Shows, luzes, música, calor, longos períodos em pé e poucas horas de sono. Para quem vai ao Rock in Rio, a experiência costuma envolver uma combinação de estímulos que começa antes mesmo da entrada na Cidade do Rock e pode se estender até a madrugada. Para quem convive com enxaqueca, no entanto, a programação intensa exige alguns cuidados, especialmente quando já se conhece os fatores capazes de desencadear os sintomas.
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Mais do que uma dor de cabeça intensa, a enxaqueca é uma doença neurológica que pode provocar episódios de dor moderada a forte, frequentemente pulsátil, acompanhados de náuseas, vômitos e maior sensibilidade à luz e aos sons. Algumas pessoas também apresentam aura, com manifestações neurológicas que podem incluir alterações visuais.
Segundo o neurocirurgião Leandro M. Macedo, a combinação de diferentes estímulos encontrada em grandes eventos pode favorecer o aparecimento de sintomas em pessoas suscetíveis. Isso não significa que todos os elementos terão o mesmo efeito para quem tem o diagnóstico, mas reconhecer o próprio padrão pode ajudar a reduzir as chances de uma intercorrência.
“Quem tem enxaqueca pode apresentar sensibilidade a determinados estímulos ou mudanças na rotina. Em um festival, temos uma combinação de fatores: exposição prolongada à luz e ao som, calor, esforço físico, alteração dos horários de alimentação e sono, além da possibilidade de desidratação. Não significa que todos esses elementos necessariamente provocarão uma crise, mas quem já conhece seus gatilhos deve se planejar para reduzir a exposição àquilo que costuma desencadear seus sintomas”, observa o médico.
Som e luz podem aumentar o desconforto
Palcos iluminados, efeitos visuais e música em alto volume fazem parte da experiência de um grande festival. Para algumas pessoas, porém, esses estímulos podem se tornar difíceis de tolerar, principalmente quando os sintomas já começaram.
Fotofobia, nome dado à sensibilidade aumentada à luz, e fonofobia, relacionada ao desconforto diante de sons, estão entre as manifestações que podem acompanhar a enxaqueca.
“É importante diferenciar duas situações. Luz e som podem estar associados ao desencadeamento de crises em determinadas pessoas, mas também podem se tornar muito mais incômodos quando a crise já começou. O paciente que conhece o próprio padrão consegue, muitas vezes, identificar os primeiros sinais e perceber que está entrando em uma crise antes de a dor atingir maior intensidade”, explica o neurocirurgião.
Calor, jejum e desidratação também merecem atenção
Passar várias horas sem beber água ou fazer uma refeição pode ser mais um fator de risco para quem já percebe relação entre esses hábitos e o surgimento dos sintomas. Em dias quentes, a transpiração e o esforço físico aumentam a necessidade de manter uma hidratação adequada.
A ideia não é transformar a ida ao festival em uma lista de restrições, mas evitar chegar ao limite. Para quem conhece seus próprios gatilhos, antecipar algumas necessidades pode ser mais eficiente do que tentar controlar os sintomas depois que eles aparecem.
“Uma pessoa que sabe que passar muitas horas sem comer ou beber água costuma estar associado às suas crises não deveria esperar a dor aparecer para tomar algum cuidado. Em eventos longos, é importante manter hidratação e alimentação adequadas dentro das possibilidades disponíveis. A prevenção também passa pelo conhecimento dos fatores que individualmente estão associados às crises daquele paciente”, orienta Dr. Leandro.
Virar a noite pode pesar
O sono também entra nessa conta. Shows que terminam tarde, o deslocamento de volta para casa e a própria alteração da rotina podem reduzir o período de descanso. Para algumas pessoas, mudanças importantes no padrão habitual de sono estão relacionadas ao surgimento de episódios.
Por isso, o cuidado pode começar antes de chegar ao evento. Dormir bem na noite anterior, evitar longos períodos em jejum e manter uma hidratação adequada são medidas especialmente relevantes para quem já sabe que esses fatores influenciam seu quadro.
“Para quem convive com enxaqueca, manter certa regularidade na rotina pode ser importante. Uma noite isolada diferente faz parte da vida, mas quando somamos privação de sono, pouca hidratação, alimentação inadequada, calor e exposição intensa a estímulos, podemos reunir vários fatores aos quais aquele paciente é sensível. O ideal é não chegar ao festival já cansado, desidratado e após muitas horas em jejum”, afirma o médico.
Nem toda dor de cabeça é enxaqueca
Depois de horas de calor, deslocamento e música, uma dor de cabeça pode ser interpretada automaticamente como mais um episódio da doença por quem já recebeu o diagnóstico. Mas o termo cefaleia é amplo e pode estar relacionado a diferentes causas.
“Cefaleia significa dor de cabeça. Enxaqueca é uma doença neurológica específica e uma das possíveis causas de cefaleia. É importante fazer essa diferenciação porque nem toda dor de cabeça deve ser automaticamente atribuída à enxaqueca, principalmente quando apresenta características diferentes daquelas que a pessoa normalmente sente”, esclarece Dr. Leandro.
Quando é hora de deixar o show e procurar atendimento?
Conhecer o padrão habitual dos sintomas ganha ainda mais importância em um ambiente com milhares de pessoas. Uma dor semelhante àquela que já foi diagnosticada e costuma se repetir é diferente do aparecimento de uma manifestação inédita, especialmente quando há sinais neurológicos associados.
“Dor súbita e muito intensa, alterações neurológicas diferentes das habituais, confusão, desmaio, fraqueza, alterações importantes da visão ou vômitos persistentes são situações que merecem avaliação médica”, alerta o neurocirurgião.
Também merece atenção uma cefaleia persistente ou que não responde às medidas habitualmente utilizadas, sobretudo quando surge acompanhada de alterações visuais ou outros sintomas neurológicos.
“Existem cefaleias secundárias a outras condições e o papel da avaliação médica é justamente reconhecer quando precisamos investigar além de uma enxaqueca. A hipertensão intracraniana idiopática, conhecida popularmente como pseudotumor cerebral, é um exemplo de condição que pode provocar cefaleia persistente e alterações visuais. Por isso, uma dor diferente, refratária ou acompanhada de sinais de alerta não deve ser mascarada apenas para conseguir permanecer no evento”, acrescenta Dr. Leandro.
Para quem já tem diagnóstico de enxaqueca, conhecer os próprios gatilhos e se preparar para uma rotina fora do habitual pode ajudar a aproveitar a programação sem ignorar os sinais do corpo.
“Não é necessário deixar de viver experiências como um festival porque se tem enxaqueca. O mais importante é conhecer a própria doença, identificar fatores aos quais você é sensível, seguir corretamente o tratamento prescrito e não banalizar sintomas diferentes do habitual. O objetivo é conseguir aproveitar o evento com segurança e reconhecer quando o organismo está sinalizando que é hora de parar e procurar ajuda”, conclui o médico.

