Drones usados por criminosos para lançar explosivos em disputas territoriais entre facções passaram a aterrorizar moradores de favelas do Rio. Reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo, neste domingo, revelou ataques com bombas improvisadas contra veículos e imóveis e registrou um episódio em que uma festa infantil foi atingida. Duas crianças e um homem ficaram feridos. Em outro ataque, um morador foi atingido por estilhaços na perna.
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Uma das imagens obtidas pela polícia e exibidas pelo programa mostra um drone lançando uma bomba contra um carro onde estariam integrantes de um grupo rival. Após a explosão, dois homens correm. Um deles passa por trás do veículo e outro é atingido. Imagens feitas por moradores mostram ferimentos na perna da vítima e marcas de estilhaços na lateral do carro.
— A gente vive com muito medo mesmo dentro do nosso quintal, mesmo dentro de casa — disse uma moradora.
Os explosivos são uma espécie de granada improvisada, feita com tubos de PVC recheados com cacos de vidro, parafusos e pólvora. A polícia mostrou os artefatos à equipe do Fantástico e fez uma explosão controlada para demonstrar seu poder de destruição.
Em uma casa, uma bomba atingiu o telhado e destruiu parte da cozinha e de um quarto. Em outra favela, a explosão aconteceu sobre uma árvore no quintal e provocou danos menores.
— Aí, tão falando que foi o drone. Na verdade toda hora tá tendo essas explosões aqui na área. E agora o cálculo tá ficando errado, tá caindo na conta do morador, pô. Minha filha fica andando de bicicleta aqui também. Pô, a gente é morador, tem nada a ver nessa guerra não, pô — disse um morador.
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Um homem atingido por um dos ataques, que não teve o rosto mostrado por medo dos traficantes, contou que ouviu o barulho das hélices antes da explosão.
— E quando falaram: “Olha o drone, olha o drone”, eu só ouvia esse barulho da hélice e um barulhão, um clarão e todo mundo gritando. (…) Acertou minha perna, o estilhaço acertou minha perna.
Crianças ficam feridas em festa
Em outro episódio, um explosivo lançado por drone atingiu uma festa de rua. Duas crianças e um homem ficaram feridos. Segundo relatos exibidos pelo Fantástico, a granada tinha pregos e atingiu também um funcionário que ajudava na limpeza. O ataque ocorreu em meio à disputa territorial entre grupos criminosos. Em outra favela, uma bomba caiu a poucos metros de um morador que estava perto de uma Kombi.
Criminosos também se protegem dos drones
A disputa pelo uso dos equipamentos ocorre nos dois sentidos: enquanto facções utilizam drones para atacar, criminosos também passaram a adotar equipamentos para detectá-los e neutralizá-los. Durante quase dois meses, o Fantástico acompanhou a movimentação em comunidades dominadas por grupos criminosos e registrou estruturas instaladas para tentar proteger ruas dos explosivos lançados pelo alto.
Segundo Marcos Mota, delegado de polícia e coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (Coant), os telhados instalados em algumas comunidades têm como principal objetivo impedir os ataques.
— O emprego principal desses telhados que vêm sendo colocados em algumas comunidades é pra evitar o lançamento de artefatos explosivos por facções rivais. Mas, obviamente, isso traz um prejuízo muito grande para o monitoramento feito pela polícia, por exemplo — afirmou.
A reportagem também registrou dois homens utilizando equipamentos antidrones. Um deles era capaz de detectar a presença dos aparelhos na região. O outro utilizava uma “bazuca antidrone”, que interfere na comunicação e na navegação do equipamento.
Durante a gravação, a interferência fez a equipe do programa perder o controle do drone. O sistema de segurança acionou o retorno automático do aparelho ao ponto de partida.
— Parece uma arma, parece um fuzil, ou seja, aquilo ali é um bloqueador direcional. A pessoa vai apontar aquilo ali na direção da aeronave para tentar cortar o enlace da aeronave com o controle — explicou Mota.
Polícia prende dois operadores
Nesta semana, policiais conseguiram localizar dois homens que, segundo a polícia, operavam drones usados para lançar explosivos em comunidades dominadas por grupos rivais. Após um ataque a um blindado da PM, os agentes seguiram o voo do equipamento até uma cobertura no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste do Rio. O imóvel havia sido alugado por temporada. Os dois homens foram presos.
Segundo investigadores, os suspeitos também bombardearam uma pequena lanchonete em uma comunidade a dois quilômetros do local. O estabelecimento ficou com um buraco no telhado. Não houve feridos.
Drones também acompanham ataques
O uso de drones por criminosos não se limita ao lançamento de explosivos. Os equipamentos também são utilizados para vigiar grupos rivais e acompanhar ataques terrestres.
Imagens apreendidas pela polícia e exibidas pelo Fantástico mostram um drone acompanhando uma ação em Novo Palmares, na Zona Oeste. Criminosos cercam um carro e atacam um grupo rival. Um dos integrantes é executado.
Em Manguariba, também na Zona Oeste, um drone acompanha uma invasão territorial. Durante a fuga, criminosos atropelaram e mataram uma moradora.
Registros de drones com explosivos aumentam
Dados do Disque-Denúncia mostram o crescimento dos registros envolvendo drones equipados com explosivos. O primeiro relato ocorreu em 2023. Em 2024, foram quatro.
No ano passado, foram 73 denúncias envolvendo traficantes e 14 relacionadas a milicianos que também lançam granadas e outros explosivos usando drones.
O Fantástico já havia mostrado, em março de 2025, a facilidade com que traficantes importavam drones e equipamentos antidrones. Uma investigação conjunta do Ministério Público Federal e da Polícia Civil encontrou quatro recibos de liberação alfandegária no telefone de um armeiro do tráfico. Os documentos indicavam o transporte de produtos de Hong Kong, na China, para uma casa em Nova Iguaçu.
Risco chega ao espaço aéreo
O avanço dos drones usados por criminosos também preocupa pelo risco de interferência no tráfego aéreo. No Rio, onde há intenso movimento de helicópteros, equipamentos sem autorização podem cruzar rotas de aeronaves.
Um piloto ouvido pelo Fantástico, que pediu para não ser identificado, relatou aumento nos registros de encontros entre drones e aeronaves nos últimos meses.
— A gente tem visto e escutado mais reportes sobre esses momentos de encontro do piloto com drones. Esses drones têm mantido esses sobrevoos de forma cada vez mais frequente, cada vez tendo uma proximidade maior de outras aeronaves e das rotas em que essas aeronaves voam — afirmou.
Procurado pelo programa, o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) informou que realiza a gestão do espaço aéreo brasileiro com foco na segurança e na regularidade da navegação. O órgão afirmou que, por se tratar de fatos que podem envolver investigação criminal, informações ou providências devem ser solicitadas às autoridades de segurança pública.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou que a segurança das rotas utilizadas por drones perto de aeroportos envolve articulação com a Polícia Federal e o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
A Secretaria de Segurança Pública do Rio reconheceu os riscos do uso de drones por organizações criminosas e informou que o governo federal vai destinar drones e equipamentos antidrones para reforçar o trabalho policial. A pasta também criou uma divisão especializada para combater esse tipo de crime.
— É uma realidade que se impôs e nós não podemos fechar os olhos, a gente tem que compreender o fenômeno e tentar antecipar o que vai vir no futuro — afirmou Marcos Mota.
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