Amanhã da quarta-feira, 29 de julho, dia em que ventos de mais de 120 km por hora varreram o Rio, foi solar. O mar caribenho, o céu azul e a temperatura de 32 graus convidavam ao dolce far niente na Praia do Arpoador. Pontual, apesar da rotina puxada de gravações como Pedro, um dos protagonistas de “Quem ama cuida”, Chay Suede chegou usando look de linho branco, bronzeado e com um baita sorriso no rosto. Radiante, abriu a conversa de quase duas horas falando sobre a bondade do personagem: “É uma pessoa genuinamente empática. Disseram que não seria tão bonzinho assim e que o Walcyr (Carrasco, autor) poderia modificar a trama enquanto ela acontece”, diz. “Mas não é por aí. Percebi o quanto temos dificuldade de ver uma pessoa majoritariamente boa. Eu acredito nele.”
Chay Suede
Gabriel Garol
Casado desde 2019 com a atriz Laura Neiva, mãe de seus três filhos — Maria, de 6 anos, José, de 4, e Ana, de 1 ano e oito meses —, Chay vai passar este domingo, de Dia dos Pais, ao lado da prole, em São Paulo, onde mora. “Levo a data a sério. Eles escrevem cartinhas, me homenageiam, é muito legal. Faço questão de passar todo meu tempo livre com as crianças”, frisa.
Paternidade e carreira se confundem na trajetória do capixaba de 34 anos. Graças ao otimismo inabalável do pai, o empresário Roobertchay Domingues da Rocha — o ator herdou o nome incomum do genitor, “inventado” pelo avô —, Chay chegou até aqui. Foi ele quem viu, além da timidez do rapaz de 17 anos, seu potencial artístico, e o inscreveu no reality show musical “Ídolos”, em 2010. Ficou em quarto lugar e teve as portas abertas.
Chay Suede
Gabriel Garol
Na sequência, foi escalado para a novela “Rebelde Brasil” (2011) e fez parte da banda formada pelos atores da trama, já despertando paixões. Na Globo, estreou em 2014, na primeira fase da novela “Império”, em que interpretava José Alfredo, o comendador, ainda jovem. E nunca mais parou: além de virar ator festejado na TV, atuou em mais de dez longas, imprimiu seu estilo meio urbano, meio vintage, tornando-se queridinho da moda e da publicidade, e estreou no teatro, no início deste ano, com o monólogo “A vida e as opiniões do cavalheiro Roobertchay”.
Na conversa à beira-mar, Chay falou sobre a alegria de ter uma grande família, o sentido da paternidade, casamento e projetos profissionais, que incluem uma marca de moda e uma agência de publicidade. A seguir, os melhores trechos:
Chay Suede
Gabriel Garol
É bom dar vida ao Pedro, um personagem ético em 2026?
É desafiador. Porque existe sempre uma chance de ficar monocromático. Ninguém é só bom nesse mundo, isso não existe. Pedro também fracassa, nem sempre sabe o que fazer com a própria vida. Mas está disposto a olhar para os outros e a reconhecer os próprios erros. Isso, para mim, é ser uma boa pessoa.
Você se reconhece nele?
Sim, principalmente no amor pela família, pelo pai (Ademir, interpretado por Dan Stulbach). Ele segue tentando encontrá-lo dentro do monstro que vai se desenhando. Assim como Pedro, tento enxergar as pessoas para além de um erro ou de um fracasso. Afinal, para que serve a vida se a gente não pode se transformar ao longo dela?
Já a relação com seu pai é inspiradora…
Meu pai sempre foi um grande improvisador, conseguia fazer umas coisas do nada, sem grana alguma. Tinha uma ideia, dava um jeito, construía um negócio. Prova disso foram a exposição itinerante de tubarões vivos que eles organizou, e rodou o Brasil, e um labirinto de terror, num shopping. Era otimista quando ninguém acreditava. Cresci com a perspectiva de que o impossível pode existir. Me tornei artista por isso: jamais acreditaria se o meu pai não estivesse comigo naquele início.
Como é a relação de vocês hoje em dia?
Continua maravilhosa. Ele e minha mãe, de quem se separou quando eu tinha 9 anos, são amigos. Outro dia, durante uma brincadeira com as crianças, me peguei fazendo a mesma voz que ele fazia (risos).
A paternidade te transformou de que maneira?
Por um aspecto, fiquei mais medroso; por outro, mais corajoso. O medo é em relação à minha integridade física e a coragem em fazer coisas nas quais acredito. Me deu também um senso de responsabilidade que, por sua vez, traz força. Fiquei supersensível e mais atento, e isso é ampliado para outros setores da vida. A minha admiração pela Laura dobrou. Ela me mostrou uma faceta inédita, a de mãe, que me encantou ainda mais.
Fale mais sobre isso…
Às vezes, casais se separam quando têm um neném justamente porque eles se gostavam como amantes, mas não como pai e mãe. Comigo aconteceu o contrário: vê-la se tornar mãe fez com que eu me apaixonasse de novo por essa mulher. E nada me dá mais tesão do que a admiração.
Sempre quis ter uma grande família? Querem mais filhos?
Se ela quiser, eu quero. Cresci numa família grande e sei o quanto é bom, tenho seis irmãos (Um de pai e mãe, quatro só de pai e uma só de mãe). Queria que meus filhos também tivessem por ser a melhor coisa do mundo.
Com três crianças, como mantém o romance?
Tem gente para ficar com elas, a família é grande (risos). Às vezes, a gente decide viajar sem eles. Nos programamos para sair, dançar, jantar, arrebentar… Chega o terceiro dia, já estamos chorando olhando fotos das crianças e nos questionando o que estamos fazendo sem eles, as razões de nossas vidas.
Como pretende educá-los nesse “admirável” mundo novo?
Acho perigosíssimo o smartphone. Eu e Laura decidimos que eles não terão acesso a telas, só à da TV para filmes. Meus filhos desenham, fazem brincadeiras. Quando estiverem mais velhos, daremos um telefone comum.
Você é cristão. De que maneira vivencia sua fé?
De forma íntima. Minha família, materna e paterna, é cristã há muitas gerações. Entendi em que lugar isso estava no meu coração para exercê-la de maneira genuína, sem emular comportamentos dos meus parentes.
O que é ser cristão para você?
Não quero falar sobre religião nem da bancada evangélica.
Qual lugar a música ocupa hoje na sua vida? Tem ouvido o quê?
“Veneno”, de Marina Lima. Adoro a cantora, sinto o cheiro da Avenida Niemeyer ao ouvi-la. A musicalidade faz parte de mim e me ajuda na profissão de ator.
Você está tocando dois novos projetos, uma agência de publicidade e uma marca masculina. são Novos desejos?
Já tinha vontade de produzir conteúdo e sempre gostei de produto. Há um ano, criei a agência Noir Tropical, com três dos meus irmãos e um amigo. Agora estamos escrevendo um documentário fictício. Já a marca (que ele veste em algumas fotos deste ensaio) chama-se Salustiano, nome do meu avô. Vamos lançar em setembro. São peças de tecidos que deixam a pele respirar, como linho e moletom com corte de alfaiataria.
É verdade que você não se achava bonito?
Me achava OK. Ao longo do tempo, fui gostando mais da minha aparência. Eu me ajeitei direitinho (risos).

