Em agosto de 1966, dois técnicos em eletrônica viajaram de Campos dos Goytacazes para Niterói levando dinheiro, compraram capas de chuva e uma garrafa de água e subiram o Morro do Vintém, em Santa Rosa. Três dias depois, em 20 de agosto, Miguel José Viana, de 34 anos, e Manuel Pereira da Cruz, de 32, foram encontrados mortos, lado a lado, sem sinais aparentes de violência, com máscaras de chumbo guardadas no paletó de um deles e um bilhete que mencionava cápsulas, proteção contra metais e um “sinal marcado”. Às vésperas dos 60 anos do episódio, o chamado Mistério das Máscaras de Chumbo continua sem uma explicação definitiva, e uma lembrança familiar de uma testemunha da época acrescenta mais uma peça ao quebra-cabeça.
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Miguel e Manuel haviam deixado Campos no dia 15 de agosto, segundo os registros encontrados pela polícia. Técnicos especializados na instalação de transmissores e repetidores de televisão, disseram a familiares que seguiriam para São Paulo para comprar um carro e equipamentos eletrônicos. Levavam cerca de 2,3 milhões de cruzeiros, valor equivalente a aproximadamente US$ 1 mil à época.
Em Niterói, no dia 17, os dois passaram pela Rodoviária, visitaram o proprietário de uma loja de eletrônicos e compraram capas de chuva. Depois, seguiram para as proximidades do Morro do Vintém. Segundo os relatos reunidos pela polícia, entraram em um bar para comprar uma garrafa de água mineral antes de iniciar a subida.
O que aconteceu depois permanece desconhecido.
No alto do morro, em uma área de mata de difícil acesso, estavam os dois corpos. Ao lado deles havia uma garrafa de água e as duas máscaras de chumbo, objetos que se tornariam o símbolo de um dos casos policiais mais estranhos da história de Niterói. Também foram encontrados bilhetes com números e letras e uma mensagem que dizia:
“16h30m — estar no local determinado. 18h30m — ingerir cápsulas. Após efeito, proteger a metade do rosto com as máscaras de chumbo. Aguardar o sinal marcado.”
A perícia não conseguiu determinar a causa das mortes. Os corpos já estavam em avançado estado de putrefação quando foram localizados, o que dificultou os exames. Anos depois, outro detalhe tornou o caso ainda mais controverso: embora inicialmente se esperasse que o exame toxicológico ajudasse a esclarecer se os homens haviam ingerido alguma substância, as vísceras recolhidas para análise teriam se deteriorado no Instituto Médico Legal de Niterói antes que o exame fosse realizado.
As máscaras de chumbo encontradas com os corpos dos dois técnicos
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Luzes sobre o morro
O dinheiro também alimentou as dúvidas. Parte da quantia levada pelos técnicos desapareceu, embora valores ainda tenham sido encontrados nos bolsos dos mortos, assim como seus relógios. Não havia armas nem ferimentos que indicassem assassinato.
O episódio ganhou contornos mais misteriosos por causa dos relatos de moradores da região. Na noite de 17 de agosto, pessoas disseram ter visto um objeto luminoso sobre o Morro do Vintém, com luzes de cores diferentes. Entre elas estava Gracinda Barbosa Coutinho de Souza, que passava pela região acompanhada dos três filhos.
Seis décadas depois, uma das filhas de Gracinda, hoje com 96 anos, ainda guarda a lembrança daquela noite. Ela não quis se identificar para esta reportagem, por não desejar reabrir o caso na história da família. Gracinda, devido ao estado de saúde, não pôde conversar com o GLOBO.
— Eu lembro muito pouco, mas lembro, mesmo na infância, de ter visto luzes sobre o morro naquela noite. Estávamos passando de carro, e vimos a luz. Minha irmã caçula, que já faleceu, desenhou o disco voador que vimos, e o desenho chegou a ser publicado em jornais da época — contou a filha, moradora de um condomínio de Icaraí.
O relato se soma às notícias publicadas nos dias seguintes à descoberta dos corpos. A possibilidade de que os dois homens tivessem presenciado — ou tentado provocar — algum tipo de contato extraterrestre rapidamente ganhou espaço na imprensa e transformou o caso em um fenômeno da ufologia. Mas essa foi apenas uma das hipóteses.
Terceiro homem
Desde os primeiros dias, os investigadores trabalharam com diferentes possibilidades. O comissário Oscar Nunes, responsável pelo caso na época, chegou a considerar que os dois poderiam estar realizando uma experiência que terminou de forma inesperada. Outra hipótese era a de suicídio decorrente de alguma experiência ou ingestão de substâncias. Também se cogitou assassinato seguido de roubo e até a participação de um terceiro personagem.
Os próprios bilhetes levantavam dúvidas. Uma das mensagens determinava que os homens estivessem no local às 16h30m. Para os investigadores, isso poderia indicar que alguém os havia orientado a chegar ali.
Na época, a polícia investigou a vida pregressa dos dois técnicos e descobriu que eles se interessavam por experiências espirituais e por livros relacionados a contatos extraterrestres.
O caso virou imã de ufólogos. Em 1980, o francês Jacques Vallée, um dos mais conhecidos pesquisadores de fenômenos insólitos, esteve no país para investigar o episódio. Segundo relatos da época, ao visitar o local onde os corpos haviam sido encontrados, Vallée observou uma área em que a vegetação permanecia diferente do entorno, formando uma espécie de contorno dos corpos.
O caso permaneceu em investigação durante anos, mas nunca chegou a uma conclusão capaz de responder às principais perguntas. Acabou arquivado.
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