Nos últimos meses, conteúdos feitos nas redes sociais sobre proibições do Talibã às mulheres afegãs se tornaram virais. Grande parte das postagens compara reclamações cotidianas de mulheres brasileiras, sobre assuntos como trabalho, relacionamentos ou rotina, às restrições impostas às mulheres no Afeganistão. Sustentando o conceito de sorte geográfica, os resultados são milhões de visualizações.
Para quem viveu essa realidade, no entanto, a repercussão nas redes sociais desperta sentimentos contraditórios. Para Masuma Yawari, fotógrafa afegã, ver o tema ganhar espaço no debate público é importante, mas também evidencia os limites de transformar anos de repressão em conteúdos de poucos segundos.
Masuma tem 25 anos e vive no Brasil há cerca de quatro anos, após deixar o Afeganistão sozinha. Desde então, reconstrói sua vida e carreira, trabalhando no Instituto Estou Refugiado. Em 2023, criou a Soha Art Gallery, marca de arte e empreendedorismo que também funciona como projeto de impacto social, gerando renda para outros refugiados afegãos recém-chegados ao Brasil.
Foi na fotografia que encontrou uma forma de contar histórias que ficavam escondidas. Primeiro, queria ser jornalista, mas via o quanto esses profissionais eram perseguidos e mortos no Afeganistão de forma sistemática por grupos desconhecidos. Então, a partir das fotos, começou a revelar não somente os tabus da sociedade em que cresceu, mas também a cultura das mulheres afegãs.
Mulher afegã jogando
Masuma Yawari
O contraste das imagens nas redes sociais de como vivem as brasileiras com a realidade do seu país fez com que Masuma se emocionasse profundamente. Entretanto, explica que pode apagar uma parte muito importante da identidade das mulheres: “O problema não é mostrar o sofrimento, porque ele existe e precisa ser conhecido. O problema é mostrar apenas o sofrimento. Não devemos definir as mulheres afegãs apenas pelo que lhes foi tirado, mas também por tudo o que elas são e por tudo o que ainda podem construir.”
O Talibã retomou ao poder no Afeganistão em 15 de Agosto de 2021. A partir dessa data, decretos colocaram restrições rigorosas às mulheres, que foram proibidas de práticas como estudar, ter tratamento com médicos masculinos, rir em voz alta e praticar esportes. A fotógrafa diz que acredita no poder das palavras e das imagens como forma de resistência à todas essas limitações, não só como registro: “Nas minhas fotografias, sempre procurei mostrar esse outro lado, as mulheres afegãs não são apenas vítimas. Elas sonham, criam, trabalham, resistem e continuam lutando por seus direitos.”
Artistas no Afeganistão
Masuma Yawari
A antropóloga Francirosy Barbosa explica que esse tipo de conteúdo, mesmo que com intenção de chamar atenção às violações de direitos impostos pelo Talibã, podem acabar contribuindo para a islamofobia, já que reduz a sociedade afegã exclusivamente á violência, e que é necessário entender que religião, cultura e política são dimensões distintas: “Criticar as graves violações de direitos humanos cometidas pelo Talibã é fundamental, mas isso não deve significar responsabilizar uma religião inteira ou todos os seus fiéis por práticas que decorrem de uma interpretação extremista e de um contexto político específico.”
Francirosy coordenou a produção do terceiro relatório de islamofobia no Brasil, que revela que o segundo lugar em que mulheres muçulmanas mais sofrem discriminação é na internet, perdendo apenas para as ruas, sendo o instagram a plataforma mais apontada por elas. No relatório, mulheres contam diversas situações dentro das redes sociais, seja a partir de vídeos, comentários ou conversas, que se sentiram discriminadas. Por isso, a antropóloga pontua que é fundamental diferenciar em todo momento as práticas impostas pelo Talibã dos princípios do Islã.
Outro modelo de postagem circulando pelas redes sociais trata de imagens que contrapõem mulheres de minissaia na década de 1970 a mulheres usando burca após a chegada do Talibã. É assim que muitas vezes uma compreensão mais profunda da realidade afegã foge de vista. Laís Cavalin, doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (UNESP-UNICAMP-PUC/SP), especialista em temas relacionados ao oriente médio, explica que o Talibã não inventou a burca e que a peça já fazia parte de uma série de deveres e tradições religiosas que essas mulheres já tinham, o que veio como efeito do talibã foi a obrigação do uso dessa vestimenta.
Assim, para Laís, a discussão sobre os direitos das mulheres afegãs precisa partir da garantia de direitos fundamentais, e não da imposição de um modelo específico de liberdade ou de comportamento: “O ponto é defender que essas mulheres possam decidir sobre o seu próprio futuro, ter autonomia sobre o próprio corpo e sobre as suas escolhas e que não sejam violentadas ou punidas por falarem, estudarem, trabalharem ou simplesmente saírem de suas casas.”
Mulher afegã recebendo flor
Masuma Yawari
A especialista afirma que essa perspectiva exige cuidado para não reproduzir um discurso salvacionista, baseado na ideia de que existe apenas uma forma legítima de emancipação feminina. Para ela, compreender a realidade afegã passa por reconhecer que diferentes contextos culturais e religiosos produzem diferentes formas de viver: “Acredito que a forma de abordar isso não é fazendo posts mostrando que você pode escolher o que vestir e as mulheres no Afeganistão não. Se essas mulheres quiserem continuar vivendo dentro da tradição cultural e religiosa afegã, que façam isso porque é uma escolha delas. Libertar as mulheres afegãs pode não significar que elas passem a viver uma vida nos moldes ocidentais, que passem a usar shorts jeans na rua, virem cristãs ou ateias e abandonem suas famílias. Libertá-las pode significar que elas escolham continuar seguindo a tradição islâmica.”
Embora ressalte que as trends nem sempre conseguem retratar a complexidade da vida das mulheres afegãs, Masuma acredita que o silêncio seria ainda mais prejudicial. Para ela, o desafio não é deixar de falar sobre o Afeganistão nas redes sociais, mas transformar a curiosidade despertada por esses conteúdos em interesse pela realidade vivida pelas mulheres do país.
Ao final da entrevista, ela faz um apelo para que o assunto não desapareça do debate público: “A história da humanidade mostra que muitas guerras, atrocidades, genocídios e graves violações dos direitos humanos só começaram a ser enfrentados porque pessoas comuns decidiram não permanecer em silêncio. Por favor, não sejam indiferentes ao que está acontecendo. Falem sobre elas, compartilhem suas histórias e ajudem a manter suas vozes vivas.”

