Um dos sobreviventes do histórico acidente com o Césio 137, em 1987, morreu na manhã do último sábado (25). Lucimar das Neves Ferreira tinha 52 anos e foi encontrado morto na casa onde morava, em Aparecida de Goiânia, segundo a associação Vítimas do Césio-137. A causa da morte não foi revelada.
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— Hoje para as famílias das vítimas do acidente Césio 137 é um dia muito triste, em que a gente relembra todas as mazelas que esse acidente trouxe. Eu lembro que Lucimar não tinha onde ficar durante o dia, porque estava um tumulto danado. Eu levava ele para a minha casa, porque tinha meninos da idade dele, e colocava eles para jogarem videogame — informou Marcelo Santos, presidente da associação.
Lucimar é irmão da menina Leide das Neves, a primeira vítima fatal do acidente, que tinha seis anos à época, e se tornou símbolo da luta contra a tragédia, tal como a mãe dos dois, a Dona Lourdes das Neves.
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Ainda segundo Marcelo, Lucimar lutava contra o alcoolismo e a comunidade irá prestar assistência à sua mãe. Ele tinha apenas 14 anos na época do acidente. O velório aconteceu na manhã deste domingo (26), na cidade de Abadia de Goiás.
Em entrevista ao portal g1, Marcelo afirmou que Lucimar vinha tendo problemas de saúde e morreu dormindo. Recentemente, ele teve episódios de desmaio na rua.
“Ele estava fazendo tratamento agora, não sei bem de quê, porque ele não correspondia aos tratamentos. Eu sei que teve umas duas vezes aí que ele deu um desmaio na rua. Inclusive Dona Lourdes me chamou, eu acho que tem uns três meses, eu fui buscar ele lá no Hugo, porque ele desmaiou e levaram ele para lá”, contou ele, que lembrou umas das vezes em que a mãe foi buscá-lo no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo).
Relembre o caso Césio 137
Quem iria imaginar que 19 gramas de um pó azul brilhante geraria seis toneladas de lixo e o maior desastre radioativo do mundo fora de uma usina — logo em Goiânia, no meio do Brasil? Essa história começou em 13 de setembro de 1987, quando os catadores de material reciclável Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira pegaram uma peça de aço do terreno abandonado onde funcionava o Instituto Goiano de Radioterapia, a desmontaram e a venderam no ferro velho de Devair Alves Ferreira.
A partir daí, partículas radioativas de Césio 137, que estavam dentro da estrutura de aço, começaram a se espalhar e contaminar dezenas de pessoas. Essa história é recontada nesta quarta-feira coma estreia da série “Emergência radioativa” na Netflix, estrelada por Johnny Massaro, Ana Costa, Paulo Gorgulho e outros. A direção geral é de Fernando Coimbra e a criação, de de Gustavo Lipsztein.
Quando desmontou ainda mais a peça e viu o brilho do pó azul, Devair deu de presente a vários familiares as partículas brilhantes — que não fazia ideia serem radioativas. Pouco depois, porém, todos começaram a ter vômitos e diarréia, inclusive Maria Gabriela Ferreira, esposa dele. Desconfiada de que a sucata pudesse ter a ver com os sintomas, ela levou a peça para Vigilância Sanitária e foi internada.
Com a suspeita de que radiatividade pudesse estar envolvida, o físico Walter Ferreira foi chamado e confirmou: a sucata era mesmo radioativa. Nesse momento, dezenas de pessoas já apresentavam sintomas como queimaduras, perda de cabelo, tonturas, vômitos e diarréias. Uma das contaminadas era a menina Leide das Neves, de 6 anos, sobrinha de Devair e Maria Gabriela, que engoliu o pó brilhante.
A menina foi a pessoa que mais apresentou radiação no corpo e chegou a ser transferida para o Rio de Janeiro, juntamente com a tia e outros contaminados. Nenhuma das duas resistiu: ambos morreram no dia 23 de outubro de 1987. Os funcionários do ferro-velho Israel Batista dos Santos, de 20 anos, Admilson Alves de Souza, de 18 anos, morreram nos dias 27 e 28 de outubro, respectivamente. O acidente fez essas quatro vítimas diretas, mas a Associação de Vítimas do Césio 137 aponta outras 60 e pelo menos 1,6 mil pessoas afetadas pela exposição ao material.
A descontaminação das casas, ruas e bairros produziu toneladas de lixo, depositado em dezenas de contêineres, enterrados sob uma parede de um metro de espessura de concreto e chumbo, no município de Abadia de Goiás.
Cinco profissionais do Instituto Goiano de Radioterapia foram condenados por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, pela negligência com os aparelhos. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), que supervisiona os equipamentos de radiologia no país, teve que pagar, segundo a série, R$ 1 milhão no atendimento às vítimas.

