Você conhece a história: em algum lugar do mítico Mediterrâneo, os companheiros do herói Odisseu desembarcaram e comeram algo que os fez esquecer que queriam voltar para casa. Quando Odisseu os encontrou, eles se recusaram a ir embora. Então, ele arrastou os homens, aos prantos, de volta aos navios e os amarrou para que não retornassem à terra dos comedores de lótus.
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É uma passagem estranha em “A Odisseia” — o diretor, Christopher Nolan, adotou uma abordagem própria para o tema no filme recém-lançado — e um dos enigmas mais antigos e não resolvidos do poema: o que, exatamente, os comedores de lótus estavam comendo?
Para entender que espécie de planta poderia ter induzido um estupor tão famoso, o The New York Times entrevistou 10 especialistas em antiguidade, botânica e medicamentos antigos. O problema, ao que parece, começa com a própria palavra “lótus”.
— O ‘lótus’ da ‘Odisseia’ de Homero provavelmente não é a planta que a maioria das pessoas imagina hoje em dia — afirma Cassandra Quave, etnobotânica da Universidade Emory. Não é, por exemplo, o lótus sagrado asiático que aparece na arte budista.
E não era o termo mais específico para a época.
— A palavra ‘lótus’ na Antiguidade era usada para diversas árvores, arbustos e frutos silvestres. Era como ‘cavala — aponta Greta Hawes, professora associada de história antiga na Universidade Macquarie, na Austrália.
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Saber onde viviam os comedores de lótus poderia ajudar a restringir as possibilidades, mas mesmo isso está em aberto. O poeta não tinha nenhum local específico em mente, segundo James Diggle, professor emérito de grego e latim em Cambridge.
Isso não impediu os historiadores da Grécia Antiga, que especularam sobre onde seu navio poderia ter atracado depois que ventos fortes o desviaram da rota por nove dias. Um historiador, Artemidoro, apontou para o Marrocos, onde crescia uma raiz suculenta no deserto. Estrabão achava que era Djerba, uma ilha na costa da Tunísia, lar de uma pequena e doce baga.
— Não há como provar, mas não vejo por que não. De fato, cresce lá uma planta chamada Ziziphus lotus, que tem propriedades sedativas. Eu tinha uma amiga que era viciada nisso — conta Elizabeth Fentress, uma arqueóloga que estudou Djerba.
A Ziziphus lotus é um arbusto espinhoso nativo do Mediterrâneo e do Norte da África, frequentemente chamado de jujuba. Produz frutos redondos e amarelados, do tamanho de uma cereja, que podem ser consumidos frescos ou secos, ou fermentados para a produção de vinho. Com seus leves efeitos sedativos, talvez pudesse ter ajudado os comedores de lótus a permanecerem em sua pacífica apatia.
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Andrew Dalby, linguista, historiador e autor de “Food in the Ancient World From A to Z” (Comida no Mundo Antigo de A a Z), comparou a fruta a um “lanche da antiguidade”.
— Você as comia enquanto caminhava, trabalhava ou caçava. Nesse caso, não me preocupo muito com efeitos psicoativos: se um vinho foi feito com isso, e não há razão para supor que não seja verdade, aí está o efeito desejado — diz.
Mas as páginas da “Odisseia” já estão praticamente manchadas de vinho. Será que o efeito da bebida seria estranho o suficiente para Homero associá-lo aos indolentes comedores de lótus?
— Não creio que Homero teria incluído uma intoxicação alcoólica nesta história, pois seria algo muito banal. é algo mais exótico, que altera mais a mente. Seja lá o que for o lótus, é algo que traz uma sensação de pura alegria — explica Peter Struck, professor de humanidades da Universidade da Pensilvânia.
A flor de lótus azul, Nymphaea caerulea, pode ser exatamente isso. Representações da flor, usada para aliviar a ansiedade e induzir o sono, foram descobertas em tumbas egípcias que datam do século XIV a.C. Doses mais elevadas são conhecidas por causar alucinações e euforia.
— Nymphaea é uma candidata plausível devido à sua distribuição nativa e aos efeitos farmacológicos conhecidos — aponta Alain Touwaide, historiador de plantas medicinais no mundo mediterrâneo antigo.
O último candidato, no entanto, pode ser o mais óbvio: a papoula do ópio. Alan Sumler, autor de “Intoxicação no Mundo Grego e Romano Antigo”, observou que o ópio estava disponível no mundo antigo e que os usuários habituais o consumiam várias vezes ao dia.
Esse hábito, argumenta ele, se assemelha ao dos comedores de lótus.
— Eles comiam lótus todos os dias. Ninguém come um alucinógeno todos os dias. Nenhuma outra droga no mundo antigo, disse ele, teria tido esse efeito — afirma Sumler.
Os homens que precisam ser arrastados de volta aos seus navios e amarrados não estão sob o domínio de uma visão; estão sob o domínio de um vício.
Kirk Freudenburg, um classicista de Yale, acredita que a busca por uma planta específica fracassa por um bom motivo.
— O lótus é para a comida na ‘Odisseia’ o que o Ciclope é para os humanos. Uma figura da imaginação mítica. Não tem um equivalente no mundo real. Em vez disso, combina qualidades que o fazem parecer perigoso, sedutor e decididamente não grego — analisa.
Isso nos leva à questão de por que alguém tentaria identificar o “lótus” em primeiro lugar. Struck, o classicista da Universidade da Pensilvânia, descobriu que a questão é mais interessante do que a própria planta.
— O objetivo de uma história inventada é fazer com que você queira entender melhor o nosso mundo — observa.
A versão de Nolan, que diverge do conto clássico dos comedores de lótus, é apenas a tentativa mais recente. Após 28 séculos, continuar a busca pelo lótus de Homero é, segundo Struck, uma forma de imaginar que a magia do mito possa realmente fazer parte do nosso próprio mundo.

