Em meio à rotina acelerada e ao consumo cada vez maior de conteúdos rápidos e por telas, moradores da Zona Norte têm encontrado nos livros uma oportunidade de desacelerar e promover um tempo de qualidade. Em livrarias, casas culturais e projetos comunitários, clubes de leitura vêm criando rodas de conversa e aproximando pessoas com diferentes histórias. Os formatos são variados, mas a proposta se repete: transformar a leitura em uma experiência coletiva.
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Na Tijuca, a Livraria Casa Verde reúne mensalmente leitores que escolhem, junto com a equipe da livraria, as obras debatidas nos encontros. O clube surgiu a partir da percepção da própria equipe de que muitos clientes compravam um livro e voltavam ao local querendo conversar sobre a leitura.
Leitoras do clube da Livraria Casa Verde, localizada na Tijuca
Divulgação/Livraria Casa Verde
Claudia Araujo, uma das proprietárias da Casa Verde, explica que o principal objetivo é criar uma comunidade em torno dos livros.
— O clube nasceu como um espaço para a gente ler junto, trocar e criar comunidade em torno da literatura. O objetivo principal é democratizar a leitura e criar vínculo. É gente real falando do que sentiu, do que discordou, do que marcou — afirma.
A participação é gratuita, mediante inscrição pelo WhatsApp ou Instagram da livraria. Os participantes recebem desconto na compra do livro do mês, mas não precisam adquiri-lo no local. Em agosto, o grupo discutirá “Suíte Tóquio”, de Giovana Madalosso.
A leitora Márcia Rodrigues conheceu a Casa Verde depois de voltar a morar no bairro e se tornou frequentadora do clube.
— Conversar sobre um livro, uma autora ou mesmo sobre um filme, uma peça de teatro ou qualquer obra de arte é uma outra experiência. É a possibilidade de ver a obra por outros ângulos, conhecer outras histórias sobre a mesma história, ver outras cenas na mesma cena e trocar emoções e vivências — opina.
A ideia de transformar a livraria em um espaço de convivência também aparece em outros bairros da Zona Norte. No Méier, a Livraria Belle Époque aposta em um formato que investe na criatividade. No Clube de Leitura Méier, os participantes também podem escrever: cada pessoa leva um trecho marcante de um livro de sua escolha, que é lido e votado pelo grupo. O trecho vencedor serve de inspiração para que novos contos sejam produzidos para o encontro seguinte.
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De acordo com Ivan Costa, fundador da Belle Époque, o objetivo da dinâmica é mostrar como uma mesma passagem pode despertar diferentes interpretações.
— A literatura, o livro têm que ocupar espaço. Não podemos falar de formação de leitores sem os livros estarem presentes — afirma.
O próximo encontro do Clube do Méier será no dia 15 de agosto, às 15h.
A literatura também tem servido de ponto de encontro em espaços culturais. Em Vila Isabel, o Gaia Ateliê da Natureza incorporou o clube de leitura à programação da casa cultural. Os participantes se reúnem uma vez por mês no jardim do local para conversar sobre a obra escolhida.
Participantes do clube do Gaia Ateliê da Natureza, em Vila Isabel
Divulgação/Gaia Ateliê da Natureza
A fundadora Luiza Jovita conta que a ideia surgiu a partir da sugestão de um frequentador do Gaia e que a leitura completa não é uma exigência.
— A gente brinca que é um clube de leitura culposo, onde não há intenção de ler, mas, se ler, é ótimo. Se leu metade, está bom. E se não leu também pode vir, porque acaba se interessando pela história — diz.
O próximo encontro do clube do Gaia será no dia 22 de agosto e discutirá “O outono do patriarca”, de Gabriel García Márquez. A participação custa R$ 20, valor simbólico para viabilizar um lanche durante a atividade.
A leitura como ferramenta de reflexão também orienta iniciativas voltadas para identidade e pertencimento. No Cachambi, o Café com Letras Pretas, promovido pela OSC Círculo Laranja, reúne leitores para discutir obras de autores negros e textos que abordam questões raciais. Os encontros são gratuitos, e o clube deste mês está em andamento até 21 de agosto, com debates sobre “Meridiana”, de Eliana Alves Cruz. As inscrições são realizadas presencialmente, na sede da organização.
Leitoras do clube Café com Letras Pretas, da OSC Círculo Laranja, no Cachambi
Divulgação/Círculo Laranja
Além das iniciativas independentes, grandes redes de livrarias passaram a investir em clubes de leitura. Na unidade da Livraria Leitura do Shopping Tijuca, o projeto estreou mês passado. O primeiro livro escolhido foi escrito por Giulia Cavalcanti, autora tijucana e vencedora do concurso Livros do Futuro, do TikTok. O próximo encontro será realizado no dia 30 de agosto, gratuitamente, e terá como leitura “A odisseia”, de Homero.
Já na unidade do NorteShopping, o Clube Rio Norte é realizado desde maio e reúne leitores no último sábado de cada mês. O próximo encontro será no dia 29 de agosto, às 16h, para discutir “Ala D”, de Freida McFadden. A participação é gratuita e não exige inscrição prévia.
A proposta de compartilhar diferentes interpretações também está presente no Clube de Leitura do Sesc Tijuca, uma ação permanente da biblioteca da unidade que transforma a leitura em uma experiência coletiva e acessível. Os encontros acontecem mensalmente, aos sábados, das 14h às 17h, com mediação de Carla Nascimento. A participação é gratuita e não exige inscrição. Este ano, o grupo se dedica à leitura de “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves.
Participantes do clube de leitura do Sesc Tijuca durante encontro
Divulgação/SESC RJ
A pedagoga Tainá Barros conheceu o clube pelas redes sociais e afirma que o principal diferencial está justamente na possibilidade de ouvir interpretações diferentes sobre uma mesma obra.
— Apesar de ser o mesmo livro, pessoas e vivências diferentes têm acesso a aspectos diferentes da mesma obra. Já aconteceu de eu começar uma fala e, no final, eu mesma encontrar o furo da minha narrativa. Comecei a me ouvir e a repensar o que estava dizendo — relata.
Enquanto parte dos clubes busca reunir leitores adultos em torno da literatura, outras iniciativas apostam na formação desde a infância. No Complexo do Alemão, a Biblioteca Thalita Rebouças, instalada na Recreação Infantil Estrelinha, promove um clube de leitura no projeto “Liberte a história de uma mulher incrível”, onde a doutora em Educação Isabela Vique apresenta às crianças trajetórias de mulheres que marcaram a história. As atividades são realizadas quinzenalmente, de forma gratuita, e atendem crianças de 6 meses a 11 anos.
Responsável pela instituição, Carolina Marinho diz que incentivar a leitura na primeira infância sempre esteve entre os principais objetivos da creche comunitária.
— A gente acredita que o estímulo à formação de leitores acontece desde muito cedo. Quando a criança cresce cercada por livros, ela passa a enxergar a leitura como parte da vida — diz.
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