O primeiro debate entre os candidatos ao governo de Minas Gerais foi marcado por um tom menos belicoso do que o esperado em confrontos diretos com o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), líder das pesquisas, enquanto a situação fiscal do estado deu margem às principais críticas à atual gestão. Candidatos evitaram ataques pessoais ao republicano no primeiro bloco, e as discussões mais duras recaíram sobre a negociação da dívida por Romeu Zema e o atual governador Mateus Simões (PSD), que concorre tentando apresentar como vitrine os feitos dos últimos oito anos.
Participaram do encontro, promovido pela Band neste domingo Cleitinho, Simões , Alexandre Kalil (PDT), Gabriel Azevedo (MDB) e Flávio Roscoe (PL). Patrus Ananias (PT), também convidado, não compareceu.
A corrida eleitoral de Minas foi uma das últimas a ter um cenário definido, marcada principalmente pelas idas e vindas de Cleitinho na intenção de lançar a candidatura.
Cleitinho chegou ao debate atento à possibilidade de se tornar alvo dos adversários. Ele buscou, porém, fazer uma dobradinha com Gabriel Azevedo com o objetivo de mirar na atual gestão.
Gabriel chegou a prestar solidariedade ao senador pela morte recente de seu irmão. Em outro momento, ao discutir a Cemig, companhia de energia do estado, fez uma consideração em tom de alerta, ao dizer.
— Cuidado, Cleitinho, você é um cara do bem, muito cuidado com quem você se cerca.
No segundo bloco, ambos também atacaram as blitzes do governo do estado, hoje governado por Simões.
Segundo a última pesquisa Quaest, do fim de julho, Cleitinho tem 35% das intenções de voto, seguido por Kalil (12%), Patrus (10%), Simões (6%), Gabriel (4%) e Roscoe (2%).
No confronto entre Cleitinho e Kalil, o ex-prefeito de Belo Horizonte concentrou suas cobranças mais em decisões políticas do que em ataques. Ao questionar Cleitinho sobre o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), o ex-prefeito de Belo Horizonte perguntou como o senador havia apoiado a medida se, na avaliação dele, o modelo poderá agravar a situação fiscal de Minas.
— Em cinco anos, se continuarmos dando isenção, o rombo vai ser muito grande. Você aprovou esse Propag, você não leu? — questionou Kalil.
Cleitinho respondeu que havia analisado a proposta e classificou a adesão como um “mal necessário”. O senador afirmou que não considera possível quitar em apenas um mandato uma dívida próxima de R$ 200 bilhões e defendeu uma combinação de renegociação com a União, revisão de contratos e benefícios tributários, combate à sonegação e corte de despesas.
— Qualquer candidato que falar aqui que em quatro anos vai pagar essa dívida vai estar mentindo — afirmou.
O republicano também fez uma crítica ao Zema, hoje candidato à Presidência. Segundo ele, o ex-governador deveria ter priorizado o diálogo com o governo federal sobre a dívida mineira em vez de antecipar uma movimentação nacional durante seu segundo mandato.
— Na reeleição dele (Zema), em vez de se preocupar com essa situação da dívida do estado, ele foi fazer campanha presidencial. Então acabou atacando o governo atual de todas as formas e não foi lá dialogar e conversar. O Propag era o mal necessário — disse Cleitinho.
O senador afirmou que, se eleito, pretende manter diálogo com o próximo presidente independentemente de alinhamento ideológico, discurso que já havia adotado antes do início do debate. Ele defendeu que a relação com a União seja conduzida de forma pragmática para renegociar o passivo estadual.
A dívida também serviu de munição para Gabriel contra a atual administração. O candidato do MDB afirmou que Minas encerrou 2025 com R$ 179,3 bilhões em dívidas reconhecidas e acusou a sequência das gestões Zema e Simões de entregar uma situação fiscal distante do discurso de recuperação das contas estaduais.
— Não dá para dizer que as contas vão bem, que o trem está nos trilhos, sendo que hoje o governo está deixando uma dívida dobrada em relação à que pegou e deixando um déficit muito parecido com o de 2019 — afirmou Gabriel.
Kalil, por sua vez, voltou a criticar o Propag e as renúncias fiscais concedidas no estado. Segundo os cálculos apresentados pelo candidato, Minas poderá transferir cerca de R$ 10 bilhões ao fundo previsto pelo programa ao longo de cinco anos. Ele também afirmou que, mantido o atual volume de benefícios fiscais, o impacto sobre as contas estaduais poderia chegar a R$ 165 bilhões no período. Antes do debate, o ex-prefeito já havia colocado a revisão das isenções no centro de suas críticas à política fiscal mineira.
Outro dos momentos de maior tensão ocorreu entre Gabriel e Kalil. Ao questionar o ex-prefeito sobre políticas para trabalhadores de aplicativos, o candidato do MDB afirmou ter lido os planos de governo de todos os concorrentes e destacou que o documento apresentado por Kalil tinha mais de 150 páginas. A resposta veio de imediato.
— Que bom que você leu, porque eu não li, não. Eu li o resumo só. Porque eu estou estudando o Estado com muito cuidado e estou debatendo pessoalmente — afirmou Kalil.
Gabriel explorou a declaração na réplica e disse que havia participado da elaboração de seu próprio programa e não assinaria um documento sem conhecê-lo.
— No nosso plano de governo, sim, que eu li, porque eu não assino sem ler, porque eu escrevi, porque eu estrou há um ano rodando o Estado, sim, conversando com as pessoas, eu converso com motoristas, com gente que entrega comida na casa das pessoas — rebateu.
A discussão escalou depois de Kalil dizer que Gabriel adota um “ar professoral”. O emedebista pediu que o adversário “respeitasse quem é professor” e também criticou o temperamento do ex-prefeito. Na tréplica, Kalil negou que tivesse atacado a profissão e voltou a fazer críticas pessoais a Gabriel.

