A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está organizando um ato voltado ao público feminino para o fim deste mês em Minas Gerais, de olho no voto das mulheres na eleição em outubro. A ideia, de acordo com relatos de integrantes da equipe da campanha, é usar a atividade para fazer acenos às mulheres e apresentar pautas defendidas pelo petista, mas também desgastar Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal adversário na disputa, junto a esse segmento.
Pesquisa Quaest divulgada no último dia 14 mostrou Lula com 39% dos votos das mulheres, ante 28% de Flávio. A avaliação de aliados do presidente é que é possível aumentar a intenção de votos nesse segmento e, para isso, falam em desgastar a imagem do senador entre as mulheres.
O ato, batizado de Grande Encontro Nacional de Mulheres com Lula, está previsto para ocorrer num espaço de eventos no dia 29 de agosto, em Belo Horizonte. Será o segundo evento do petista no estado, já que ele participa de agenda nesta sexta em Minas ao lado do candidato do PT ao governo estadual, Patrus Ananias.
Minas Gerais é o segundo maior colégio eleitoral do país e importante para as campanhas eleitorais, já que, historicamente, o candidato que vence no estado leva a Presidência da República. Na chapa que Lula apoia há duas mulheres: Marília Campos (PT) e Áurea Carolina (PSOL), que buscam vagas ao Senado.
Um interlocutor de Lula que acompanha a organização da atividade diz que a expectativa é atrair cerca de 6.000 mulheres, entre candidatas, lideranças e apoiadores de todas as partes do país. Ele afirma ainda que é importante que um ato desse tipo ocorra logo no primeiro mês de campanha, para mostrar que Lula valoriza o eleitorado feminino. No ato, será entregue uma carta compromisso a Lula que está sendo elaborada por lideranças dos partidos que integram a coligação e representantes de movimentos sociais.
O evento está sendo organizado pela secretária nacional de Mulheres do PT, Mazé Morais. A primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja, também está colaborando com o processo e deverá acompanhar a agenda.
Ao GLOBO Mazé diz que no ato serão abordadas pautas consideradas estruturais para as mulheres, como o enfrentamento da violência e do feminicídio, a política de cuidados como um “eixo organizador do desenvolvimento econômico”, além da pauta pelo fim da jornada de trabalho 6×1. Ela afirma que a aproximação com as mulheres na base se dá por meio do diálogo.
— Política se faz no chão que a gente pisa. Estamos, de forma organizada, em comitês populares e de mães, nos aproximando das mulheres e construindo uma grande mobilização para reeleger o presidente Lula e uma bancada que nos represente nos espaços legislativos— diz a secretária do PT.
Segundo Mazé Morais, o PT tem 7 mulheres disputando uma vaga ao Senado, 136 candidatas a deputada federal e 243 buscando cadeiras em assembleias legislativas pelo país. Ela diz que a expectativa do partido é que a sigla aumente a bancada de mulheres nesses espaços.
Comparação de governos
Um integrante da coordenação de Lula diz que a ideia é explorar falas de Flávio Bolsonaro e de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), sobre as mulheres. Ele diz que isso poderá ser usado em peças da campanha, por exemplo. E cita declaração do influenciador Paulo Figueiredo, aliado de Flávio, de que “mulher vota muito mal”. Outra linha adotada será comparar as políticas públicas e iniciativas do governo federal voltada às mulheres implementadas sob a gestão petista e sob o governo Bolsonaro.
Mazé Morais afirma ainda que essa comparação das gestões mostra um “contraste muito evidente” com a candidatura de Flávio, “que nunca assumiu compromissos com esse segmento e cuja atuação política do seu entorno e de seus aliados deixa explícito o desprezo e o desrespeito às mulheres, o discurso de ódio e sucessivas violências, inclusive com pregações para que seja retirado das mulheres o direito ao voto”.
O ato do dia 29 também ocorre após a campanha ter sido criticada pela ausência de discursos de mulheres na convenção nacional do PT que oficializou a candidatura de Lula. O próprio petista se queixou sobre isso e, em ato no último domingo que lançou o presidente na disputa, mulheres foram escaladas para falar.
O evento também servirá para pressionar lideranças do Congresso Nacional a votar o projeto de lei que criminaliza atos de misoginia, que está parado na Câmara, e para dar andamento à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da 6×1. A ideia é aproveitar o timing do ato, às vésperas da segunda semana de esforço concentrado no Legislativo, com sessões de votação.
Lula também quer usar o combate ao feminicídio como bandeira eleitoral, mas há desafios como o recorde de casos de violência contra as mulheres. Além de incorporar em suas falas a defesa das mulheres e responsabilizar os homens, o presidente também atuou para a criação de um pacto nacional contra o feminicídio, incluindo os Poderes Legislativo e Judiciário.
Aliados de Lula reconhecem, no entanto, que é preciso buscar o voto da mulher evangélica, que hoje apresenta maior resistência ao petista. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, diz que essa aproximação é um desafio, mas fala que o movimento de aproximação com as evangélicas acontece há um tempo, não só às vésperas da eleição.
— Tem muita notícia falsa (que afastam mulheres evangélicas de Lula), essa é a pior chaga que temos hoje. Gostaríamos que a campanha não fosse de mentiras, mas de debate de ideias, de projetos e compromissos— afirma.
O combate à violência de gênero aparece no programa de governo da chapa Lula-Geraldo Alckmin protocolado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Num trecho, diz que enquanto as mulheres “continuarem sendo discriminadas e vítimas de violência, o Brasil não será o país que seremos”.
“É preciso ampliar as políticas de proteção às mulheres, combater o machismo, o sexismo e o feminicídio, promover a autonomia econômica, assegurar igualdade de oportunidades e garantir os direitos sexuais e reprodutivos”, diz trecho do documento.
O programa ressalta que o pacto contra o feminicídio será “guia central” da estratégia de enfrentamento à violência contra as mulheres.
“Seguiremos fomentando a capacitação das forças de segurança para qualificar o atendimento às mulheres vítimas de violência e a punição aos que infligirem a violência. Queremos também, no próximo mandato, avançar, junto com a sociedade, em medidas que mudem e ampliem, cultural e estruturalmente, o respeito às meninas e mulheres”, diz o documento.
Além do ato voltado às mulheres, a campanha também está organizando uma atividade voltada ao público evangélico, no Rio de Janeiro, e outras focadas na juventude e no meio cultural.

