Um abalo sísmico de magnitude 7,2 abalou o sul do Peru nesta quinta-feira, dez dias depois que um terremoto de 7,4 atingiu o oeste da Colômbia. A proximidade temporal — e o fato de ambos os países compartilharem a mesma placa tectônica — reabriu uma pergunta que já havia sido colocada após o primeiro terremoto: podem dois abalos ocorridos a milhares de quilômetros de distância estar conectados entre si?
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O movimento desta quinta-feira no Peru, segundo o Instituto Geofísico do Peru (IGP), teve seu epicentro 35 quilômetros ao norte de Coracora, na província de Parinacochas, região de Ayacucho, e uma profundidade de 108 quilômetros. Foi sentido em Arequipa, Ica, Cusco, Apurímac e até nos andares altos de alguns edifícios de Lima. O registro ocorreu às 13h (horário local) e, até o momento, não foram relatadas vítimas fatais, embora tenham ocorrido deslizamentos de terra em zonas rurais próximas ao epicentro.
O chefe do IGP, Hernando Tavera, assinalou que “por enquanto não ocorreu nada crítico”, enquanto continuam os trabalhos de avaliação nas zonas mais afetadas pelo movimento.
Dois processos, uma mesma faixa tectônica
O terremoto da Colômbia, ocorrido em 10 de agosto, teve epicentro em San José del Palmar e uma profundidade próxima aos 100 quilômetros. O Serviço Geológico Colombiano (SGC) classificou-o como o mais intenso registrado no país neste século. Segundo a entidade, originou-se pela subducção da placa de Nazca sob a Sul-Americana, o mesmo processo que explica boa parte da sismicidade do oeste colombiano.
Acontece que essa mesma placa percorre boa parte da costa ocidental da América do Sul. Foi o que explicou o sismólogo colombiano Darío Rivera Vargas, que precisou que “a placa de Nazca abrange o que é o Chile, Peru, Colômbia”, ou seja, todos os países localizados sobre esse trecho do Pacífico.
Essa faixa corresponde, precisamente, ao Círculo de Fogo do Pacífico, uma região que atravessa cerca de 30 países — entre eles Colômbia e Peru — e que concentra cerca de 90% da atividade sísmica mundial. Ali interagem várias placas oceânicas que afundam de maneira constante sob o continente, liberando energia na forma de abalos sísmicos e, em alguns casos, erupções vulcânicas.
Compartilham placa, mas estão relacionados?
Compartilhar o cinturão e a placa não equivale a dizer que dois terremotos respondam à mesma causa. Esse foi o argumento exposto por vários geólogos consultados após um episódio semelhante ocorrido há poucas semanas, quando a Venezuela e a Colômbia registraram sismos de grande magnitude com apenas seis semanas de diferença.
O geólogo argentino Andrés Folguera, professor da Universidade de Buenos Aires e pesquisador do Conicet, explicou naquele momento que os mecanismos de ruptura de cada sismo dependem da placa envolvida, da profundidade do sismo e do tipo de falha ativada, variáveis que costumam ser distintas até mesmo entre países vizinhos.
Sobre a possibilidade de que eventos sísmicos distantes estejam conectados, Folguera foi enfático: trata-se de um assunto que apenas começa a ser estudado academicamente e que provavelmente será objeto de pesquisas nos próximos meses, embora sua hipótese pessoal seja a de que não existe relação direta entre eles.
A geóloga colombiana Adriana Ocampo, que trabalhou durante várias décadas na Nasa, concordou com esse diagnóstico ao ser consultada por este jornal após o terremoto da Colômbia: a atividade sísmica registrada este ano em países como Colômbia, Venezuela e México responde à dinâmica tectônica própria de cada região, não a um fenômeno anômalo nem a uma cadeia de causa e efeito entre eventos distantes.
O que explica a coincidência
O que, de fato, pode explicar a percepção de que “tudo treme ao mesmo tempo” é a frequência natural da atividade sísmica no cinturão. O Peru, por exemplo, registra entre dois e três movimentos telúricos por dia, segundo o IGP, e já acumula 569 sismos no decorrer de 2026. A Colômbia, por sua vez, apresenta em média 2.500 eventos sísmicos mensais, a maioria imperceptíveis para a população, de acordo com o SGC.
Nesse contexto, que dois abalos sísmicos de grande magnitude ocorram com dias ou semanas de diferença em diferentes pontos do mesmo cinturão não constitui uma anomalia estatística, mas uma expressão a mais do comportamento habitual de uma das zonas mais ativas do planeta.
Como lembrou Folguera, a ciência ainda não tem a última palavra sobre se existem vínculos de longo alcance entre sismos separados por milhares de quilômetros. Mas, por enquanto, a evidência disponível aponta em uma única direção: cada terremoto responde à sua própria história geológica.

