Eleito em 2022 com uma campanha colada em Jair Bolsonaro e no bolsonarismo, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem se distanciado de conteúdos que o ligam ao padrinho político. Um levantamento da consultoria Bites, feito a pedido do GLOBO com base nas redes sociais, mostra que Tarcísio passou a falar menos de Bolsonaro na corrida eleitoral atual, deixando o discurso ideológico mais voltado a temas como família e valores.
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No debate da Band, no domingo, Tarcísio criticou o adversário Fernando Haddad (PT) por mencionar seguidas vezes o ex-presidente.
— Você está muito focado em Bolsonaro, Bolsonaro, você não está concorrendo com o Bolsonaro, isso foi em 2018, já passou — disse Tarcísio.
— Você tem vergonha do Bolsonaro? — Haddad aproveitou o gancho.
— Não tenho vergonha, não, tenho gratidão. Um abraço, Bolsonaro, vou agradecer sempre ao que você fez na minha vida — respondeu o governador.
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Os dados das redes, porém, mostram Tarcísio menos caloroso do que no “abraço” do debate. Entre janeiro e julho, os termos que o governador mais usou nas redes (X, Facebook, Instagram e TiktoK) foram “São Paulo” (687 vezes), “gente” (422), “história (254), “direção” (246), “segurança” (240), “trabalho” (230) e “famílias” (211). Em 2022, a lista era encabeçada pelo próprio termo “Tarcísio”, com 2358 menções. Em seguida vinham as palavras TF10 (Tarcísio de Freitas 10, seu número na urna, com 1523 citações), Bolsonaro (990), São Paulo (1096), Felício (Ramuth, seu vice, com 327 referências) e @jairbolosnaro (438).
Para aliados e analistas, o movimento aponta um caminho de maior independência de Tarcísio, possível candidato ao Palácio do Planalto em 2030. Os temos não são postados de forma aleatória nas redes. Segundo um integrante da campanha, as palavras são escolhidas com base em pesquisas internas e diárias que o governador recebe, as chamadas trackings. No discurso que referendou a candidatura de Tarcísio, na convenção do Republicanos, na semana passada, todos os termos mais mencionados nas redes do governador foram “pincelados” em seu discurso.
– Fizemos muito, sem dúvida, mas temos muito mais para fazer. E aí a gente precisa fazer uma reflexão. Olha tudo o que nós fizemos: o maior programa de habitação da história, a maior quantidade de cirurgias da história, os menores indicadores criminais da história, o maior programa de infraestrutura da história, a maior expansão do metrô da história – disse Tarcísio, repetindo uma das palavras (história) mais postadas em suas redes sociais.
Como Tarcísio variou o discurso entre 2022 e 2026
O Globo / Dados: Bites
Após ser escanteado da corrida presidencial em dezembro, quando Flávio foi anunciado pré-candidato, Tarcísio passou a “não mais dever” para Bolsonaro, avaliam aliados do governador. Desde então, ele tem se posicionado como “gestor” e mostrado que sempre as realizações no estado. Segundo aliados, caso seja reeleito governador, daqui a quatro anos Tarcísio terá também um “legado para chamar de seu”, com a entrega de obras como estações de metrô, o novo centro administrativo do governo e a universalização do sistema de saneamento básico, prevista para 2029.
De acordo com um secretário, embora não precise se aproximar tanto de Jair Bolsonaro, Tarcísio também não se afasta da direita e tampouco rompe com o bolsonarismo. O governador não tem se envolvido de forma enfática na campanha de Flávio Bolsonaro à presidência, mas está longe de “jogar a toalha”. Nas palavras da fonte, ele mantém a “distância segura” que já mantinha desde a divulgação das relações entre o presidenciável e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas, a “vida própria” de Tarcísio tem uma explicação: ele mantém uma ascensão que já não é vista em Jair Bolsonaro e no bolsonarismo.
– Se a gente for medir pelo voto, a intenção de votos que o Tarcísio tem à reeleição é maior do que a intenção de voto que o Flávio tem à Presidência da República. Então, se o Flávio é a expressão do bolsonarismo, Tarcísio está maior que o bolsonarismo, sim – afirma o professor.
Para Teixeira, a ascensão de Tarcísio, principalmente se ele vencer Fernando Haddad (PT) no primeiro turno, não lhe dará uma condição automática para ser candidato a presidente daqui a quatro anos. Para isso, será preciso que ele trabalhe seu nome nacionalmente.
– Então, se ele quiser lograr sucesso político, ele vai ter que fazer uma aproximação com o Centrão. Isso ele já tem, não seria um problema. Mas ele não pode, com a estatura que ele tem, submeter as decisões dele à decisão de Jair Bolsonaro e família. Além disso, ele terá que se aproximar do (Gilberto) Kassab. Para ele ter uma projeção nacional, Tarcísio depende de aliança política com outros partidos. E hoje o partido que pode dar mais sustentação para ele é o PSD – afirma Marco Antonio Teixeira.
Procurado para falar de sua “desbolsonarização”, atestada por suas postagens em redes sociais, Tarcísio não quis comentar.
‘Isso foi em 2018, já passou’
No primeiro debate da campanha estadual de 2026, realizado pela Band no domingo (9), o ex-presidente Jair Bolsonaro foi citado por Fernando Haddad em uma discussão sobre contas públicas e finanças.
Haddad criticou o que classificou como um “calote” dado pelo governo Bolsonaro aos governadores, lembrando da indisposição do ex-presidente com o então governador paulista João Doria. Falou ainda no negacionismo da pandemia, nos prejuízos do tarifaço americano à economia brasileira e citou bandeiras do governo Lula, como a isenção do Imposto de Renda a quem ganha até R$ 5 mil por mês.
— Você está muito focado em Bolsonaro, Bolsonaro, você não está concorrendo com o Bolsonaro, isso foi em 2018, já passou — disse Tarcísio.
— Você tem vergonha do Bolsonaro? — Haddad aproveitou o gancho.
— Não tenho vergonha não, tenho gratidão. Um abraço Bolsonaro, vou agradecer sempre ao que você fez na minha vida — respondeu o atual governador, que não citou o candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em nenhum dos quatro blocos do debate.

