Não é preciso atravessar o Atlântico para encontrar uma competição internacional em que surfistas são lançados em ondas gigantes com a ajuda de jet-skis. A pouco mais de 20 quilômetros do Centro do Rio, a Praia de Itacoatiara, em Niterói, construiu nos últimos anos um espaço particular no calendário do surfe de ondas grandes.
O Itacoatiara Big Wave (IBW) chega à oitava edição em 2026 com a janela aberta até setembro à espera da combinação ideal entre ondulação e vento. A expectativa da organização é que agosto concentre as melhores condições para a realização do campeonato, que distribuirá R$ 150 mil em premiação.
A competição coloca a praia niteroiense em um grupo restrito ao lado de Nazaré, em Portugal. Os dois eventos adotam sistematicamente o tow-in, modalidade em que o surfista é rebocado por um jet-ski para conseguir velocidade suficiente antes de entrar na onda.
As semelhanças, porém, praticamente terminam aí.
Nazaré tornou-se mundialmente conhecida pelo tamanho de suas ondas, potencializadas pelo cânion submarino que se aproxima da costa portuguesa. Itacoatiara apresenta dimensões menores — normalmente entre quatro e seis metros nos grandes swells —, mas compensa com ondas rápidas, cavadas e uma curta distância entre a zona de quebra e a areia.
— Em muitos mares grandes como o de Itacoatiara, é extremamente difícil conseguir surfar uma onda na remada. Com o apoio do jet-ski, os surfistas conseguem não apenas surfar ondas que não conseguiriam no braço, mas também apresentar um surfe de alta performance em razão das pranchas pequenas que utilizam — explica Alexey Wanick, diretor executivo do IBW.
Jet-ski não significa facilidade
No tow-in, uma dupla divide as funções. Enquanto um atleta pilota o jet-ski, o outro é rebocado por uma corda até ganhar velocidade e ser colocado na posição escolhida para atacar a onda.
Em Itacoatiara, a utilização do equipamento não serve apenas para permitir que os competidores enfrentem ondas maiores. A velocidade possibilita o uso de pranchas menores e abre espaço para tubos e manobras que seriam mais difíceis de executar com equipamentos tradicionais de ondas grandes.
O formato também acelera a competição. Após cada onda, a dupla consegue retornar rapidamente ao outside para buscar uma nova tentativa.
Desde 2023, o IBW é disputado exclusivamente no tow-in. A competição niteroiense ainda adota um sistema de baterias semelhante ao utilizado em eventos tradicionais de surfe, em vez de uma janela livre para performances.
Em 2026, o campeonato acrescentará outra novidade. Segundo a organização, será utilizado um sistema de julgamento desenvolvido especificamente para competições de tow-in, capaz de apresentar mais informações sobre notas e performances aos atletas e ao público durante a transmissão.
De Itacoatiara para o mundo
O conhecimento sobre as particularidades da praia atravessou gerações do surfe de Niterói. Ex-integrante da elite mundial, Guilherme Herdy cresceu surfando em Itacoatiara e destaca a concentração de energia como uma das principais características do pico.
— Itacoatiara é uma onda muito forte, uma onda que concentra muita energia.
O formato da praia, a proximidade dos costões, as correntes marítimas e os bancos de areia ajudam a explicar a potência. Como o fundo é móvel, a configuração pode mudar de um swell para outro.
— As ondas de Itacoatiara proporcionam manobras fortes. A gente tem que ter uma pisada na prancha bem firme, porque ela é uma onda que tem um balanço, tem um lip bem forte — explica Herdy.
Campeão do IBW em 2023, Gabriel Sampaio cresceu no mesmo mar e aponta o tubo como principal objetivo dos competidores.
— Na minha opinião, conseguir estar ao máximo profundo dentro do tubo, pegar o maior tubo, é o desafio. Mas, ao mesmo tempo, quem entra no mar de Itacoatiara sabe que vai encontrar uma onda com muito power para fazer grandes manobras.
Sampaio compara a escolha das ondas a uma partida de xadrez: é necessário identificar formações mais lisas, prever quais tubos permanecerão abertos e encontrar paredes que permitam manobras.
‘Se prepara para Nazaré e Jaws’
A brasileira Michaela Fregonese coloca Itacoatiara entre os locais capazes de preparar um atleta para alguns dos maiores desafios do surfe de ondas grandes.
— É uma onda extremamente pesada, tubular, power. Toda vez que você surfa Itacoatiara, se prepara para ondas como Nazaré e Jaws.
Uma das dificuldades são os chamados bumps, irregularidades na superfície provocadas pela movimentação do mar e pelo vento, que podem desequilibrar o surfista em alta velocidade.
Michaela conhece também as consequências de um erro. A atleta já sofreu uma lesão no joelho após ser atingida por uma onda em Itacoatiara e ficou três meses afastada.
— É uma onda muito, muito, muito forte, que pode levar a uma lesão caso ela te ataque. Tem que estar sempre preparada e fugir dessa parte crítica para a onda não te pegar.
De competição na remada a referência no tow-in
Criado em 2019, o Itacoatiara Big Wave nasceu como campeonato de ondas grandes na remada e já contou com categoria feminina desde sua primeira edição.
O tow-in foi incorporado em 2022, inicialmente com uma disputa na Laje do Shock. Wylliam Santana conquistou o primeiro título do formato.
Um ano depois, a competição passou a ser dedicada exclusivamente à modalidade. Gabriel Sampaio foi campeão, enquanto Michelle des Bouillons levou o prêmio de melhor performance feminina.
Em 2024, o campeonato adotou a disputa por equipes. Lucas Chumbo e Pedro Scooby venceram naquele ano e repetiram o resultado em 2025, tornando-se os maiores vencedores da fase do tow-in, com dois títulos.
Na categoria Mulher-Homem, Michaela Fregonese e Nando Fernandes venceram em 2024, enquanto Michelle des Bouillons e Ian Cosenza conquistaram o troféu em 2025.
Foi também em 2024 que Daniel Rodrigues surfou uma onda estimada pela organização em dez metros, apontada como a maior já registrada durante uma disputa de tow-in do IBW.
Sinal amarelo, sinal verde
Agora, a organização acompanha diariamente as previsões meteorológicas e oceânicas para definir quando os atletas entrarão na água.
Quando houver indicação de um swell suficientemente grande, potente e acompanhado de ventos favoráveis, será emitido o Sinal Amarelo, entre cinco e sete dias antes da possível realização do campeonato.
Caso as condições se mantenham nas previsões seguintes, chega o Sinal Verde, entre quatro e cinco dias antes, confirmando a data.
— Estamos em 2026 numa temporada muito boa para o surfe de ondas grandes e a expectativa é recebermos um swell grande em agosto, mas isso depende de vários fatores. Então estamos com a janela aberta desde já e até setembro — afirma Alexey.
Entre os convidados para a edição estão Lucas Chumbo e Pedro Scooby, Gabriel Sampaio e Wylliam Santana, Rodrigo Koxa e Vitor Faria, além de nomes internacionais como o escocês Ben Larg, o francês Clement Roseyro, o inglês Andrew Cotton e os portugueses Tony Laureano e Lourenço Katzenstein.
Entre as mulheres, a lista inclui Michelle des Bouillons, Laura Coviella, Ana Agostini, Dominique Charrier e Summa Longbottom.

