Importadas de outros continentes para o Rio de Janeiro, as amendoeiras das ruas e praças renegam as origens estrangeiras e gostam de se afirmar como parte da identidade carioca. Apesar de exótica, aos poucos a espécie conquistou espaço — e corações. Ela espalhou as suas raízes pela história do município, compôs projetos urbanísticos e virou tema de crônica do poeta Carlos Drummond de Andrade. Mesmo sem ser mais plantada em espaços públicos, é uma das protagonistas das ruas da cidade e se recusa a seguir o calendário: em lugar de perder as folhas no outono, escolheu o inverno para cobrir de vermelho, amarelo e marrom a cidade, enfeitando as ruas e encantando quem passa embaixo de seus galhos.
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— É o momento em que aqui fica mais bonito. A gente tem essa sensação de que o vento vai espalhando-as por toda a Praça Paris. Fica aquele monte de folhas avermelhadas no chão e os meus cachorros adoram — afirmou o ator Ed Lopes, que vive na Glória há 18 anos e gosta de admirar a mudança na paisagem provocada pelas amendoeiras.
Folhas de amendoeiras enfeitam o calçadão da Mureta da Urca
Marcia Foletto
As amendoeiras chegaram de mansinho ao Brasil, há mais de 200 anos. As primeiras mudas da espécie vieram para o Rio de Janeiro com Dom João VI e a corte portuguesa, no século XIX, trazidas da Ásia e da costa do Índico africano. Muitas vezes, seus troncos foram utilizados como lastro nos navios, carregando folhas e frutos; no desembarque, a maioria foi deixada rente ao mar e tomou conta da costa brasileira, o que influenciou um dos nomes da espécie: amendoeira-da-praia.
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As árvores cresceram acompanhando a transformação da colônia em império. Mas foi só no início do século seguinte, já na república, que foram para o centro do palco da cidade. A espécie integrou o projeto urbanístico do prefeito Pereira Passos, que revolucionou a cidade a partir de 1903 numa tentativa de igualar o Rio de Janeiro a Paris. Como o chão da cidade francesa fica repleto de folhas de tons quentes no outono, o governante quis o mesmo efeito aqui.
Ator Ed Lopes admira as folhas avermelhadas das amendoeiras
Marcia Foletto
As árvores se integraram tão bem ao projeto de Passos que, ao longo dos anos seguintes, foram sendo plantadas em outros pontos do Rio. Um dos exemplos é a Praça Paris, na Glória, cercada por amendoeiras e coberta por estes dias pelas folhas vermelhas que dão ao local um ar ainda mais europeu.
Folhas de amendoeiras enfeitam a Praça Paris
Marcia Foletto
Em 1956, Drummond escreveu “Fala, amendoeira”, uma crônica toda dedicada à árvore, publicada no “Correio da Manhã”:
“Serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes”, diz um trecho do texto. Na crônica de Drummond, ele observa que uma amendoeira, dentre várias de sua rua, é a única que está com as folhas amarelas e vermelhas sendo despejadas pelo chão, enquanto as demais continuam verdes. “É como se o cronista, lhe perguntasse – Fala, amendoeira – por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe: — Não vês? Começo a outonear. É 21 de março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono. Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações”.
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Se no inverno as folhas decidem se despedir das árvores e cobrir o chão, no restante do ano a amendoeira é amiga dos que procuram uma sombra, nos dias quentes ou nas tardes boêmias. São vários os bares espalhados no Rio com o nome de “Bar da Amendoeira”. O mais famoso, localizado em Maria da Graça, na Zona Norte, é tombado como patrimônio cultural da cidade.
As folhas das amendoeiras cobrem o chão da Avenida João Luiz Alves, na Urca
Márcia Foletto
Marcus Nadruz, coordenador da Coleção Viva do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, explica por que as amendoeiras decidem contrariar as estações do ano e perder as folhas no inverno, em lugar do outono.
— É uma planta exótica, não nossa. Tem uma distribuição geográfica da costa da África no Índico, ali naquela ilha de Madagascar, passando pelo sudoeste da Ásia até chegar no norte da Austrália. É um ambiente um pouco diferenciado do nosso. Apesar de pegar parte dos trópicos, ele tem uma diferenciação em temperaturas, em níveis de chuva — esclarece ele. — Por exemplo, no sudeste da Ásia tem um inverno muito mais rigoroso que o nosso. Aqui ela está crescendo numa área que não é a dela. Quando você pega uma planta exótica, coloca num local que não é o dela, como é o nosso caso no Rio, ela vai começar a se adaptar ao nosso clima. É uma planta que aqui normalmente perde as folhas no inverno, porque é quando esfria e, como uma proteção, ela perde as folhas.
Bonita por fora, caótica por dentro
Segundo o botânico, a árvore estrangeira não chega a ser considerada invasora nem ameaça a flora ou a fauna local. A amendoeira se adaptou bem à natureza urbana e suas amêndoas servem até de alimento para animais como morcegos. Entretanto, o seu temperamento espalhafatoso pode ser um problema para as construções da cidade.
As amendoeiras têm raízes profundas que, ao longo de sua vida, se espalham pelo solo, levantando o concreto e, em alguns casos, invadindo até tubulações civis para colher água. Por conta disso, elas podem destruir calçadas e causar danos à estrutura de imóveis. É por conta de malefícios como esses que o plantio da árvore não é mais feito em novos projetos de urbanização da Fundação de Parques e Jardins do município, que dá preferência às espécies nativas.
— Eu, como botânico, não recomendaria para plantio, porque a raiz, além de profunda, se espalha muito. Ela levanta calçamentos, faz um certo estrago — afirma Nadruz.
Gari varre folhas de amendoeiras na Praça Paris
Márcia Foletto
Além dos problemas causados por suas raízes, a alta na queda de folhas também altera a rotina de limpeza da cidade. Segundo o Inventário da Cobertura Arbórea da cidade, de 2015, 15% das árvores em áreas públicas da cidade eram amendoeiras, com a planta estando entre as espécies mais volumosas do perímetro urbano do Rio. A Comlurb está com um planejamento especial para o momento: a companhia informou que “está montando roteiros especiais, em circuitos, com caminhões exclusivos para a varrição e remoção de folhas”.
*Estagiária sob supervisão de Sanny Bertoldo
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