Abelardo de la Espriella tomou posse como presidente da Colômbia nesta sexta-feira. O novo presidente, que se autodenomina “O Tigre”, foi eleito com a promessa de lançar uma guerra contra as guerrilhas ligadas ao narcotráfico e inaugurar uma nova era de estreitas relações com os Estados Unidos. O extravagante ex-advogado traz uma guinada à direita para a nação andina governada até então pela esquerda, prometendo bombardear laboratórios de cocaína na selva, construir “megaprisões” e reduzir drasticamente o tamanho do Estado.
União de direita e esquerda: Presidente eleito da Colômbia sofre primeira derrota no Congresso em disputa pela liderança do Senado
Alerta: Governo colombiano alerta para possíveis ‘atos terroristas’ durante posse presidencial
Em uma quebra de tradição, a posse ocorrereu na cidade tropical de Cali, no sudoeste da Colômbia, capital da salsa, e não no Congresso, na mais formal Bogotá. A cerimônia contou com a presença de figuras influentes da direita, incluindo o presidente da Argentina, Javier Milei, e Todd Blanche, secretário da Justiça interino dos Estados Unidos.
O presidente cessante, o líder esquerdista Gustavo Petro, não participou do evento em Cali, deixando a residência presidencial na capital no início da tarde acompanhado de alguns familiares e funcionários. O ex-presidente, que não teve comunicação direta com Espriella, deixa o palácio presidencial apesar de considerar o novo presidente “ilegítimo”.
— Espero que se lembrem de nós — disse ele. — Adeus, liberdade e vida.
Petro insiste em uma suposta fraude não detectada por outra autoridade, inteligência estatal ou observadores internacionais. Segundo ele, houve no segundo turno uma “fraude eleitoral algorítmica, sistemática e sobre um volume de votos enorme”, supostamente arquitetada do exterior contra o esquerdista Iván Cepeda. “Dinheiro estrangeiro e empresas estrangeiras” teriam interferido no resultado.
A apertada vitória de Espriella no segundo turno, em junho, pôs fim a quatro anos do primeiro governo de esquerda da Colômbia.
— Estamos começando uma nova era! — declarou ele em seu discurso de vitória, após derrotar o rival de esquerda Ivan Cepeda por menos de um ponto percentual.
Cepeda, antes da posse de Espriella, declarou que a “esquerda será resistência” após o fim do mandato de quatro anos de Petro.
— Lutaremos até o limite e além para preservar as conquistas que alcançamos nestes anos — proclamou o senador e ex-candidato durante um evento matinal em Barranquilla.
‘Plano Colômbia’
Após quatro anos de desavenças diplomáticas com os Estados Unidos, o presidente americano, Donald Trump, agora terá um aliado importante em Bogotá. Espriella baseou sua campanha na promessa de combater com firmeza os poderosos traficantes de drogas do país, com o auxílio dos Estados Unidos.
Seu chamado “Plano Colômbia II” faz referência a um acordo multimilionário firmado com Washington na década de 2000, com o objetivo de combater os cartéis de drogas e grupos de esquerda.
Após autoridades colombianas da nova gestão viajarem a Washington no mês passado, um alto funcionário da defesa dos EUA anunciou a nova parceria militar com a Colômbia que, segundo Espriella, elevará a um “novo patamar” uma aliança historicamente sólida. Espriella designou Medellín como o centro da nova aliança regional do presidente Trump de combate ao tráfico: o Escudo das Américas.
O governo Trump definiu como prioridade combater os traficantes na América Latina. Ao responsabilizar cartéis e quadrilhas de drogas pela crise de overdoses nos Estados Unidos e por alimentar a violência criminosa, o governo classificou mais de dez grupos da região como organizações terroristas e autorizou o uso de força letal contra eles.
Autoridades dos EUA criaram uma coalizão regional e uma força-tarefa militar de combate aos cartéis, envolvendo outras 18 nações, e compararam essa iniciativa às campanhas militares americanas contra a al-Qaeda e o Estado Islâmico.
‘Tiranias’: Presidente eleito da Colômbia diz que romperá relações diplomáticas com Cuba e Nicarágua e fechará diversas embaixadas
O governo Trump também pressionou líderes latino-americanos a permitir que forças dos EUA realizassem ataques conjuntos em seus territórios, e o presidente republicano tem exaltado operações com participação americana que resultaram na morte de líderes de um grande cartel no México e de uma quadrilha transnacional na Venezuela.
Ações anteriores dos EUA para combater o tráfico de drogas na América Latina tiveram sucesso limitado — e a ofensiva mais recente despertou preocupações de que operações militares possam ameaçar a soberania dos países e colocar civis em risco.
Contexto: Com papel em estratégia de contenção à China, combate ao ‘narcoterrorismo’ de Trump acompanha aumento de letalidade em países da América Latina
Antes da eleição de Espriella em junho, o governo Trump havia feito poucos progressos com a Colômbia, o maior produtor mundial de cocaína e, tradicionalmente, o aliado mais próximo de Washington na região.
Ainda no cargo de presidente, Petro, por sua vez, criticou a estratégia de combate ao tráfico de Trump e classificou como assassinato os ataques militares dos EUA contra embarcações que, segundo a administração Trump — sem apresentação de provas —, transportavam drogas ao largo da costa da América do Sul. Tais ataques já mataram pelo menos 221 pessoas.
As autoridades dos EUA impuseram sanções a Petro, retiraram a certificação da Colômbia como parceira no combate ao narcotráfico e ameaçaram cortar a ajuda ao país.
As operações militares foram amplamente suspensas durante grande parte do mandato de Petro, à medida que seu governo buscava negociações de paz com grupos armados — uma medida que, segundo críticos, permitiu a expansão desses grupos.
Análise: Vitória apertada impõe teste de governabilidade a novo presidente colombiano
Os grupos armados da Colômbia — que incluem antigas guerrilhas de esquerda e grupos paramilitares de direita — estão envolvidos há muito tempo no tráfico de drogas, mas expandiram significativamente suas atividades nos últimos anos, em meio à crescente demanda global por cocaína. Os grupos se multiplicaram e se espalharam por mais partes do país, e o número de combatentes aumentou de cerca de 13 mil em 2022 para quase 27 mil no ano passado, segundo pesquisadores de conflitos.

