A mineira Maria Luiza Pereira de Souza perdeu a irmã e uma filha no acidente de ônibus que, na madrugada de domingo, na altura de Petrópolis, resultou em dez mortes. Durante a viagem de Belo Horizonte ao Rio, ela conta que notou algo errado e, mais de uma vez, tentou alertar sobre o perigo.
O depoimento
“Estava balançando demais, demais. O guia falou: ‘Ah, é normal, vocês nunca viajaram num ônibus de dois andares’. Todo mundo pedia: ‘Calma, motorista, não precisa correr tanto assim. Nós vamos chegar ao Rio.’ Cochilei e, quando acordei, estávamos entrando na serra. O ônibus parecia que estava perdendo o freio, fazia uns barulhos, e pulava.
Chamei minha irmã, falei: “Priscila, você está escutando isso?’ Ela me mandou dormir, disse que eu estava falando demais. Aí eu falei: “Eu não vou dormir, porque eu estou pressentindo alguma coisa”. Peguei meu bebê e comecei a orar. Na descida da serra, ele seguiu acelerando, acelerando. Pela janela vi que o ônibus fazia um zigue-zague, tombava para um lado, para o outro, cheguei a achar que estava tirando faísca da pista. Em uma guinada para a direita, o ônibus quicou, o motorista perdeu o controle e a gente caiu.
Foi um desespero. Todo mundo gritando. Eu achei que a minha bebezinha estava morta, mas ela tinha perdido o fôlego. Meu filho me chamando e eu gritando pela minha filha: ‘Lavínia, Lavínia’. Antes do acidente, ela tinha gritado: ‘Mãe, me ajuda, eu estou com medo.’ Eu falei: ‘Abraça sua tia, não tem como te pegar não, Lavínia.’ Por isso elas morreram abraçadas.
No resgate, eu perguntava o tempo todo pela minha filha. Disse para um bombeiro como ela estava: de coque, blusa amarela, calça azul cheia de florzinha. Ele disse que tinham corrido com ela para o hospital. No domingo, por volta das 9h, descobri que perdi minha filha por negligência do motorista, a quem nós pedimos tanto pra não correr. Perdi minha filha, perdi minha irmã, perdi mais duas amigas.
E eu tinha levado minha menina para ver a praia pela primeira vez. Não queria ir, morro de medo, mas minha irmã insistiu. Pagamos R$ 200 por pessoa. Lavínia tinha 7 anos, o Ícaro tem 10, a Maia, 4, e a Maitê, 1 aninho. A Maitê recebeu alta no domingo, junto com o Ícaro, mas a Maia ainda ficou internada, com a cara muito inchada”.
* Em depoimento a Bruna Bittar, aluna do curso Jornalismo do Futuro do GLOBO, sob supervisão de Sanny Bertoldo

