As demandas do Irã para reabrir o Estreito de Ormuz, como expostas em uma declaração no sábado, são amplamente o que o presidente dos EUA, Donald Trump, já havia concordado em um memorando de entendimento assinado em 14 de junho e que rapidamente desandou. Mas o Irã vê o controle sobre o estreito como a melhor chance de fazer Trump cumprir aquelas promessas — e não está disposto a abdicar disso por enquanto.
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Para o Irã, sugerem analistas, negar a Trump a habilidade de declarar vitória sobre a via marítima é a peça de barganha mais eficiente para persuadi-lo a voltar àqueles acordos e implementá-los. Manter o estreito amplamente fechado mantém os preços de energia altos e também é uma forma de garantir que os Estados do Golfo Pérsico, que dependem da passagem para suas exportações, também vão encorajar Washington a voltar ao memorando.
O nível de desconfiança entre o Irã e os EUA é tão alto que a República Islâmica, antes de prescindir mesmo de um controle parcial sobre o estreito, quer assegurar que conseguirá o alívio econômico que lhe foi prometido para a reconstrução, disse Esfandyar Batmanghelidj, fundador da Fundação Bourse & Bazaar, um centro de estudos centrado em diplomacia econômica.
— Autoridades iranianas estão preocupadas de que, se o estreito reabrir, Trump abandonará conflito sem sentir a necessidade de resolvê-lo — disse. — Eles querem usar a via marítima como um mecanismo de compromisso para garantir que Trump implemente várias provisões do memorando de entendimento.
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Ali Vaez, diretor de projetos sobre o Irã no International Crisis Group, comparou o estreito à “espada de Dâmocles sobre Trump”, que simboliza a ideia de que o poder está sempre por um fio.
— O Irã quer obter benefícios antecipadamente sem abrir mão de sua principal carta na manga, que é Ormuz — disse.
No domingo, Trump disse ao portal Axios que acredita que o Irã eventualmente vai ceder por causa das dificuldades econômicas e da inflação. Ele não ameaçou nova ação militar contra o país, dizendo: “Estamos indo com calma.”
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As exigências do Irã foram enumeradas no sábado por Mohammad Bagher Zolghadr, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã. Ele exigiu que os Estados Unidos suspendessem o bloqueio naval e as sanções às exportações iranianas de petróleo e produtos petroquímicos, retirassem as forças militares dos arredores do Irã, pagassem reparações de guerra e liberassem ativos iranianos congelados, além de cessarem os ataques contra aliados do Irã na região — incluindo no Líbano — e as ameaças contra o país.
Todas essas exigências, exceto as reparações, estão detalhadas no memorando de 14 pontos de junho. A maioria dos termos do acordo foi violada em questão de semanas, com o próprio Trump declarando o acordo “encerrado”.
A exigência de reparações também é algo conhecido, e autoridades iranianas afirmaram na mídia local que a questão serve como moeda de troca para obter de Washington o maior alívio possível das sanções, disse Vaez.
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As negociações do Irã com Omã sobre como o tráfego fluiria pelo estreito, uma vez aberto, estão praticamente concluídas, disse Vaez. No entanto, o Irã quer vincular a questão do estreito ao restabelecimento do memorando, o que exigiria novas conversas com os Estados Unidos, afirmou ele. Quaisquer negociações sobre o futuro do programa nuclear iraniano — apontado por Trump como um dos principais motivos para o início do conflito — dependem do restabelecimento do memorando.
Rotas de navegação no Estreito de Ormuz
Arte/ O GLOBO
Neste domingo, ao falar com jornalistas, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse:
— As negociações com Omã sobre o Estreito de Ormuz estão avançando bem e em fase final, uma vez que especialistas estão trabalhando nos mapas. — disse, acrescentando: — No entanto, um acordo com Omã não significa a reabertura do estreito, que permanece dependente do cumprimento de condições transmitidas por meio de mediadores.
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Parte da confusão decorre de divisões dentro do sistema iraniano sobre como proceder, o que levou à ênfase nessas exigências, disse Sanam Vakil, diretora do programa para o Oriente Médio e Norte da África da Chatham House, centro de estudos sediado em Londres.
Algumas autoridades veem a diplomacia como o melhor caminho para a reconstrução econômica, disse ela. Já outras — a ala linha-dura — “são tão céticas e paranoicas que preferem manter sua vantagem de negociação a pensar na economia”, apostando que Trump não retomará a guerra.
Mas os iranianos também veem Washington como uma administração dividida, disse ela, com algumas autoridades defendendo a diplomacia e outras, mais bombardeios, enquanto Trump “oscila de um lado para o outro”. Há também quem acredite em Washington que, uma vez aberto o estreito, Trump se sentiria tentado a abandonar a questão por completo e deixar o urânio altamente enriquecido do Irã enterrado no subsolo.
Os iranianos “não querem fazer isso de graça”, disse Vakil.
— A questão do estreito não se refere a taxas; trata-se de controle e poder de barganha para o restante do pacote.
E é sobre confiança, disse Batmanghelidj. O Irã poderia ter feito exigências mais extremas, afirmou, mas optou por tentar retornar ao memorando como base para um fim permanente da guerra.
— O que menos importa é o número, o valor ou a concessão em si, mas sim o que os EUA podem fazer para provar ao Irã que são capazes de cumprir qualquer um desses compromissos.
O memorando de entendimento “é a base a partir da qual todos tentarão construir a estrutura de um acordo”, disse Vakil.
— Mas ainda estamos longe disso.
