
Ratko Mladić, ex-chefe militar dos sérvios da Bósnia condenado por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra, morreu nesta quinta-feira, aos 84 anos, enquanto cumpria prisão perpétua em Haia. Conhecido como o “Açougueiro da Bósnia”, Mladić foi responsabilizado pelo massacre de Srebrenica, em 1995, no qual mais de 8 mil homens e meninos muçulmanos bósnios foram mortos — considerado o pior massacre cometido na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
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Segundo uma nota do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII) , ele morreu em um hospital de Haia nas primeiras horas do dia.
“Mladic faleceu hoje enquanto estava internado em Haia”, informou a nota, acrescentando que a juíza uruguaia Graciela Gatti Santana ordenou “uma investigação exaustiva sobre as circunstâncias” de sua morte.
Mladic foi capturado em 26 de maio de 2011 na vila de Lazarevo, perto de Zrenjanin, no norte da Sérvia, após passar quase 16 anos foragido, encerrando uma das mais longas buscas da História moderna. Sua condenação em 2017 por um tribunal internacional por genocídio, crimes contra a Humanidade e crimes de guerra marcou o fim de um capítulo sombrio e sangrento.
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Ao proferir a sentença de prisão perpétua, o juiz presidente, Alphons Orie, afirmou que os crimes de Mladic estavam “entre os mais hediondos já conhecidos pela Humanidade”. Mladic recorreu da sentença, que foi mantida em 2021.
As guerras dos Balcãs eclodiram quando a Iugoslávia estava se fragmentando em Estados independentes. Slobodan Milosevic, o presidente nacionalista da Sérvia — um desses Estados —, estava decidido a criar uma Grande Sérvia. Ele reacendeu antigas inimizades étnicas e religiosas e desencadeou guerras que colocaram os sérvios em oposição a eslovenos, croatas, bósnios e albaneses do Kosovo.
Cerca de 100 mil pessoas morreram durante o conflito, e mais de 2,5 milhões foram deslocadas.
Um homem de rosto corado e aparência intimidadora, com voz retumbante, olhos azuis penetrantes e um senso de grandeza exagerado, Mladic, oficial do Exército Popular da Iugoslávia, liderou o Exército dos sérvios da Bósnia no início da década de 1990.
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Na véspera do massacre de Srebrenica, ele prometeu vingar a conquista da Sérvia pelos turcos muçulmanos otomanos, ocorrida séculos antes. Ao longo de 10 dias, seus soldados perseguiram, capturaram e executaram sumariamente milhares de bósnios, alinhando-os com as mãos amarradas atrás das costas e os executando a tiros. Mulheres foram estupradas. Os apelos internacionais para que se agisse com moderação foram ignorados.
As forças sérvias enterraram os restos mortais, os desenterraram novamente e os espalharam em valas comuns distantes, em um esforço organizado para ocultar provas contundentes de crimes de guerra.
O corpo de uma vítima do massacre de Srebrenica, o pior assassinato em massa por motivos étnicos no continente desde a Segunda Guerra Mundial
Andrew Testa/The New York Times
Para a ex-Iugoslávia, o julgamento de Mladic foi um dos últimos de grande repercussão no Tribunal Penal Internacional de Haia. O tribunal julgou quase 100 dos responsáveis pelas atrocidades cometidas nas guerras dos Balcãs, incluindo o chefe de Mladic, Radovan Karadzic, líder político dos sérvios da Bósnia.
Preso em 2008, Karadzic foi condenado em 2016 por acusações quase idênticas às de Mladic, e sua pena foi alterada para prisão perpétua três anos após a condenação inicial.
A prisão de Mladic foi um momento decisivo no longo esforço da Sérvia para se livrar do status de nação marginalizada. Ela removeu um grande obstáculo à adesão do país à União Europeia — ainda pendente —, que já estava cansada da recusa de sucessivos governos sérvios em capturá-lo.
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Quando Mladic finalmente foi localizado, estava escondido na casa de um primo e estava tão desesperado por dinheiro que uma de suas exigências constantes era o restabelecimento de sua pensão militar, que estava congelada.
Além de ter arquitetado o massacre de Srebrenica, Mladic também foi condenado por diversos crimes relacionados ao cerco de quase quatro anos a Sarajevo, capital da Bósnia, no qual morreram 10 mil pessoas, incluindo 1.500 crianças.
Durante o cerco, o mais longo da História da guerra moderna, os homens de Mladic bombardearam a cidade a partir das montanhas ao redor e aterrorizaram os civis com tiros de franco-atiradores. Os juízes também o consideraram culpado pela perseguição e extermínio de não-sérvios que viviam em vastas regiões da Bósnia.
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Na Sérvia, a proeza militar de Mladic era lendária. Ljiljana Bulatovic, autora de uma biografia sobre ele, afirmou que ele continuava sendo um herói para muitos sérvios, que sempre o considerariam “o protetor mítico do povo sérvio”.
Ratko Mladic nasceu em condições de pobreza na remota vila de Bozanovici, em 12 de março de 1943, quando a região fazia parte do Estado Independente da Croácia, um Estado fantoche nazista dominado por nacionalistas croatas fanáticos.
Seu pai, Neda Mladic, que era de etnia sérvia e fazia parte da resistência partidária liderada pelos comunistas, foi morto quando Ratko ainda era uma criança pequena. Ele e seus dois irmãos foram criados pela mãe Stana (Lalovic) Mladic. A experiência de sua família criou em Mladic um profundo medo de que, a menos que estivessem em posição de vantagem, os sérvios sempre enfrentariam perseguição por parte dos croatas e de outros grupos étnicos.
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Quando jovem, ele trabalhou como metalúrgico, mas logo se voltou para a carreira militar com o objetivo de continuar seus estudos. Com sua mente perspicaz, força física e um carisma que inspirava profunda lealdade, Mladic ascendeu rapidamente no Exército Popular da Iugoslávia.
Acredita-se que, no início de sua carreira militar, ele aderiu à vertente do comunismo defendida por Josip Broz Tito, que rejeitava o nacionalismo e defendia a irmandade iugoslava como forma de manter unida a frágil confederação de repúblicas multiétnicas e multirreligiosas que formavam a Iugoslávia.
Tito faleceu em 1980 e, depois que Milosevic reacendeu os rancores nacionalistas e a Iugoslávia começou a se desintegrar no início da década de 1990, Mladic abraçou a causa de Milosevic de conter o separatismo e garantir o domínio dos sérvios, o maior grupo étnico do país. Em 1992, um mês após a declaração de independência da República da Bósnia, as forças de Mladic iniciaram o cerco a Sarajevo.
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Abalada pelas ações do pai durante a guerras, sua filha Ana, estudante de medicina então com 23 anos, tirou a própria vida em 1994, com uma pistola militar que era de grande valor para ele.
Em julho de 1995, diante das câmeras de vídeo, os guardas de Mladic distribuíram doces para crianças bósnias. “Ninguém vai se machucar”, disse Mladic a mulheres e crianças aterrorizadas, dando um tapinha na cabeça de um menino. Naquele momento, seus soldados se preparavam para realizar os assassinatos em massa.
Após o massacre, a indignação nos Estados Unidos e na Europa levou a uma campanha de bombardeios da Otan que derrotou as forças sérvias da Bósnia e resultou nos Acordos de Dayton, que puseram fim à Guerra da Bósnia, em dezembro de 1995. Três anos depois, outro conflito na antiga Iugoslávia eclodiu, desta vez no Kosovo, em 1998.
Em 1995, o tribunal internacional de Haia, criado dois anos antes, indiciou Mladic por crimes de guerra e genocídio relacionados ao cerco de Sarajevo e ao massacre de Srebrenica. (Com AFP e New York Times)
