Em 1992, o cantor George Michael entrou em um dos projetos mais ousados de sua carreira: o de produzir um álbum com canções suas, que seriam interpretadas por vários de seus ídolos musicais, entre eles Elton John, Stevie Wonder, Bryan Ferry, Aretha Franklin, Janet Jackson e Sade Adu. Ele trabalhou no álbum por meses no projeto, que seria lançado sob o pseudônimo de Trojan Souls, até que seu namorado brasileiro, o estilista Anselmo Feleppa, faleceu de Aids em março de 1993, e ele, abalado, se afastou da música por alguns anos.
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O projeto nunca foi retomado e se tornou uma lenda, uma vez que faixas das sessões de gravação vazaram, juntamente com algumas filmagens no estúdio feitas por Andros Georgiou, amigo próximo e conselheiro informal de Michael. Agora, meses antes do 10º aniversário da morte do astro, Georgiou está lançando na internet 90 minutos de vídeo sem cortes das gravações do Trojan Souls (que pode ser visto aqui, mediante pagamento), anuncia reportagem do jornal inglês Guardian.
O Trojan Souls começou em janeiro de 1992, em Los Angeles, quando George Michael resolveu gravar um cover de “Ain’t no stoppin’ us now”, hit da disco music, da dupla McFadden & Whitehead, ao lado de Andros Georgiou, com o qual já tinha feito um projeto musical. Animado com o resultado, ele resolveu voltar à cidade em julho para começar um álbum, recrutando vocalistas que ele admirava desde a adolescência. Segundo Georgiou, de todos os que foram convidados, apenas David Bowie recusou, educadamente.
O projeto chegou a ser oferecido à gravadora Sony, da qual George Michael era contratado e com a qual estava brigando na época, e foi recusado. Georgiou ligou para um olheiro da Warner e fechou negócio por um milhão de libras. “Ele queria se vingar da Sony de qualquer maneira possível”, contou Georgiou ao Guardian.
Das músicas previstas para o disco, a balada “One day I’ll know” era destinada a Stevie Wonder, e “Maybe It’s not your time” a Bryan Ferry. A faixa instrumental “Wendy Melvoin’s Song” trazia a guitarra de uma das integrantes da dupla Wendy e Lisa, na esperança de que ela convencesse seu antigo patrão, Prince, a participar do projeto. Mas apenas a colaboração com Elton John, “This kind of love”, foi concluída.
As gravações caminhavam quando a saúde de Anselmo Feleppa começou a se deteriorar rapidamente. Ele e George Michael se conheceram em 1991 nos camarins do Rock in Rio, no qual o cantor fez duas apresentações. A paixão foi imediata e os dois iniciaram uma relação amorosa. Pouco depois, Feleppa descobriu que tinha o vírus da Aids. O britânico passou os anos seguintes ajudando a cuidar do namorado, até sua morte.
George Michael e o brasileiro Anselmo Feleppa
Reprodução/YouTube
Segundo o cantor, foi a primeira vez em que ele teve uma relação amorosa com um homem. “Eu já transava por aí, mas tinha tão pouca experiência com homens que minha vida sexual era absurdamente inadequada para mim. Até conhecer Anselmo”, contou ele ao jornal inglês The Independent, em 2005. “É muito difícil sentir orgulho de sua sexualidade quando ela nunca lhe trouxe alegria, mas, quando você encontra uma pessoa que realmente ama… não é tão difícil assim. Anselmo rompeu minhas barreiras vitorianas e me mostrou como viver realmente, como curtir a vida”.
Nos últimos dias de vida do namorado, foi difícil para George Michael trabalhar no disco, e com a morte os trabalhos foram definitivamente interrompidos. O cantor só superou o bloqueio criativo causado pela perda de Anselmo Feleppa em 1996, quando lançou o álbum “Older”, do hit “Fast love”.
Mas o material de Trojan Souls não foi completamente arquivado. “Ain’t no stoppin’ us now” foi lançado pela Aegean Records em 1998, como um dos primeiros MP3s comercialmente disponíveis, e Michael regravou “This kind of love”, sem Elton, pouco antes de sua morte.

