O Talibã retomou o controle do Afeganistão há cinco anos, voltando ao poder após duas décadas para restaurar um governo islâmico severamente restritivo aos direitos das mulheres. Neste curto período, mulheres e meninas foram sistematicamente apagadas da maior parte da vida pública, dizem especialistas, acrescentando que as limitações impostas à metade da população podem comprometer o futuro do país.
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As duras restrições impostas a mulheres e meninas representam um retorno às condições existentes na última vez em que o Talibã esteve no controle do Afeganistão, no fim da década de 1990. Mais de 160 decretos foram emitidos tendo como alvo mulheres e meninas, proibindo-as de frequentar o ensino médio e superior e restringindo opções de emprego, circulação, vestimenta, liberdade de expressão e participação nas decisões.
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“Nenhum outro país nos tempos modernos desmantelou os direitos de metade de sua população por meio da lei, de políticas e de práticas na mesma proporção”, indicou na quarta-feira a agência das Nações Unidas para as mulheres. “Ao mesmo tempo, crises humanitárias e econômicas sobrepostas e o aprofundamento da pobreza também estão tendo um impacto desproporcional sobre mulheres e meninas”.
As restrições oficiais reforçaram as pressões sociais, e muitas mulheres dizem que suas comunidades cada vez as pressionam mais a se conformarem, segundo um novo relatório da ONU Mulheres, com base em pesquisas recentes. “Meia década de restrições crescentes reduziu os lugares aonde as mulheres afegãs podem ir, o que podem fazer e como podem viver”, afirma o documento. “Os resultados são alarmantes”.
A agência entrevistou cerca de 5 mil afegãos em comunidades rurais e urbanas desde o ano passado, perguntando a mulheres e homens sobre a vida sob o Talibã. Houve algumas semelhanças nas respostas dos dois grupos — mas também diferenças muito marcantes. Muitos dos afegãos entrevistados expressaram decepção com o rumo que suas vidas tomaram nos últimos anos. Ainda assim, as mulheres relataram níveis de isolamento e sofrimento que sugerem uma crescente crise de saúde mental, segundo o relatório da ONU.
Mais da metade dos homens entrevistados — cerca de 55% — disse que suas vidas estavam piores do que esperavam que estivessem antes de agosto de 2021, em comparação com 65% das mulheres que manifestaram sentimento semelhante. Mas as razões eram muito diferentes.
Mulheres finalizando um tapete em Mazar-e-Sharif, no Afeganistão, em maio. As oportunidades de trabalho para mulheres são escassas.
Kiana Hayeri/The New York Times
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Os homens entrevistados relataram frustração com a falta de oportunidades econômicas, enquanto muitas mulheres também apontaram a redução do acesso à educação, para si mesmas ou para seus filhos, além das regras que restringem o trabalho e a vida das mulheres.
“Ao fechar o acesso à educação e a muitas formas de emprego, essas restrições agravam as pressões econômicas já sentidas pela maioria das mulheres”, aponta o relatório da ONU, destacando o “profundo impacto pessoal” que a situação teve sobre as afegãs. Muitas mulheres relataram aumento do estresse, da preocupação e da pressão, “em consonância com evidências mais amplas de deterioração da saúde mental”, acrescenta o documento.
O relatório destaca o isolamento que muitas mulheres vivenciam em consequência das restrições. Uma enorme maioria das entrevistadas — 90% — afirmou que precisa da autorização de um homem da família para sair de casa. E mais da metade disse que saía apenas uma ou duas vezes por mês. Entre os homens entrevistados, mais de 95% afirmaram sair de casa diariamente.
A adesão de mulheres e meninas às novas regras do Talibã é cada vez mais reforçada pelas pessoas ao seu redor, como parentes e vizinhos. O relatório da ONU observou que quase 40% das entrevistadas disseram sentir mais pressão do que antes para adaptar seu comportamento por medo de que pessoas conhecidas as denunciem vestimentas, falas ou atitudes consideradas inadequadas.
“O Talibã ampliou o controle estatal profundamente para dentro da esfera privada, transformando normas patriarcais em obrigações legais e convocando as famílias a fazer cumprir sua ideologia”, escreveu Belquis Ahmadi, advogada de direitos humanos e especialista em Afeganistão, anteriormente ligada ao Instituto da Paz dos Estados Unidos, em um relatório recente sobre o governo do Talibã.
Mulher e filha caminham, em dezembro, passando pelo centro de saúde fechado de sua comunidade na província de Daikundi, no Afeganistão
Tomas Munita/The New York Times
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Especialistas em direitos humanos afirmam que a crise das mulheres no Afeganistão chegou a um ponto crítico. O país é o único no mundo a proibir formalmente o acesso de meninas e mulheres à educação além do nível primário. Quanto mais tempo mulheres e meninas forem excluídas das escolas, das instituições e da vida pública, mais arraigado se torna o sistema restritivo, maior fica o atraso em relação ao restante da sociedade e menor é o número de modelos e referências disponíveis — tornando cada vez menos provável sua capacidade de recuperação e colocando em risco as perspectivas de longo prazo do país.
“À medida que uma nova geração de meninas cresce sem educação, seu futuro se torna cada vez mais sombrio”, escreveu a UNESCO em um comunicado nesta semana, pedindo a restauração integral do direito à educação para meninas e mulheres afegãs.
Ahmadi escreveu em sua análise: “Por trás de cada decreto do Talibã há uma história humana: uma estudante universitária guardando seus livros, uma professora afastada da profissão que ama, uma juíza obrigada a se esconder, uma médica impedida de atender pacientes, uma empreendedora fechando seu negócio ou uma jovem perguntando aos pais por que não pode mais estudar enquanto seu irmão vai livremente à escola”.
Ela argumenta que a comunidade internacional precisa se manifestar em defesa daqueles que foram silenciados.
“O maior perigo que o Afeganistão enfrenta hoje não é apenas o fato de que 20 milhões de mulheres e meninas estão sendo sistematicamente apagadas da vida pública”, escreveu Ahmadi. “É que o mundo está lentamente aprendendo a conviver com isso”.

