No maior santuário de reprodução de baleias-jubarte do Atlântico Sul, no litoral brasileiro, a presença dos animais voltou a ser uma cena comum. Em Abrolhos, no extremo sul da Bahia, machos disputam fêmeas enquanto cientistas acompanham de perto uma população que passou de quase extinta no Atlântico Sul, há quatro décadas, para cerca de 35 mil indivíduos atualmente.
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O arquipélago, localizado a cerca de 70 quilômetros da costa, recebe as baleias entre junho e novembro. Nas águas quentes da região, as fêmeas dão à luz e amamentam os filhotes, enquanto os machos procuram acasalar.
A recuperação foi resultado da proibição da caça, da proteção das áreas de reprodução e de décadas de pesquisas para entender o comportamento e os deslocamentos da espécie, segundo o Instituto da Baleia Jubarte (IBJ).
— Quem vê uma baleia se apaixona, se conecta de outra maneira com o meio ambiente — afirma Eduardo Camargo, diretor do instituto.
Vista aérea de um grupo de baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) no Arquipélago dos Abrolhos, no estado da Bahia, Brasil, em 19 de agosto de 2026
AFP
DNA ajuda a revelar os caminhos das baleias
A pesquisa dos animais também ajuda a reconstruir relações familiares e rotas migratórias. Vestindo colete salva-vidas e capacete e carregando uma balestra, o biólogo Fabio Fontes acompanha um grupo de baleias em um bote inflável para coletar amostras de pele e gordura.
A biópsia permite identificar relações de parentesco entre os animais, explica Milton Marcondes, coordenador de pesquisa do IBJ. Foi dessa forma que os pesquisadores descobriram que uma baleia nascida em Abrolhos era parente de outra observada na Geórgia do Sul, cerca de 4 mil quilômetros ao sul.
A descoberta ajudou a estabelecer a rota migratória da espécie. As baleias-jubarte podem chegar a 16 metros de comprimento e pesar o equivalente a seis elefantes. Elas passam o verão se alimentando no extremo sul do Atlântico e migram para o litoral brasileiro para se reproduzir.
Inteligência artificial identifica milhares de animais
Cada baleia-jubarte também pode ser reconhecida individualmente pelo padrão de manchas na cauda. A marcação funciona como uma espécie de impressão digital.
Antes, a comparação das imagens exigia muitas horas de trabalho. Agora, a plataforma Happy Whale usa inteligência artificial para identificar os animais e já reconheceu 8.300 baleias-jubarte brasileiras.
A tecnologia ajudou os pesquisadores a registrar um recorde mundial: uma baleia-jubarte percorreu mais de 15 mil quilômetros até a costa leste da Austrália, feito divulgado internacionalmente em maio.
— As populações de baleia aqui no hemisfério sul são muito mais conectadas do que a gente imaginava — afirma Marcondes.
‘Eram lendas’, lembra fundador do instituto
A quantidade de baleias encontrada hoje contrasta com o cenário de décadas atrás. Em meados dos anos 1980, Enrico Marcovaldi, fundador do IBJ, diz que praticamente ninguém sabia que havia baleias no Brasil.
Na primeira vez que viu uma, chegou a confundi-la com uma pedra.
— Eram lendas, a gente nunca tinha visto uma baleia — recorda.
Enrico Marcovaldi, pesquisador e vice-diretor do Instituto Baleia Jubarte, fala durante entrevista à AFP em Caravelas, no estado da Bahia, Brasil, em 17 de agosto de 2026
AFP
Depois de confirmar que se tratava de uma baleia-jubarte, Marcovaldi iniciou o projeto que deu origem ao instituto.
O IBJ conta com apoio financeiro da Petrobras há 30 anos. Em 1986, foi decretada uma moratória global sobre a caça comercial de baleias e, no ano seguinte, o Brasil proibiu a atividade por lei. Com apoio do instituto, posteriormente foi criada uma área protegida em Abrolhos.
O arquipélago também foi designado como “Hope Spot” pela ONG Mission Blue, uma distinção concedida a locais considerados importantes para a conservação marinha por sua biodiversidade.
Em 2014, a baleia-jubarte foi retirada da lista de espécies ameaçadas do Brasil. Desde então, sua população continua crescendo.
O aumento da população, porém, criou novos desafios para a conservação. Segundo Camargo, agora é preciso “harmonizar” a presença crescente das baleias com a atividade humana.
Entre as principais ameaças diretas estão o aumento do tráfego marítimo e as redes de pesca. Outra preocupação é o aquecimento do mar provocado pelas mudanças climáticas, que ameaça o krill, uma das fontes de alimento desses grandes cetáceos.

