Trabalhar sem parar, ganhar dinheiro, chegar ao topo. Durante muito tempo, esses foram vistos como sinais de sucesso. Aos poucos, porém, essa ideia vem sendo questionada. Equilíbrio, propósito e qualidade das relações passaram a fazer parte dessa equação, em uma transformação que a ciência também começa a explicar.
Para Henrique Bueno, mestre em psicologia positiva pela University of East London e professor do primeiro mestrado global em Estudos da Felicidade, essa mudança começa pela percepção de que o caminho tradicional para o sucesso não estava entregando o que prometia.
A crise de saúde mental, agravada durante e depois da pandemia, tornou esse descompasso ainda mais evidente e ampliou a busca por outras maneiras de viver melhor.
Nas últimas décadas, o tema passou a ser objeto de investigação científica, com pesquisas dedicadas a entender quais fatores, de fato, fazem diferença no cotidiano e contribuem para uma vida mais satisfatória.
Do ponto de vista científico, a felicidade reúne dois componentes. Um deles é afetivo, ligado às emoções, como sentir-se confortável e experimentar momentos de prazer. O outro é cognitivo e diz respeito à avaliação que cada pessoa faz da própria trajetória.
— Felicidade é, ao mesmo tempo, uma experiência de prazer e de sentido — explica Henrique.
Ele segue a abordagem do SPIRE, estrutura de psicologia desenvolvida por Tal Ben-Shahar para estudar o bem-estar a partir de cinco dimensões: espiritual, física, intelectual, relacional e emocional. A proposta é observar como cada uma delas contribui para a experiência de uma pessoa, em vez de atribuir o bem-estar a um único aspecto.
No campo espiritual está o propósito, entendido como a percepção de que aquilo que fazemos tem valor. Ele não precisa estar associado a grandes causas nem à ambição de mudar o mundo. Pode estar, por exemplo, na maneira como cada um enxerga a contribuição do próprio trabalho.
Uma pesquisa conduzida por Amy Wrzesniewski, que consolidou a carreira na Universidade Yale e hoje leciona na Wharton School, acompanhou profissionais de limpeza hospitalar que encaravam a mesma função de maneiras diferentes. Enquanto alguns se limitavam às tarefas previstas, outros conversavam com pacientes e familiares, procuravam tornar a internação mais agradável e se viam não apenas como responsáveis pela limpeza, mas como parte do cuidado.
Os pesquisadores observaram que esse segundo grupo encontrava mais significado no trabalho e mantinha uma relação mais positiva com a própria função. A conclusão reforçou a ideia de que pequenas mudanças na maneira de agir e de enxergar o que se faz podem aumentar o engajamento e a satisfação profissional.
— Propósito tem mais a ver com perceber sentido no que faz do que com desejos grandiosos — diz Henrique.
O peso das relações
Entre os fatores estudados, os relacionamentos ocupam lugar central. Não importa tanto o número de amigos, mas a qualidade dos vínculos. Ter com quem contar, cultivar intimidade e sentir-se parte de um grupo pesa mais do que acumular dezenas de contatos superficiais.
Essa busca, porém, também pode criar uma nova armadilha. A exposição constante a rotinas idealizadas nas redes sociais alimenta comparações e pode transformar a própria sensação de bem-estar em mais uma meta de desempenho.
— Quando a gente começa a achar que felicidade é um marco a ser alcançado, a experiência fica mais difícil. Porque essa felicidade é irreal — observa o psicólogo.
Dias ruins, frustrações e dificuldades sempre vão existir. A saída, explica o especialista, passa menos por grandes reviravoltas e mais por escolhas que cabem no cotidiano: cuidar dos vínculos, movimentar o corpo, encontrar momentos de prazer e prestar atenção ao que importa.
Mandar uma mensagem para alguém com quem não se fala há algum tempo, escolher a escada em vez do elevador, trocar alguns minutos de rolagem nas redes por uma leitura ou uma conversa podem ser bons começos.
Nenhuma dessas escolhas, isoladamente, transforma uma existência. Incorporadas ao cotidiano, porém, podem mudar a maneira como ela é vivida.
Pequenas escolhas, grandes efeitos
Hábitos simples podem ajudar a construir uma rotina mais conectada ao bem-estar.
Reaproxime-se: mande uma mensagem para alguém de quem você gosta e com quem não fala há algum tempo.
Mexa o corpo: escolha a escada em vez do elevador ou encontre outras formas de incluir movimento na rotina.
Diminua a rolagem: troque alguns minutos nas redes sociais por uma leitura ou uma conversa.
Encontre sentido: observe como o seu trabalho contribui para outras pessoas e para aquilo que você considera importante.
Valorize os vínculos: mais do que acumular contatos, invista em relações nas quais exista intimidade e apoio.
Quando a gente começa a achar que felicidade é um marco a ser alcançado, a experiência fica mais difícil. Porque essa felicidade é irreal
Henrique Bueno, mestre em psicologia positiva
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