No dia 5 de agosto de 2016, eu fazia um agradecimento numa cabine de imprensa do Maracanã: “Obrigado ao SporTV por me permitir estar onde queria neste momento”. Era a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Começava ali a se cumprir a última etapa do ciclo das cidades-sede: euforia pelo anúncio; desconfiança em torno da capacidade de organizar o evento; críticas ao excesso de gastos, ao desvio de recursos públicos e à construção de instalações esportivas caras e sem previsão de continuidade de uso; e, finalmente, elogios ao desempenho dos atletas e à alegria dos torcedores durante o evento.
Acompanhei esse passo a passo pela primeira vez em Londres, como correspondente. Lá, ouvi uma resposta marcante de Clive Woodward. “Por que estamos gastando tanto dinheiro para receber os Jogos?”, foi a primeira pergunta de um repórter inglês na única entrevista coletiva concedida pelo presidente do comitê organizador. “Porque podemos”. Não era o caso do Rio. Aqui, bem no começo do processo, outra declaração ficou famosa: “Esta caneta”, disse o então prefeito da cidade, Cesar Maia, mostrando o instrumento com o qual assinaria o documento de autorização para a construção do Estádio Olímpico, hoje cedido ao Botafogo e rebatizado de Nilton Santos: “É só o que eu preciso para financiar as obras”.No dia 5 de agosto de 2016, eu fazia um agradecimento numa cabine de imprensa do Maracanã: “Obrigado ao SporTV por me permitir estar onde queria neste momento”. Era a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Começava ali a se cumprir a última etapa do ciclo das cidades-sede: euforia pelo anúncio; desconfiança em torno da capacidade de organizar o evento; críticas ao excesso de gastos, ao desvio de recursos públicos e à construção de instalações esportivas caras e sem previsão de continuidade de uso; e, finalmente, elogios ao desempenho dos atletas e à alegria dos torcedores durante o evento.
Acompanhei esse passo a passo pela primeira vez em Londres, como correspondente. Lá, ouvi uma resposta marcante de Clive Woodward. “Por que estamos gastando tanto dinheiro para receber os Jogos?”, foi a primeira pergunta de um repórter inglês na única entrevista coletiva concedida pelo presidente do comitê organizador. “Porque podemos”. Não era o caso do Rio. Aqui, bem no começo do processo, outra declaração ficou famosa. “Esta caneta”, disse o então prefeito da cidade, Cesar Maia, mostrando o instrumento com o qual assinaria o documento de autorização para a construção do Estádio Olímpico, hoje cedido ao Botafogo e rebatizado de Nilton Santos: “É só o que eu preciso para financiar as obras”. Eu também estava lá, compartilhando da desconfiança de vocês da imprensa. Pouco depois, Maia pediria socorro: o orçamento inicial de R$ 60 milhões já estava em R$ 420 milhões. O dinheiro público jorrou para salvar as obras do Pan de 2007 e dos Jogos de 2016.
Dez anos depois, o que ficou? A pergunta me lembra uma visita ao Parque Olímpico em 2022, para assistir a um show da turnê de despedida de Milton Nascimento. As luzes das Arenas Cariocas 1, 2 e 3, do Velódromo e do Centro Olímpico de Tênis estavam acesas — não para iluminar o cenário, mas para permitir que os operários envolvidos na montagem do Rock in Rio pudessem trabalhar no turno da noite. Era uma imagem representativa do Rio pós-grandes eventos. Construções imponentes mantêm-se de pé, principalmente à custa de dinheiro público, enquadrando a cidade na estimativa otimista do COI, que publicou um estudo no qual afirma que 85% das instalações esportivas construídas para todas as edições olímpicas desde 1896 ainda estão em utilização (número que aqui, contando apenas as permanentes, chegaria a 100%). Porém, em poucos casos o uso que se faz atualmente corresponde ao que foi prometido no caderno de encargos, documento-base da candidatura.
“Por que organizamos megaeventos esportivos?”, perguntam Simon Kuper e Stefan Szymanski no livro “Soccernomics”. Eles mesmos dão a resposta: “Para sermos felizes por três semanas”. E depois fazem várias contas para mostrar quanto custa essa felicidade. O carioca — e, por extensão, o brasileiro —cumpriu o ciclo: vibrou, questionou, protestou e desfrutou. Os Jogos Rio-2016 estiveram longe de ser perfeitos, mas terminaram com a sensação descrita pelo então repórter Renato Ribeiro, hoje diretor de Esportes da Globo, na transmissão da cerimônia de encerramento: “Nós nos olhamos no espelho e gostamos do que vimos”. Eu também estava lá, compartilhando da desconfiança de vocês da imprensa. Pouco depois, Maia pediria socorro: o orçamento inicial de R$ 60 milhões já estava em R$ 420 milhões. O dinheiro público jorrou para salvar as obras do Pan de 2007 e dos Jogos de 2016.
Dez anos depois, o que ficou? A pergunta me lembra uma visita ao Parque Olímpico em 2022, para assistir a um show da turnê de despedida de Milton Nascimento. As luzes das Arenas Cariocas 1, 2 e 3, do Velódromo e do Centro Olímpico de Tênis estavam acesas – não para iluminar o cenário, mas para permitir que os operários envolvidos na montagem do Rock in Rio pudessem trabalhar no turno da noite. Era uma imagem representativa do Rio pós-grandes eventos. Construções imponentes mantêm-se de pé, principalmente à custa de dinheiro público, enquadrando a cidade na estimativa otimista do COI, que publicou um estudo no qual afirma que 85% das instalações esportivas construídas para todas as edições olímpicas desde 1896 ainda estão em utilização (número que aqui, contando apenas as permanentes, chegaria a 100%). Porém, em poucos casos o uso que se faz atualmente corresponde ao que foi prometido no caderno de encargos, documento-base da candidatura.
“Por que organizamos megaeventos esportivos?”, perguntam Simon Kuper e Stefan Szymanski no livro “Soccernomics”. Eles mesmos dão a resposta: “Para sermos felizes por três semanas.” E depois fazem várias contas para mostrar quanto custa essa felicidade. O carioca – e, por extensão, o brasileiro – cumpriu o ciclo: vibrou, questionou, protestou e desfrutou. Os Jogos Rio 2016 estiveram longe de ser perfeitos, mas terminaram com a sensação descrita pelo então repórter Renato Ribeiro, hoje diretor de Esportes da Globo, na transmissão da cerimônia de encerramento: “Nós nos olhamos no espelho e gostamos do que vimos.”

