Já cansamos de ouvir que o Brasil precisa investir muito mais em educação. Mas essa conversa costuma ignorar um período que vem antes da escola: a primeira infância. É justamente aí que a ciência do desenvolvimento afirma ser crucial investir. E os resultados não se restringem ao letramento em língua ou matemática: uma primeira infância bem vivida promove melhor saúde física, mental, emocional e social, habilidades para a vida, aprendizado escolar, empregabilidade e cidadania — além de crianças felizes e seguras. O economista James Heckman, prêmio Nobel, calculou um retorno de 7 dólares para cada dólar investido nessa fase — uma “pré-distribuição” de renda, que reduz gastos futuros com doenças, violência e desemprego.
No entanto, o Brasil conhece muito pouco sobre os primeiros anos de vida. Pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal aponta que, para 66% dos brasileiros, a fase mais importante do desenvolvimento se dá na adolescência ou depois dela. O desconhecimento é maior em famílias do interior, de baixa renda e menor escolaridade. Falta informação exatamente onde ela faria mais diferença.
Nos primeiros anos, o cérebro forma até um milhão de conexões neurais por segundo — ritmo que nunca mais se repetirá. Noventa por cento das conexões se estabelecem até os seis anos. É quando a arquitetura cerebral e as bases para a vida são construídas. E o material de construção é bom e barato: presença, olho no olho, conversa, brincadeira, passeio, histórias. Mas anda escasso.
A maioria das famílias não sabe como estimular o desenvolvimento dos filhos. Ignora a importância capital do brincar, sozinho e com outras crianças; do vínculo seguro, da amamentação, da alimentação natural com menos ultraprocessados, do contato com a natureza, do colo e da conversa em turnos com os bebês. Ignora o dano das telas, que afastam de todas essas experiências. Ignora a importância de apoiar as mães, sempre sobrecarregadas. E, principalmente, ignora a gravidade do prejuízo que a violência provoca no desenvolvimento.
Pesquisa do Instituto Futuro é Infância Saudável mostra que 62% dos brasileiros já gritaram com uma criança, 49% já deram tapas e 27% já bateram com objetos. E 62% não interviriam se vissem uma criança apanhando na rua. A ciência é farta em demonstrar que qualquer tipo de violência na infância está entre os fatores mais determinantes para a perda de saúde e capacidades na vida adulta.
Por isso o Brasil precisa desesperadamente de educação parental. Já há iniciativas: programas municipais com visitas domiciliares, ONGs, influenciadores. Mas faltava um material de qualidade para apoiá-las. Não falta mais.
A Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal acaba de lançar, com apoio do Criança Esperança da Globo e Unesco, o Guia de Primeira Infância. Não tenho dúvidas: é o melhor material de educação parental gratuito que já vi. Construído com especialistas de várias áreas, é didático sem ser raso, afetuoso e baseado em evidências — uma conversa com o leitor. E foi escrito para quem de fato cria as crianças brasileiras, em especial as famílias que mais precisam.
Em vez de descrevê-lo, convido o leitor a descobri-lo em guiadeprimeirainfancia.org.br. São mais de cem páginas: da amamentação às vacinas, de atravessar uma birra sem castigar ao enfrentamento do racismo, do brincar e da natureza ao perigo das telas, do vínculo à proteção da mãe.
Espero que chegue à sala de espera de cada posto de saúde, às mãos dos agentes comunitários, aos CRASs, às creches e aos grupos de pais no WhatsApp. Que pediatras o indiquem em consulta. É gratuito e tem licença de reprodução aberta.
Quando a educação parental e o apoio para que as famílias cuidem bem de seus filhos forem realidade no Brasil, nosso desenvolvimento também será exemplo para o mundo.

