Conversas “descompromissadas” com diferentes mulheres pelo Instagram e curtidas insistentes do então marido em fotos na rede social ligaram o alerta da arquiteta Lara Sarmento, de 55 anos. “Ele conversava e tinha na agenda o contato de várias ex. Um dia, mexi em seu celular, que era desbloqueado, e vi mensagens, emojis de coração e elogios vindos de uma mulher aleatória. Quando o questionei, apenas disse que respondia porque não gostava de ser mal-educado”, relembra Lara. Embora a vida do ex-marido fosse, como diz a arquiteta, “apenas da casa para o trabalho”, o comportamento no mundo digital era questionável. “Conforme eu o confrontava cada vez mais, pedindo para que cortasse esses contatos, ele passou a dizer que a culpa era minha, por ser muito ciumenta”, conta a arquiteta.
Infeliz com a dinâmica, Lara decidiu terminar, recentemente, o casamento de sete anos. “Três dias depois, ele já estava com outra. Entendi, depois disso, que meu ex-marido sempre precisou de validação de outras pessoas, gostava de ter esse ‘harém’ para massagear o ego e também era muito controlador.” Ainda assim, separar-se, diz, não foi fácil. “O processo de luto não é linear, mas é um dia de cada vez. Estou me recuperando fazendo terapia, atividade física e saindo com amigas.”
Parte do que Lara viveu popularizou-se na internet como microtraição. O termo, do inglês micro-cheating, foi criado pela psicóloga australiana Melanie Schilling, em 2018, mas tornou-se temas de debates mais intensos em tempos de relações guiadas — e nascidas — no universo digital. Segundo a especialista, referem-se a qualquer ação que não envolva um romance explícito, como curtidas em postagens, flertes, esconder conversas e apagar mensagens para que o parceiro não veja, ou manter contato frequente com ex-companheiros.
Para a psicóloga e sexóloga Thereza Estite, do Rio, o problema crucial dos casais é a falta de diálogo e acordos sobre o que é considerado traição ou não. “Muitos só vão falar sobre limites quando chegam à terapia de casal. O que é traição para um pode não ser para o outro. Percebo, na rotina clínica, que com a tecnologia, as investidas nesse sentido se tornaram mais frequentes.” Thereza ainda ressalta que comportamentos associados a microtraição vêm majoritariamente dos homens, estimulados pelo conteúdo visual das redes. “Se antes era um estímulo que vinha dos vídeos pornográficos, hoje eles foram potencializados pelas redes. O flerte está mais acessível.”
O casamento do influenciador paulistano Thiago (o nome foi trocado a pedido do entrevistado), de 34 anos, também não resistiu às pequenas microtraições e a tantas ofertas on-line. Seguido por mais de 300 mil pessoas, costuma mostrar detalhes da rotina, que incluíam o ex. “Fomos a um show no ano passado, encontramos uns conhecidos, e tiramos uma foto. O amigo de um deles começou a curtir tudo do meu ex. Mas esse garoto já sabia que namorávamos, porque me seguia.” Embora tenha estranhado a movimentação e a quantidade de interações no perfil do marido, não desconfiou que algo estivesse acontecendo. “Tudo estava bem, havia altos e baixos como em todo relacionamento, a vida a dois acontecia normalmente. Por isso, o término, para mim, veio de forma abrupta. Ele disse que não queria mais.” Meses depois, descobriu que o ex estava namorando o tal rapaz.
Mas nem todo comportamento enquadrado como microtraição representa, necessariamente, uma ameaça concreta. Embora o assunto e suas camadas tenham as redes sociais como palco, a psicanalista e especialista em relacionamento Carol Tilkian faz uma ponderação a quem tenta demonizá-las. Em 2025, ao conduzir a pesquisa “Raio-x da vida afetiva”, descobriu que o maior medo dos brasileiros é não ser suficiente para o outro e se machucar novamente. “E a maior violência percebida é o tratamento de silêncio e a presença ausente. Seu companheiro está ao seu lado, mas não sai do celular. Então, a pessoa imagina: ‘Será que ele está flertando com alguém?’”
Para Carol, isso, a princípio, nada mais é do que usar a tecnologia como mais uma ferramenta de controle do outro. Parte da vivacidade do vínculo amoroso, afirma ela, tem a ver com o mistério e em lidar com questões do mundo do outro que não nos dizem respeito. “A gente precisa parar de idealizar que o amor significa não desejar mais ninguém. A pessoa flertar não significa que vai fazer algo. É importante sair da lógica do é ou não é traição, e falar como você se sente, abrir o jogo, em vez de patologizar o desejo.”
No fim, o que sustenta a relação não cabe em uma tela.

