Citado por Ronaldo Caiado (PSD) para assumir o Ministério da Segurança Pública numa eventual gestão presidencial sua, o promotor Lincoln Gakiya disse ter se surpreendido com a menção. Um dos principais investigadores do crime organizado no país, o membro do Ministério Público de São Paulo descartou abrir mão do cargo para compor a Esplanada caso o ex-governador de Goiás seja eleito presidente. Após participar de um evento na Zona Oeste paulistana, ele explicou por quê:
— Fico muito honrado, lisonjeado, contente com a lembrança do meu nome, quer dizer que o trabalho tem sido bem realizado, porém, não vou discutir isso agora — destacou. — Não vou perder uma aposentadoria que eu lutei a vida inteira por esse ou aquele cargo.
Gakiya deixou a porta aberta para assumir o posto, quem sabe, após cumprir os requisitos para se aposentar no MP.
— Se eu achar que eu posso contribuir melhor fora do Ministério Público, aí eu vou pensar. Mas perder a aposentadoria eu não vou — acrescentou ele, em declarações reproduzidas pelo Estadão.
O promotor se disse favorável à criação de um ministério específico de segurança pública para aprimorar o combate ao crime organizado no país e revelou que esta não foi a primeira vez a ser convidado para um governo. Desta vez, Gakiya contou que recebeu uma ligação com um pedido de desculpas de Caiado pela exposição da intenção de convidá-lo.
— Fui surpreendido com a divulgação dele, porque ele não havia me avisado, mas ele me ligou depois, pediu até desculpas e disse: ‘Olha, saiu meio sem querer, mas eu realmente quero convidá-lo’ — disse ele, que relatou ter respondido ao candidato que não estava aberto a propostas, por ora.
Gakiya já expressou posicionamentos contrários ao do presidenciável quanto a políticas para a área. Uma das divergências se dá na classificação de facções criminosas como organizações terroristas.
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No final de maio, Caiado elogiou a decisão dos Estados Unidos de atribuir a classificação ao Comando Vermelho (CV) e ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O ex-governador de Goiás já prometeu que, caso seja eleito em outubro, irá incluir os dois grupos criminosos na categoria.
— Se eu estivesse no governo, eu já tinha decretado como terrorista e já tinha ampliado muito mais as penas — disse Caiado no dia 29 de maio, em um evento na Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul. Ele usou a decisão do governo de Donald Trump para criticar o governo do adversário Luiz Inácio Lula da Silva — Nós sabemos que esta situação já deveria ter sido tomada mais cedo pelo próprio governo e não criar uma situação extremamente desconfortável.
Nos últimos dias, Caiado apresentou o seu plano de governo para a área de segurança. Um dos eixos do programa, batizado de Operação Reconquista, é a criação de uma Lei do Terrorismo Doméstico para enquadrar milícias e facções na classificação. O texto permitiria tratar essas organizações como terroristas mesmo sem elas apresentarem motivações ideológicas para seus crimes.
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Gakiya, por outro lado, já se manifestou de forma contrária à decisão americana. Conhecido por ser um dos principais nomes no combate ao PCC em São Paulo, tendo sido jurado de morte pela facção, ele disse não ver benefícios na classificação adotada pelos Estados Unidos. Ele também demonstrou preocupação em relação a possíveis ações americanas em território nacional e sanções econômicas. Na época em que a classificação foi anunciada, Gakiya disse temer que ela pudesse dificultar a troca de informações com autoridades locais.
— Não vi, nessa última década, nenhum avanço interno no México, seja por intervenção norte-americana ou não, em conter o avanço dos cartéis, que hoje praticamente dominam a economia mexicana. Esses cartéis já foram classificados como terroristas há muitos anos e continuam operando (…) Os Estados Unidos não têm conseguido combatê-las nem mesmo dentro do seu território. Os cartéis mexicanos, as maras de El Salvador, o Trem de Aragua e o próprio PCC estão operando normalmente dentro dos Estados Unidos. Não é a classificação por si só que vai melhorar — disse Gakiya ao GLOBO em maio.
A classificação de CV e PCC como terroristas é um dos vetores da crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos. O episódio foi uma oportunidade para o governo federal retomar o mote da soberania, uma das apostas de Lula para a campanha na qual tentará a reeleição. Além de Caiado, outros adversários do petista, como o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) e o senador do Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro (PL-RJ), também já defenderam a medida americana.

