A barriga de uma mulher durante a gravidez pode assumir diferentes formas ao longo dos meses, mas, nas redes sociais, essa diversidade nem sempre escapa ao julgamento. Anne Hathaway, de 43 anos, passou por essa situação durante a première de “The End of Oak Street”, em Los Angeles. Esperando o terceiro filho, a atriz surgiu no tapete vermelho com o ventre à mostra e recebeu comentários de internautas que chegaram a colocar em dúvida a própria gravidez.
Quantos filhos tem Anne Hathaway? Veja fotos do estilo ‘grávida chic’ da atriz
Buck Palmer: quem é o ex-modelo e designer de joias que conquistou Alessandra Ambrosio
A resposta veio com ironia. No Instagram, Anne publicou imagens dos bastidores da produção para o evento e escreveu “Fake hair, real bump”, algo como “cabelo falso, barriga real”, em referência ao penteado e ao ventre. O anúncio da chegada do terceiro filho havia sido feito em junho. A atriz já é mãe de dois meninos.
Anne Hathaway rebate comentários sobre a barriga e levanta debate sobre padrões na gravidez
Getty Images
O episódio chama atenção para uma cobrança que não começa nem termina nas celebridades. Existe uma expectativa, muitas vezes reforçada pelas redes, de que a barriga de uma futura mãe tenha determinado tamanho ou formato em cada fase. Quando a referência vem de fotos de famosas e influenciadoras, produzidas com iluminação, enquadramento, maquiagem e poses pensadas para a câmera, a comparação pode se tornar ainda mais distorcida.
Não existe um formato ideal
Segundo o ginecologista e obstetra César Patez, a aparência abdominal varia de uma mulher para outra e também pode mudar ao longo dos meses. Estrutura corporal, posição do útero, número de filhos anteriores, musculatura abdominal, posição do bebê e idade gestacional estão entre os fatores que interferem no contorno.
“A aparência da barriga varia muito de uma gestante para outra e pode mudar também ao longo da própria gestação. Estrutura corporal, posição do útero, número de gestações anteriores, musculatura abdominal, posição do bebê e idade gestacional são alguns dos fatores que podem influenciar esse aspecto. Por isso, não é adequado utilizar a aparência da barriga como parâmetro para avaliar se uma gravidez é ou não verdadeira ou se está evoluindo normalmente.”
As diferenças não desaparecem nem quando se trata da mesma mulher. Uma segunda gravidez, por exemplo, pode apresentar características distintas da primeira.
“Durante a gestação, o corpo passa por alterações progressivas e não existe uma aparência que possa ser considerada como o modelo de uma gravidez. Mesmo mulheres que já tiveram filhos podem apresentar barrigas diferentes em cada gestação. O acompanhamento pré-natal e os exames indicados pelo obstetra são os instrumentos adequados para avaliar a saúde materna e fetal, e não uma fotografia ou a comparação visual com outra gestante”, afirma.
Na prática, isso significa que uma barriga maior ou menor não permite, isoladamente, avaliar a evolução de uma gravidez. O aspecto visual pode ser influenciado ainda pela posição do bebê e da placenta, pela constituição física da mãe e pelo número de gestações anteriores.
Anne Hathaway rebate comentários sobre a barriga e levanta debate sobre padrões na gravidez
Getty Images
Quando a imagem vira parâmetro
A dificuldade aparece quando uma experiência individual passa a ser comparada com imagens que circulam em grande escala. No caso das celebridades, a exposição constante cria a impressão de proximidade com o público, embora muitas dessas fotografias sejam resultado de uma produção cuidadosa.
Para a arteterapeuta Juliana Nasasi, especialista em expressão criativa simbólica e processos terapêuticos voltados ao bem-estar emocional e integrante da Desvirtua, esse mecanismo pode interferir na maneira como uma pessoa percebe a si mesma.
“O excesso de comparação pode criar a sensação de que sempre existe algo faltando. A pessoa vê outra mulher com determinado corpo e começa a interpretar aquilo como uma referência que deveria alcançar. Aos poucos, deixa de observar a própria experiência e passa a avaliar o próprio valor a partir de uma imagem externa”, explica.
Mesmo quando há consciência de que uma fotografia foi editada ou produzida, a comparação não deixa necessariamente de acontecer. A repetição de determinadas imagens pode fazer com que um tipo físico seja percebido como mais comum do que realmente é.
A psicóloga Jhoanne Hansen, pesquisadora científica e cofundadora da Desvirtua, explica que a dinâmica das redes contribui para esse processo.
“Mesmo sabendo racionalmente que muitas imagens são editadas, filtradas ou cuidadosamente produzidas, nas redes sociais celebridades e influenciadoras costumam ser apresentadas como pessoas ‘reais’ e próximas do público, o que torna a comparação mais intensa do que com modelos de campanhas publicitárias tradicionais. Quando esse padrão aparece de forma constante no feed, pode influenciar a autoestima, aumentando a comparação e a insatisfação e fazendo com que a pessoa internalize expectativas difíceis ou até impossíveis de alcançar”, destaca.
A lógica de funcionamento das plataformas também pesa. Conteúdos que provocam mais interação costumam ganhar maior alcance e, consequentemente, voltar a aparecer para os usuários.
“Os algoritmos das redes sociais tendem a privilegiar conteúdos que geram mais engajamento. Como determinados padrões de beleza costumam receber mais curtidas, comentários e compartilhamentos, eles são exibidos com maior frequência, tornando-se mais visíveis do que outros corpos e aparências. Com a repetição constante, cria-se a impressão de que esse padrão é o mais comum, desejável ou até ‘normal’, quando, na realidade, representa apenas uma parcela da diversidade corporal existente”, acrescenta.
Anne Hathaway rebate comentários sobre a barriga e expõe pressão estética na gravidez
Getty Images
A pressão estética não desaparece
A gravidez tampouco suspende as cobranças relacionadas à aparência. Durante esse período, tamanho da barriga, ganho de peso, alterações na pele e inchaço podem se transformar em novos motivos para comparação. Depois do parto, a velocidade com que o corpo retorna à forma anterior costuma entrar na mesma lógica.
Para Patez, atribuir significado médico a uma característica observada em uma fotografia é inadequado. “A evolução da gravidez deve ser acompanhada clinicamente. Uma barriga aparentemente menor ou maior não permite, sozinha, concluir se existe algum problema ou se a gestação está adequada. Existem diferenças anatômicas e obstétricas importantes entre as mulheres, e a avaliação deve ser feita levando em consideração o histórico da paciente, o exame físico e os exames de acompanhamento”, observa.
O especialista reforça que até mesmo pequenas diferenças na posição do bebê podem alterar o contorno abdominal: “A posição do bebê pode mudar a aparência da barriga, assim como a posição da placenta, a constituição física da mãe e o número de gestações anteriores. Por isso, comentários baseados apenas em fotografias podem gerar insegurança desnecessária em mulheres que estão vivendo uma fase de muitas transformações.”
Quando a preocupação passa do limite
Prestar atenção à própria imagem em um período de mudanças físicas é esperado. O problema aparece quando essa preocupação começa a interferir na rotina e no bem-estar.
“Algum grau de preocupação com a aparência é natural. O problema surge quando ela passa a ocupar um espaço desproporcional na vida da pessoa e interfere no bem-estar e na rotina. Alguns sinais de alerta incluem preocupação excessiva com defeitos reais ou imaginários, necessidade constante de aprovação sobre a aparência, comparações frequentes com outras pessoas, evitação de situações sociais por vergonha do próprio corpo, sofrimento intenso ao se olhar no espelho ou em fotografias, além de mudanças extremas na alimentação ou na prática de exercícios motivadas apenas pela insatisfação corporal”, esclarece Jhoanne.
A especialista também chama atenção para a possibilidade de rever a relação com o conteúdo consumido diariamente. Não se trata necessariamente de abandonar as redes, mas de perceber quais perfis e imagens despertam sentimentos recorrentes de inadequação.
“Algumas estratégias eficazes incluem diversificar o feed, seguindo perfis que representem diferentes corpos, idades e estilos de vida. Também deixar de seguir contas que despertam comparações constantes ou sentimentos de inadequação, limitar o tempo de exposição, principalmente quando perceber que está navegando de forma automática e desenvolver um olhar crítico sobre o conteúdo, lembrando que fotos e vídeos frequentemente envolvem filtros, edição, iluminação e poses estratégicas”, orienta.
Anne Hathaway rebate comentários sobre a barriga e expõe pressão estética na gravidez
Getty Images
Outra possibilidade é deslocar a atenção da estética para aquilo que o corpo permite fazer. “Também ajuda direcionar a atenção para o que o corpo é capaz de fazer, saindo do hiperfoco na aparência, valorizando aspectos como saúde, força, mobilidade e bem-estar. Se a comparação corporal persistir e causar sofrimento frequente, buscar apoio psicológico pode ajudar a construir uma relação mais acolhedora e realista com o próprio corpo e com o uso das redes sociais”, conclui.
No caso de Anne Hathaway, a discussão começou com uma fotografia de tapete vermelho e comentários sobre o tamanho de sua barriga. Mas a repercussão revela uma questão mais ampla: a ideia de que existe uma maneira correta de aparentar estar grávida. Não existe. Cada mulher atravessa as transformações físicas de uma forma, e nenhuma fotografia pode servir como régua para medir a experiência de outra.

