Mesmo com um cenário de Produto Interno Bruto (PIB) desacelerando nesse e no próximo ano, o Banco Central (BC) segue preocupado com o ritmo e o nível da demanda por bens e serviços no país. A inquietação é reforçada em um contexto de choques externos e de uma política fiscal que, segundo a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada hoje, ainda precisa se harmonizar com o quadro de juros apertados.
Com essa percepção de que é preciso baixar ainda mais o nível de atividade econômica que o BC manteve seu tom cauteloso e justifica a opção por manter um processo bastante gradual de corte da taxa Selic. Na última reunião, ela foi reduzida novamente em 0,25 ponto porcentual, para 14% ao ano.
Em um contexto de choques externos, especialmente por causa da alta do petróleo, a preocupação do BC é justificada. Os impactos nos preços têm sido sentidos nos últimos meses e já empurraram o IPCA para cima do teto da meta neste ano e também colocaram o índice oficial previsto para 2027 substancialmente acima da meta de 3% (3,8% na conta do BC).
Nas contas da autoridade monetária, a inflação volta a ficar ao redor da meta no primeiro trimestre de 2028, que está no seu “horizonte relevante” (período até onde a política de juros causa efeito).
As menções à demanda aumentaram de seis para oito entre as duas últimas atas do Copom, evidenciando uma preocupação ainda forte com o ritmo da atividade econômica. E isso mesmo em um contexto no qual o mercado financeiro já enxerga um crescimento do país próximo a 1,5% no próximo ano, onde o efeito da política mais restritiva estará bastante intenso.
Esse ritmo de 1,5%, se confirmado, vale mencionar, já é significativamente abaixo da capacidade de expansão da economia, que nas contas do BC (não publicizadas) seria algo em torno de 2% (o governo enxerga o potencial em 2,5%). E as preocupações com o risco de uma desaceleração mais forte na economia começam a aumentar tanto no setor privado como em segmentos do governo.
No fim das contas, mesmo sem harmonia com política econômica do governo (que nesse ano adotou mais medidas de estímulo), o BC parece estar conseguindo empurrar o desempenho do país para onde deseja – ou pelo menos fazendo mercado e outros agentes acreditarem nisso. Por isso, vai precisar sopesar os riscos de não derrubar demais a atividade, que pode ser bastante danoso também para o país. Com uma inflação ainda com riscos e uma economia com sinais de perda de tração, não foi à toa que a autoridade deixou em aberto seus próximos passos.

