Especialistas, pesquisadores, gestores públicos e lideranças do setor privado se reuniram no 1º Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR para debater os desafios de crescimento das grandes cidades brasileiras. Com a proposta de trazer visões plurais sobre o futuro das metrópoles, o evento abordou temas como planejamento, tecnologia, políticas públicas e modelos de gestão voltados ao crescimento de cidades mais inclusivas e sustentáveis.
Durante a cerimônia de abertura, o presidente do Secovi-SP, Jorge Cury, defendeu a necessidade de estabelecer conexões mais estruturadas entre prefeituras, governos e empresas do setor.
— Nenhuma cidade se constrói sozinha. Para alcançar resultados de longo prazo e melhorar a qualidade de vida das pessoas, é preciso fomentar o diálogo entre diversas pontas do mercado, fortalecendo a construção de consensos pautados pelos interesses coletivos — afirmou.
Elisabete França, Secretária Municipal de Urbanismo e Licenciamento de São Paulo
Divulgação
Um dos temas centrais da programação, o panorama de mobilidade urbana foi debatido a partir dos gargalos apresentados em regiões periféricas. Para Elisabete França, Secretária Municipal de Urbanismo e Licenciamento de São Paulo, a fluidez dos deslocamentos está diretamente ligada à capacidade de investimentos integrados de infraestrutura — como redução do déficit habitacional, acesso a serviços básicos e ampliação de redes intermodais de transporte.
Como exemplo dessa tendência, ela citou o Aquático-SP, sistema hidroviário que utiliza a represa Billings como corredor de transporte e reduziu trajetos de até duas horas para cerca de 15 minutos. Integrado ao bilhete único, o serviço já soma mais de 1 milhão de passageiros transportados.
— A prioridade deve estar na formação de metrópoles de acessibilidade total, levando em conta os contextos de cada região. Para que isso aconteça, precisamos investir em diferentes formatos e tecnologias de mobilidade — disse Elisabete.
O resgate do centro
Uma das agendas mais urgentes para o desenvolvimento dos grandes centros urbanos, a revitalização das áreas centrais discutida por nomes como Guilherme Afif Domingos, secretário extraordinário de Projetos Estratégicos do Estado de São Paulo, que destacou a instalação da nova sede do governo no bairro dos Campos Elíseos — projeto que deve levar 22 mil funcionários a ocupar mais de 40 imóveis de alto padrão na região.
— A mudança faz parte de um movimento sem precedentes de retomada do centro de São Paulo, que tem como foco a requalificação de uma área que concentra parte fundamental do patrimônio histórico e do equipamento cultural da cidade. A partir de ações conjuntas realizadas pelo município e pelo estado, a região vem sendo resgatada por meio de frentes integradas de investimentos, combate à criminalidade e acesso a serviços de qualidade, incentivando a volta de projetos imobiliários qualificados — explicou Afif Domingos.
Marcos Monteiro, secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras da Prefeitura de São Paulo
Divulgação
Entre as políticas públicas citadas como base dessa transformação está o Requalifica Centro, programa da Prefeitura de São Paulo que incentiva o retrofit e a conversão de prédios antigos ou subutilizados em espaços habitacionais e comerciais. A iniciativa prevê subsídios diretos, simplificação de trâmites burocráticos e redução de impostos e taxas municipais.
“É preciso adotar uma abordagem integrada para estimular a reocupação de áreas como o centro de São Paulo. Além de das obras de infraestrutura, o modelo adotado em São Paulo inclui o incentivo a projetos de retrofit, benefícios fiscais e o acolhimento da população em situação de rua”, Marcos Monteiro, secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras da Prefeitura de São Paulo.
Fabrício Cobra: “Queremos que o centro seja um local de permanência, onde as pessoas se relacionem com a região da mesma maneira que vivenciam suas rotinas em outros bairros”
Divulgação
Para Fabrício Cobra, Secretário Municipal das Subprefeituras, trata-se de um modelo de planejamento que coloca a população no centro das decisões.
— Quando pensamos no desenvolvimento das cidades, o foco deve estar nas pessoas. A abertura de canais de escuta para as demandas reais da sociedade faz com que o mapeamento de prioridades seja mais assertivo, permitindo um planejamento mais claro sobre as ações necessárias para atrair investimentos do mercado imobiliário — afirmou.
— Queremos que o centro seja um local de permanência, onde as pessoas se relacionem com a região da mesma maneira que vivenciam suas rotinas em outros bairros, unindo trabalho, habitação, cultura e gastronomia — completou.
O potencial das periferias
A reestruturação de zonas periféricas e áreas vulneráveis também foi apontada como um ponto fundamental para reduzir desigualdades e criar oportunidades de crescimento de longo prazo. Um exemplo citado foi o Nova Paraisópolis, projeto de urbanização integrada da Prefeitura de São Paulo, que busca respeitar as características de territórios autoestabelecidos.
Jorge Cury Neto, presidente do Secovi-SP
Divulgação
Com uma população estimada em 60 mil habitantes, a comunidade da Zona Sul de São Paulo reúne características de bairros compactos, como fachada ativa, mobilidade orgânica — com alta circulação de pedestres e uso de transporte coletivo de média capacidade — e vida social intensa em vias compartilhadas. A partir desse diagnóstico, os planos de intervenção têm priorizado áreas como segurança, resiliência climática, conforto térmico e ampliação da vegetação urbana.
— É preciso aproveitar as qualidades arquitetônicas que já existem no local, impulsionando essas vantagens com investimentos capazes de escalar os efeitos das ações realizadas, congregando as perspectivas de diferentes perfis de moradores e empreendedores — afirmou Pedro Fernandes, presidente da SP Urbanismo.
Pedro Fernandes, presidente da SP Urbanismo
Divulgação
De maneira transversal às melhorias incrementais, Fernandes reforçou a importância de explorar caminhos que conectem projetos de engenharia e arquitetura a objetivos mais amplos de inclusão social, prosperidade econômica e sustentabilidade, consolidando as ações de planejamento urbano como ferramentas de transformação social.
— Em vez de adotar perspectivas isoladas, as expectativas de retorno devem contemplar dimensões sociais, ambientais e econômicas. Para que isso aconteça, é preciso apostar em iniciativas que sejam baseadas na realidade concreta que as pessoas construíram durante décadas e valorizar essas potencialidades — concluiu.

