armani para desenvolver 33 mansões de ultra luxo. Dolce & Gabbana, Fendi e Karl Lagerfeld também lançaram empreendimentos residenciais. Além disso, começaram a surgir residências associadas a hotéis, oferecendo aos moradores serviços e comodidades semelhantes aos de hotéis de luxo.
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Embora vários restaurantes sofisticados tenham sido inaugurados recentemente, há uma “fila” de estabelecimentos esperando para abrir em Marbella, porque bons pontos comerciais se tornaram escassos, segundo Mary Dunne, fundadora e sócia da imobiliária MPDunne Properties.
Atualmente, a empresa trabalha com uma rede de restaurantes sediada em Dubai para encontrar um imóvel na cidade, mas a tarefa tem sido difícil.
— Estamos longe de ser uma grande cidade em termos de tamanho; o espaço é limitado — afirmou.
À medida que o perfil dos imigrantes se torna mais jovem, a infraestrutura para atendê-los também cresce.
— Há cerca de 40 anos existiam talvez 11 escolas internacionais — disse Richard Sutcliffe, diretor do English International College, em Marbella. — Hoje são mais de 50.
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Entre as famílias que matriculam seus filhos nessas escolas estão as “ultrarricas”, que nem sempre vivem em Marbella durante todo o ano, mas contam com babás e motoristas para cuidar da rotina das crianças, afirmou Sutcliffe. Segundo ele, houve um aumento significativo de famílias vindas dos Estados Unidos, Dubai, Rússia e China.
— Em vez de atrair pessoas prestes a se aposentar, Marbella passou a atrair talentos — afirmou Rasmussen. — Não acredito que existam muitos lugares no mundo com essa concentração de talentos. Acho que isso é uma mina de ouro.
Segundo Rasmussen, inicialmente muitos dos recém-chegados serão empreendedores individuais do setor de tecnologia, que não empregarão mão de obra local. Mas, ao compartilharem espaços de trabalho, tendem a colaborar entre si e desenvolver projetos mais robustos, com maior impacto na economia local.
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— Se algo nascer em Marbella ou na Costa do Sol, o impacto ficará aqui — afirmou. — Principalmente quando essas pessoas começarem a interagir com empreendedores locais.
Bob van Winden mudou-se de Dublin para Marbella após a pandemia. Natural da Holanda, passou boa parte da carreira em Dublin e na região da Baía de São Francisco, trabalhando em empresas como Google e Stripe. Em 2024, ingressou na Bridge, uma plataforma de pagamentos baseada em stablecoins, adquirida pela Stripe em 2025.
Quando ele e a família decidiram se mudar para a Espanha, consideraram Madri e Marbella, optando pela segunda devido à qualidade de vida, às escolas internacionais e à grande comunidade de expatriados.
Van Winden acredita que um número crescente de empreendedores está se estabelecendo na região, que há capital disponível e que os avanços em inteligência artificial tornaram mais fácil do que nunca criar uma empresa de tecnologia com equipes reduzidas.
— Acho que todos esses ingredientes juntos criam um ambiente muito favorável para a inovação — afirmou. — Depois que você reúne os elementos certos, basta uma boa conexão de Wi-Fi para construir uma grande empresa.
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A prefeitura tem trabalhado em parceria com o The Pool para atrair investimentos estrangeiros. Recentemente, Rasmussen acompanhou o prefeito em uma viagem à China para promover Marbella como porta de entrada para a Europa.
As autoridades municipais também lançaram o Marbellup, iniciativa para ensinar moradores a utilizar inteligência artificial, e realizaram, em junho, o evento Startup Olé, voltado a empresas de tecnologia.
Muitas cidades ao redor do mundo tentaram se posicionar como polos tecnológicos e atrair os chamados “nômades digitais”. Poucas tiveram sucesso.
Segundo Josemaria Siota, diretor-executivo do Centro de Empreendedorismo e Inovação da IESE Business School, em Barcelona, cidades não se transformam em polos de empreendedorismo apenas por atrair startups. É necessário criar um ecossistema em que empreendedores, investidores, universidades, empresas e instituições públicas interajam e fortaleçam uns aos outros.
— A principal característica de um ecossistema bem-sucedido não é apenas a presença desses atores, mas a força das interações entre eles — afirmou.
Na avaliação de Siota, Marbella começou a reunir muitos dos ingredientes corretos, mas “ainda não se desenvolveu como um ecossistema plenamente maduro”.
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Para muitos moradores, porém, a rápida expansão de condomínios fechados, empreendimentos de luxo e a chegada de capital internacional alteraram profundamente o tecido social da cidade, fazendo-os sentir-se cada vez mais desconectados da Marbella que conheceram.
Juan Guerrero, de 70 anos, vive em Marbella há meio século e lamenta as transformações. Segundo ele, a cidade costumava ser uma pequena vila de pescadores cercada por hortas.
— Mas isso mudou completamente — afirmou. — Já não existem hortas nem pescadores. A cidade mudou por completo. Há gente por toda parte, mal dá para caminhar, ruas inteiras foram tomadas por restaurantes e os comércios locais deram lugar a grandes redes.
Guerrero mora no centro histórico e diz que, ao longo dos anos, muitas casas foram transformadas em restaurantes, lojas e pequenos hotéis. De tempos em tempos, recebe cartas de imobiliárias oferecendo € 300 mil (US$ 343 mil) por sua casa. Ele não pretende vender.
— Principalmente porque está cada vez mais difícil encontrar uma moradia com preço acessível.
O preço dos imóveis à venda em Marbella disparou. Segundo dados do Idealista, o valor médio do metro quadrado aumentou cerca de 74% nos últimos cinco anos, passando de € 3.225 em junho de 2021 para € 5.608 em junho de 2026. Em Marbella Pueblo, os preços subiram 21,8% apenas em relação ao ano anterior, chegando a € 5.403 por metro quadrado em junho.
Nos últimos anos, Marbella também registrou episódios de violência ligados a organizações criminosas, incluindo tiroteios em restaurantes e casas noturnas, além de apreensões de drogas no mar. As autoridades relacionaram parte desses casos a redes criminosas transnacionais que atuam na região.
Antonio Garcia, taxista na casa dos 30 anos, diz que existe “uma Marbella de dia e outra de noite”. Durante o dia, tudo funciona normalmente; à noite, o tráfico de drogas e a criminalidade tornam-se mais visíveis. Pai de uma criança de dois anos, ele cogita se mudar para uma cidade menor para fugir da crescente insegurança.
— A essência da antiga Marbella foi se perdendo com o passar dos anos, à medida que mais riqueza chegou e mudou a atmosfera da cidade — afirmou. — Quando meu filho crescer um pouco mais, pretendo me mudar para um lugar mais adequado para criar uma família.

