Espaços lotados sãocomuns na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Mas nem sempre o que lota são os templos religiosos — com exceção talvez da Flip de 2017, quando as mesas do programa principal foram transferidas para a Igreja Matriz. No início da noite de quarta-feira (22), quando o padre da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito perguntou se havia visitantes no templo, quase metade do público levantou a mão. Não cabia mais uma alma ali, havia muita gente de pé e do lado de fora. Esta Flip, a 24ª, começou diferente: antes da mesa de abertura, dedicada à autora homenageada, Orides Fontela, houve uma missa rezada por um convidado da festa: o português José Tolentino Mendonça, poeta renomado e padre. Ou melhor: cardeal.
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Nomeado em 2019 pelo Papa Francisco, Tolentino é prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, na Cúria Romana. É responsável por supervisionar a educação católica no mundo todo, proteger o patrimônio artístico da Igreja e liderar os diálogos com o setor cultural. Nesta quinta-feira (23), às 10h, ele divide o palco da Flip com o poeta brasileiro Edimilson de Almeida Pereira. Na celebração desta quarta, que contou com a presença do Padre Julio Lancellotti, Tolentino ficou responsável pela homilia.
Num discurso de menos de 20 minutos, o cardeal poeta se baseou num trecho da segunda carta do apóstolo Paulo aos coríntios, sobre o significado do sacrifício de Cristo, e na passagem do Evangelho de João na qual Maria Madalena descobre o túmulo vazio e dá de cara com Jesus ressurreto. O sermão foi pontuado por aproximações entre a fé e a literatura e por menções a autores como Dante Alighieri, Marguerite Youcenar e José Saramago, o Nobel português que era ateu mas admirava o texto bíblico.
Público da Flip se aglomera para assistir missa do cardeal poeta José Tolentino Mendonça
Alexandre Cassiano
Tolentino iniciou a mensagem falando sobre a fé que Paulo, autor da maioria dos livros que compõem o Novo Testamento, tinha na palavra e relacionou essa fé com o ofício dos escritores.
— A palavra que Paulo mandava aos cristãos era uma palavra carregada de intensidade, de fé em Cristo, certamente, mas também de fé na palavra humana, para acender a convicção e convencer o coração dos homens de seu tempo e de todos os tempos. Esse também é o magistério do escritor — pregou o cardeal. — O escritor nos contagia com sua fé na palavra, que nos ajuda a albergar em nosso coração novas possibilidades de mundo, novas alternativas para viver a vida.
Em seguida, o poeta apresentou a Bíblia como uma biblioteca e a comparou a outros clássicos antigos. Enquanto esses últimos com frequência narravam os feitos de grandes homens, a Bíblia costuma focar na vida de pessoas simples e, desse modo, nos dá uma grande lição de literatura, disse ele.
— A Bíblia conta histórias de pastores, de mulheres e homens comuns, do ponto de vista daqueles que não tinham nenhum poder. Isso foi uma revolução na forma de contar. Por isso a Bíblia é tão importante. Não conhecer a Bíblia é desconhecer a si mesmo. A Bíblia traz verdadeiramente um contributo inultrapassável na forma de entender e utilizar a palavra.
Ao comentar a história de Maria Madalena, cuja vida ele descreveu como “muito atribulada” (o Evangelho de Lucas diz que dela foram expulsos sete demônios), Tolentino afirmou que tanto a fé quanto a literatura nascem da “ferida”.
— A fé não é ser dono de Deus, não é domesticar Deus, mas é deixar que Deus seja Deus — disse o sacerdote, num desvio mais teológico antes de retornar à reflexão literária. — A literatura tem um papel muito importante na formação e no caminho humanos, porque é uma escola da vida, nos ajuda a entender a realidade, a abrir nossos olhos e criar esta relação de empatia com a vida e o futuro.
Tolentino terminou a homilia pedindo aos fiéis (e aos infiéis que ali estavam por amor à literatura) que agradecessem pelo “dom dos escritores”.
— É um dom divino. Os escritores são grandes aliados da humanidade, como grandes contadores da condição humana. Os escritores são mestres, porque as histórias são magistérios da vida. Vamos agradecer por esse magistério e pedir por todos nós que esta inteligência da humanidade, que esta comunidade de leitores, possa se traduzir em fraternidade.
Fé em Pasolini e Patti Smith
Nascido na Ilha da Madeira, em 1960, Tolentino é dos maiores poetas da língua portuguesa na atualidade. A primeira antologia brasileira de sua poesia acaba de sair pelo Círculo de Poemas: “Os enigmas singulares”. Ele já tinha obras de teologia publicadas por aqui.
Sua poesia é profundamente interessada nos mistérios da linguagem e investiga, de peito aberto, as diferentes dimensões da espiritualidade. Um bom exemplo é o poema “Grafito”, que traz uma epígrafe do filósofo francês Emmanuel Lévinas (“O poema é o ato espiritual por excelência”) e, em seguida, lista tudo o que “o poema pode conter”. Para espanto do leitor, o que cabe nesse “ato espiritual” é tudo aquilo que, à primeira vista, nada tem de divino, mas é banal e às vezes terrível: “venenos”, “excursões campestres”, “uma bicicleta caída junto às primeiras paixões sombrias”, “uma guerra civil”, “um disco dos Smiths”.
Em suas investigações sobre o divino, Tolentino recorre à sabedoria de pensadores e artistas que chama de “dissidentes”, como o cineasta soviético Andrei Tarkóvski, o italiano Pier Paolo Pasolini e a americana Patti Smith. Em entrevista ao GLOBO, ele os chamou de “mestres inesperados da vida espiritual” e disse que esses artistas o ajudaram a “perceber a fé como dissidência”.
— De fato, a fé é uma dissidência do visível. Ter fé é dizer que o que nós vemos não é tudo. Crer é uma luta — disse o poeta.

