A maconha creepy (também conhecida na Colômbia como “cripa”) é uma variante da cannabis cultivada em laboratórios e estufas clandestinas, principalmente na Colômbia. Em tradução livre, a palavra quer dizer estranho, horripilante e ela é famosa justamente por ser horripilante se comparada com outros tipos de maconha.
Ela é famosa por sua potência extremamente elevada e efeitos atordoantes, o que a torna mais cara e perigosa para a saúde. Enquanto a porcentagem de THC da maconha comum varia entre 0,5% e 5%, a creepy pode atingir concentrações de até 25%.
O alto teor de tetrahidrocanabinol (THC) eleva drasticamente o risco de dependência e o desenvolvimento de transtornos psicóticos, além de causar prejuízos cognitivos e de regulação emocional.
A maconha, usada em fase de desenvolvimento, tem um impacto na construção das conexões neuronais associadas ao córtex pré-frontal. E uma vez comprometidas, essas conexões não são reestabelecidas da mesma forma mais tarde.
O THC é o responsável pela sensação de euforia, mas também por efeitos colaterais indesejáveis no cérebro, principalmente quando o consumo começa na adolescência: dependência, transtornos psicóticos e comprometimento cognitivo, entre outros.
Maconha mais tóxica
Segundo pesquisas recentes, o consumo da maconha hoje em dia, exatamente pelo alto teor de THC, é mais perigoso do que há 20 ou trinta anos.
“Se a proporção média de THC na maconha consumida nas ruas era de 4% naquela época, hoje é de 17% ou mais”, explica à agência SINC Fernando Berrendero , pesquisador da Faculdade de Ciências Experimentais da Universidade Francisco Vitoria e diretor do Grupo de Pesquisa em Neurobiologia dos Transtornos de Adição e Ansiedade.
Essa mudança, que ocorreu em apenas alguns anos, é responsável pela baixa percepção social dos riscos associados à cannabis. Pais e avós de crianças que usam a droga hoje se enganam ao acreditar que se trata dos mesmos que fumavam antigamente. Pelo contrário: eles não têm nada a ver com isso.
Para se ter uma ideia, antes da década de 1990, a concentração de THC nos brotos de maconha era inferior a 2%, em comparação com 1% durante a era hippie da década de 1970. Na década de 1990, subiu para 4% e, desde então, aumentou 212%. De acordo com um estudo da Universidade do Colorado, nos EUA, existem variedades que podem ter até 35%.
Mais chances de sofrer de esquizofrenia
“O THC se liga diretamente aos receptores canabinoides CB1, amplamente distribuídos pelo cérebro, em estruturas neuronais que mediam funções importantes. É por isso que produz tantos efeitos diferentes”, diz Berrendero, especialista em estudos laboratoriais sobre o assunto.
“Os riscos aumentam dependendo da idade, da dose — ou quantidade de THC — e da duração do abuso (contínuo ou não)”, destaca Marina Díaz Marsá, presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria e Saúde Mental.
Um dos mais estudados nos últimos anos é que ele “multiplica por 9 as chances do surgimento de qualquer transtorno psiquiátrico, seja transtorno bipolar, esquizofrenia , depressão, ansiedade ou comportamento suicida , dependendo da idade — quanto menor a idade, pior o impacto no cérebro — e da quantidade de THC consumida”.
No caso da esquizofrenia, “o risco triplica”, disse à SINC o psiquiatra Celso Arango, ex-presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria e Saúde Mental e diretor do Instituto de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital Gregorio Marañón.
Em outras palavras, “se a cannabis não existisse, o número de casos de esquizofrenia cairia drasticamente”, enfatiza. Isso foi observado em estudos epidemiológicos longitudinais, que controlaram outras variáveis, como genes ou eventos traumáticos, para se concentrar exclusivamente nos efeitos do THC.
Um estudo, liderado por pesquisadores do Hospital Universitário de Copenhague, na Dinamarca, e dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA e publicado na Psychological Medicine em 2023, analisou os registros médicos de 6 milhões de pessoas no país europeu ao longo de 50 anos. A conclusão: até 30% dos casos de esquizofrenia entre homens jovens (de 21 a 30 anos) teriam sido prevenidos se não tivessem fumado cannabis.

