Nove funcionários de uma empresa de segurança privada foram denunciados pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES) por envolvimento no sequestro, tortura e morte de um homem em situação de rua na Grande Vitória. Segundo a denúncia, Marcos Vinícius Lopes Rodrigues, conhecido como “Bracinho”, foi capturado na madrugada de 17 de março deste ano, levado para uma área de mata na região de Nova Almeida, em Serra, agredido e abandonado gravemente ferido. O corpo foi encontrado mais de um mês depois, em 20 de abril.
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Os denunciados trabalhavam na Tattica Tecnologia e Segurança Eireli. A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), por meio da Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas (DEPD), informou que concluiu a investigação no âmbito da Operação Invisíveis. Com o recebimento da denúncia pela Justiça, os nove suspeitos se tornaram réus. Oito estão presos e um permanece foragido.
De acordo com a denúncia, o grupo atuava de forma organizada contra pessoas em situação de rua que eram apontadas como autoras de pequenos furtos em condomínios atendidos pela empresa ou consideradas inconvenientes por clientes. A investigação identificou outros episódios de violência que podem estar relacionados aos integrantes da equipe.
Quem são os denunciados
Ralson Amâncio Chagas, 42 anos. Preso no Centro de Detenção Provisória de Viana 2 – CDPV I;
Celso Henrique de Azevedo, 35 anos. Preso Centro de Detenção Provisória da Serra – CDPS;
Gabriel dos Santos Amaral, 29 anos. Preso no Centro de Detenção Provisória de Guarapari – CDPG;
Thiago Gonçalves, 24 anos. Preso no Centro de Detenção Provisória de Viana II – CDPV II;
Saimon Sales Cesar, 30 anos. Preso no Centro de Detenção Provisória da Serra – CDPS;
Paulo Henrique Esteves Silva, 30 anos. Preso no Centro de Detenção Provisória de Guarapari – CDPG;
Rafael de Souza Silva, 33 anos. Preso no Centro de Detenção Provisória de Guarapari – CDPG;
Gabriel Fittipaldi, vulgo “Pimentel”, 22 anos. Preso no Centro de Detenção Provisória de Vila Velha – CDPVV;
Lucas Miguel Oliveira dos Santos, vulgo “MEC”, 28 anos. Foragido.
Segundo a denúncia, Ralson Amâncio Chagas, Gabriel dos Santos Amaral, Paulo Henrique Esteves Silva e Lucas Miguel Oliveira dos Santos respondem por homicídio qualificado, ocultação de cadáver e organização criminosa.
Celso Henrique de Azevedo, Thiago Gonçalves, Saimon Sales César e Rafael de Souza Silva respondem, além desses crimes, por tortura. Gabriel Fittipaldi foi denunciado por homicídio qualificado e ocultação de cadáver.
Vítima foi capturada e levada para área de mata
Marcos Vinícius já era conhecido pelos integrantes do grupo antes do homicídio. Segundo o MP, ele havia sido apontado como autor de furtos na região e já tinha sido alvo de uma ação dos vigilantes dias antes de ser morto.
Na madrugada de 16 de março, a vítima teria invadido a sede da Tattica e subtraído objetos do local. De acordo com a denúncia, os integrantes do grupo interpretaram a ação como um desafio à autoridade que exerciam informalmente na região e decidiram capturá-lo e levá-lo para uma área próxima ao Contorno de Jacaraípe.
Ainda no dia 16, os denunciados teriam começado a organizar a ação por meio do WhatsApp. Fotografias de Marcos foram compartilhadas para facilitar sua identificação, enquanto informações sobre a localização dele eram repassadas entre os integrantes. Segundo o MP, Ralson Amâncio Chagas, apontado como coordenador da equipe de rondas, também convocou funcionários para uma reunião na empresa para definir os detalhes da ação.
A conversa de WhatsApp dos nove vigias denunciados pelo Ministério Público do Espírito Santo
Reprodução/Polícia Civil do Espírito Santo
Na madrugada do dia 17, Ralson, Celso Henrique de Azevedo, Gabriel dos Santos Amaral e Thiago Gonçalves estavam em uma Fiat Strada. Outros denunciados acompanhavam a ação em motocicletas.
Segundo a denúncia, o grupo localizou Marcos no bairro Praia do Suá, em Vitória. Ao menos três integrantes desceram do veículo e abordaram a vítima. Para o MP, os denunciados utilizaram pistolas de air soft e de pressão para ameaçá-la.
A disposição dos nove denunciados pelo Ministério Público do Espírito Santo
Reprodução/Polícia Civil do Espírito Santo
Marcos foi colocado à força dentro do carro. Os demais integrantes teriam acompanhado o veículo pelas ruas da Grande Vitória, até a área de mata previamente escolhida na região de Nova Almeida, em Serra.
Grupo teria deixado homem ferido para morrer
Segundo o Ministério Público, Marcos foi agredido no local e abandonado gravemente ferido. Ainda na madrugada de 17 de março, parte dos integrantes teria retornado à área de mata para verificar o estado da vítima. Conforme a denúncia, eles encontraram Marcos vivo, mas deixaram o local novamente sem prestar socorro.
Na tarde daquele dia, Saimon Sales César teria ido ao local a mando de Ralson. Segundo o MP, foi ele quem constatou que Marcos havia morrido. Após a confirmação da morte, os denunciados teriam decidido ocultar o cadáver. No dia seguinte, 18 de março, Gabriel Amaral, Thiago, Saimon e Gabriel Fittipaldi retornaram à área de mata em um veículo da empresa e enterraram o corpo.
Marcos só foi encontrado em 20 de abril, mais de um mês após o homicídio. A Polícia Civil informou que os investigadores reconstruíram a dinâmica do crime até chegar ao local onde o corpo havia sido enterrado. Um exame de DNA também confirmou que o sangue encontrado no banco traseiro do veículo utilizado na ação pertencia à vítima.
A denúncia sustenta que o homicídio foi precedido por outra ação violenta contra Marcos. Entre a noite de 7 de março e a madrugada do dia 8, quatro dos denunciados — Celso, Thiago, Saimon e Rafael de Souza Silva — teriam localizado a vítima dormindo em uma via pública no bairro Prainha, em Vila Velha. Segundo o MP, os homens haviam sido informados de que Marcos teria furtado um condomínio atendido pela Tattica.
A vítima teria sido capturada mediante violência e grave ameaça e levada para outro local. De acordo com a denúncia, os vigilantes a agrediram enquanto a questionavam sobre outros possíveis furtos. O MP afirma que os homens utilizaram um alicate para arrancar dentes de Marcos. A ação foi filmada pelos próprios denunciados e as imagens foram incorporadas à investigação.
Segundo a denúncia, a violência tinha como objetivo aplicar um castigo à vítima e impedir que ela voltasse a praticar furtos.
Outras vítimas
A investigação também apontou outros episódios envolvendo pessoas em situação de rua. Segundo a Polícia Civil, além de Marcos, foram identificadas pelo menos outras sete possíveis vítimas de agressões atribuídas a integrantes da equipe.
Um dos casos ocorreu em junho de 2024. Um homem relatou à polícia ter sido abordado por três vigias em frente a um condomínio e agredido com socos, chutes e golpes de cassetete. Exames médicos teriam confirmado as lesões.
Em março deste ano, outro homem teria sido sequestrado e torturado depois de ser apontado como autor de furtos em uma lavanderia. Ele conseguiu fugir e foi socorrido pelo Samu com hematomas, vômitos e uma lesão na cabeça.
A investigação também identificou o caso de uma mulher em situação de rua que teria sido agredida por integrantes da equipe em setembro de 2025. Segundo os investigadores, uma mensagem enviada em um grupo de WhatsApp relatava que ela havia sido colocada no chão.
Nem todas as possíveis vítimas identificadas nas imagens foram localizadas pela polícia para prestar depoimento.
Agressões eram combinadas por WhatsApp
Segundo a investigação, as ações contra pessoas em situação de rua eram organizadas por meio de grupos de WhatsApp utilizados pelos integrantes da equipe de rondas. As agressões também teriam sido filmadas pelos próprios vigilantes e compartilhadas entre os participantes. Em um dos grupos, chamado “RONDAS”, os integrantes comentavam as ações e faziam referências às vítimas.
A investigação aponta Ralson como uma das principais lideranças do grupo. Segundo o material reunido pela polícia, ele distribuía funções e orientava os demais integrantes durante as rondas.
Em uma das mensagens analisadas pelos investigadores, Ralson teria feito referência à possibilidade de uma agressão terminar em morte. O conteúdo consta da investigação que embasou a denúncia.
MP aponta organização criminosa
Na denúncia, o Ministério Público afirma que os acusados formavam uma organização criminosa estruturalmente organizada, com divisão de tarefas e atuação reiterada contra pessoas em situação de rua.
Segundo o MP, a prática teria ocorrido desde 2024 e seguido um padrão semelhante: pessoas consideradas inconvenientes ou apontadas como autoras de pequenos furtos eram localizadas, capturadas e agredidas para serem afastadas das áreas atendidas pela empresa.
A denúncia sustenta ainda que Ralson exercia função de liderança na organização, enquanto os demais integrantes das rondas executavam as abordagens e atos violentos.
Para o Ministério Público, a atuação beneficiaria indiretamente os clientes da empresa, ao retirar pessoas em situação de rua das proximidades dos condomínios.
O homicídio de Marcos foi denunciado com as qualificadoras de motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima. O MP também afirma que o crime teria sido cometido por uma espécie de milícia privada sob o pretexto de prestação de serviço de segurança.
A Tattica Tecnologia e Segurança foi procurada pela reportagem, mas não havia se manifestado até a publicação desta matéria.

