Alemanha, França, Itália e Reino Unido intensificaram nesta quinta-feira a crescente condenação internacional a um projeto de assentamentos na Cisjordânia ocupada, depois que as autoridades israelenses abriram licitação para mais de 1.200 casas na região. A expansão dos assentamentos no território vem gerando crescente tensão há semanas, marcada por ações violentas por parte dos colonos. Após cerco de colonos a uma aldeia na semana passada, o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, condenou tentativas de apropriação da terra de palestinos-americanos e a descreveu tal comportamento como “uma violação da lei de Deus”.
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O documento assinado pelos quatro países insta Israel a “retirar imediatamente esses planos e pôr fim à expansão de seus assentamentos na Cisjordânia”. “O direito internacional estabelece claramente que os assentamentos israelenses na Cisjordânia são ilegais”, afirma a declaração conjunta. “Num momento de grave instabilidade na Cisjordânia, com níveis sem precedentes de violência de colonos contra civis e sérias restrições à economia palestina, esta decisão é ainda mais preocupante.”
Os assentamentos “nos afastarão ainda mais da paz” e também “minarão ainda mais a posição internacional de Israel”, finaliza o documento.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que o plano representa uma “ameaça existencial” à continuidade territorial de um Estado palestino.
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Já o ministro das Relações Exteriores belga, Maxime Prévot, classificou as licitações como “inaceitáveis” e afirmou que o projeto “prejudicaria seriamente a viabilidade da solução de dois Estados”.
Sua condenação ecoou uma declaração feita na quarta-feira pelo principal diplomata britânico, Ed Miliband, exigindo o fim do projeto e da expansão dos assentamentos, o que levou Londres a convocar o encarregado de negócios de Israel.
Seu homólogo israelense, Gideon Saar, reagiu: “O povo judeu tem o direito de viver em toda a Terra de Israel, assim como os britânicos têm o direito de viver em Londres e em todo o Reino Unido”, escreveu ele no X. Ele também acusou o Reino Unido de “culpar apenas Israel, ignorando o extremismo palestino”, o qual, segundo ele, estaria alimentando ataques antissemitas contra a comunidade judaica britânica.
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Embora os assentamentos sejam considerados ilegais segundo o direito internacional, o governo israelense promoveu sua rápida expansão nos últimos tempos. Em agosto do ano passado, Israel aprovou os planos para o terreno de aproximadamente 12 quilômetros quadrados conhecido como E1, localizado a leste de Jerusalém.
O plano prevê a construção de aproximadamente 3.400 casas em uma faixa de terra entre Jerusalém e o assentamento israelense de Ma’ale Adumim. A licitação mais recente abrange mais de 1.200 unidades habitacionais, de acordo com a ONG israelense Paz Agora.
‘Violação da lei de Deus’
Diante da expansão dos assentamentos e da crescente violência por parte dos colonos no território ocupado por Israel desde 1967, o governo israelense teve que enviar tropas à aldeia de Qusra, na Cisjordânia, para remover grupos que estavam sitiando as casas de famílias palestinas na última semana, incluindo uma pertencente a um palestino-americano. Os colonos teriam sido removidos pelo Exército de Israel na semana passada, depois de forte pressão americana. Horas depois, no entanto, alguns teriam retornado.
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Huckabee, embora seja um defensor ferrenho dos assentamentos como um todo, chegou a classificar anteriormente o cerco como um “ato de terrorismo” por parte de uma “minoria”. Em nova declaração, citando os dez mandamentos da Igreja Católica, Huckabee disse “não roubarás” e que as pessoas não devem tomar nem “cobiçar” o que pertence aos outros.
— Se alguém é dono da terra e da casa, e alguém chega e toma posse dela, expulsando a família apavorada, isso é uma violação, não apenas da lei humana, mas também da lei de Deus — disse à agência Reuters o ex-governador republicano do estado americano do Arkansas.
Soldados israelenses patrulham rua durante operação na vila de Qusra, na Cisjordânia ocupada, em 13 de agosto de 2026
ZAIN JAAFAR / AFP
Ao ser perguntado sobre qual mensagem o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tinha para os colonos que consideram tomar propriedades pertencentes a palestino-americanos, Huckabee referiu-se às escrituras judaicas e cristãs:
— Acho que a mensagem vai além da administração Trump. É uma mensagem de civilidade básica e comportamento civilizado. Você não pega algo que não lhe pertence.
O embaixador afirmou ainda que os envolvidos poderão ser punidos com sanções dos EUA, como a proibição de entrada no país.
A polícia israelense, por sua vez, não anunciou nenhuma prisão ou acusação contra qualquer colono supostamente envolvido no cerco. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, também não comentou sobre o caso.
Horas depois, segundo o jornal israelense Haaretz, um assentamento foi restabelecido no norte do território, 21 anos depois de ter sido desmantelado como parte da retirada de Israel de Gaza e de partes do norte da Cisjordânia em 2005. Participaram da cerimônia de reinauguração membros importantes do governo Netanyahu.
Violência em alta
A violência contra palestinos cometida por colonos israelenses na Cisjordânia aumentou drasticamente desde o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, a partir da Faixa de Gaza. Mais de 500 mil israelenses vivem em assentamentos na Cisjordânia, entre cerca de 3 milhões de palestinos que vivem no território.
Um homem palestino prepara-se para rezar em uma mesquita incendiada por colonos israelenses na aldeia de Qusra, ao sul de Nablus, na Cisjordânia
John Wessels / AFP
Nesta quinta-feira, seis pessoas ficaram feridas em ataques violentos de colonos israelenses na aldeia palestina de al-Mughayyir, perto de Ramallah, informou o Crescente Vermelho Palestino.
Desde janeiro de 2023, 127 comunidades palestinas na Cisjordânia sofreram deslocamento total ou parcial, incluindo 47 que foram completamente deslocadas, afetando mais de 6.390 palestinos, segundo a ONU. A organização registrou que, em 2026, cerca de 3,8 mil palestinos, quase metade deles menores, foram deslocados devido à violência de colonos, demolições e despejos.
Com agências internacionais.

