Ao anunciar a libertação de um ex-fuzileiro naval preso na Rússia durante a semana, o presidente dos EUA, Donald Trump, incluiu na lista de agradecimentos pelo sucesso diplomático — que ressaltou ter sido viabilizado após uma conversa direta dele com o presidente russo, Vladimir Putin — dois nomes que se tornaram quase onipresentes em questões de política externa americana: o enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner, seu genro. Os homens de confiança de Trump, presentes em mesas de negociação críticas para Washington, são as faces mais visíveis de uma reorganização da diplomacia americana que esvaziou o papel do Departamento de Estado na política externa americana, com uma série de consequências em diferentes cenários, incluindo Brasil e Irã.
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Trump reivindicou protagonismo em uma série de ações agressivas de política externa ao longo do último ano e meio. O presidente entrou em guerra com o Irã, autorizou uma ação de captura do líder venezuelano, Nicolás Maduro, com uso de força militar, e lançou uma campanha de bombardeios contra embarcações no Caribe e no Pacífico como parte de uma estratégia de combate às drogas e reinserção do país como potência dominante no Hemisfério Ocidental. A guerra tarifária e a indicação de Daniel Perez como embaixador no Brasil sem o agrément de Brasília também foram apontados por autoridades brasileiras como tentativa de intervenção perto das eleições presidenciais. Em paralelo, esvaziou o Departamento de Estado por meio do fechamento de postos diplomáticos, demissão de centenas de funcionários experientes dos Serviços Exteriores e promoção de apoiadores sem qualquer experiência no ramo — um processo cujos prejuízos vem sendo apontados por observadores atentos à diplomacia americana.
— Quando profissionais que dedicaram suas vidas à capacidade de trabalhar com o elemento diplomático do poder nacional são tirados de campo, a nação perde a capacidade de fazer as coisas de forma pacífica. E, infelizmente, talvez seja isso que estejamos vendo agora — afirmou John Dinkelman, presidente da Associação Americana do Serviço Exterior (AFSA, na sigla em inglês), instituição não-partidária e que representa a categoria profissional, em entrevista exclusiva ao GLOBO, referindo-se às mudanças estruturais realizadas durante o atual governo.
Um monitor mantido pela organização aponta que de 113 indicados pelo presidente para os cargos de embaixador, 93 não são funcionários ativos da carreira diplomática — um percentual de 82,3%, valor superior às indicações políticas de qualquer outra Presidência, desde que se tem registro.
— Qualquer pessoa imparcial consideraria um ato de estupidez dispensar especialistas que conhecem o povo, a cultura, os idiomas e o histórico de relações [com outros países], empurrando-as para o setor privado, onde podem ganhar mais dinheiro — indicou Dinkelman, argumentando que a diplomacia profissional poderia oferecer uma expertise valiosa, independente da linha de política externa traçada em Washington. — [Enquanto] o governo acaba ficando com indivíduos que possuem menos conhecimento e experiência.
Perfil dos nomeados
Editoria de arte
Impacto em negociações
Embaixador do Brasil em Washington entre 1999 e 2004, o diplomata Rubens Barbosa afirmou que há um “rebaixamento da diplomacia” durante o governo Trump, citando a preferência do republicano pela dupla Witkoff-Kushner para liderar negociações complexas. Barbosa aponta que a centralização das definições sobre política externa na Casa Branca aumentou a influência do componente ideológico na atividade diplomática.
— Há uma influência ideológica muito forte nos EUA, incluindo em negociações não conduzidas pelo Departamento de Estado. Esse é um fator adicional que dificulta acordos, como estamos vendo nessas idas e vindas no Irã, em Israel… Não há uma negociação diplomática sólida — disse Barbosa em entrevista ao GLOBO.
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Enquanto o embaixador aponta como exemplos do componente ideológico a escolha de Marco Rubio — um político conservador, com uma trajetória marcada pela oposição a regimes de esquerda na América Latina — para cumular os cargos de secretário de Estado e conselheiro de segurança, indica que a própria dinâmica das negociações recentes das tarifas adicionais dos EUA a setores da economia brasileira ilustra o esvaziamento do Departamento de Estado.
— As negociações comerciais não foram conduzidas pelo Departamento de Estado, foram conduzidas pelo Departamento de Comércio (USTR, na sigla em inglês). Eles mesmo fazem os relatórios e mandam para a Casa Branca — descreveu. — Atualmente, quem decide é a Casa Branca.
O diplomata diz crer que parte das críticas pelo esvaziamento do Departamento de Estado parece ter motivação política, pela agenda de política externa de Trump. Contudo, cita a preocupação de que as mudanças promovidas pelo republicano não sejam transitórias, e que o governo brasileiro pode sofrer caso não encontre um interlocutor com entrada na Casa Branca, para discutir temas de interesse de forma direta com o presidente e seu círculo próximo.
Fim dos meios tradicionais
Estima-se que 1,3 mil funcionários dos serviços exteriores abandonaram os cargos, entre demissões e pedidos de desligamento, em meio a um processo que a Casa Branca se refere como “reestruturação”. Uma redução de pessoal em maio deste ano cortou mais 200 profissionais. Enquanto isso, indicações de Trump priorizam figuras comprometidas não apenas com as linhas de política externa traçadas por ele, mas também por uma rejeição aos métodos tradicionais de diplomacia, segundo especialistas.
A primeira passagem de Trump pela Casa Branca teve um peso decisivo na postura adotada no atual mandato, na avaliação de Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM e doutor em ciência política. O professor cita a desconfiança do presidente com funcionários de carreira, que ao fim do “Trump 1” revelaram ter contido ímpetos do republicano a fim de evitar crises internacionais — o que lhes rendeu o apelido de “adultos na sala”. O resultado teria sido um fechamento por parte do Salão Oval a opiniões vistas como “externas”, independentemente do grau de embasamento.
— Não houve só uma perda de know-how [com a saída de diplomatas experientes]. O know-how disponível não tem sido levado em consideração nas decisões — disse Rudzit, ilustrando com o exemplo do desatar da guerra com o Irã. — Pelo que se sabe até o momento, os diplomatas foram contrários, os militares foram contrários, os serviços de inteligência foram contrários, mas Trump decidiu seguir [o premier de Israel, Benjamin] Netanyahu entrar em guerra.
Dinkelman afirma que para além da saída de profissionais mais experientes, tarimbados no ofício de transmitir discordâncias às autoridades de governo, o ambiente político em Washington tem afetado diretamente o trabalho dos funcionários de carreira que permanecem com acesso às mesas decisórias, em uma espécie de crise de confiança interna.
— Em Washington, qualquer crítica agora é vista como oposição, e qualquer opositor é considerado um inimigo. Isso faz com que o sistema criado para gerar os melhores resultados possíveis fique travado — disse o presidente da AFSA. — O resultado é que apenas alguns poucos indivíduos tomam decisões, normalmente mal fundamentadas, e não recorrem à expertise que têm à disposição.

