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Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta encaram os abismos entre mãe e filha em peça premiada

Separadas por uma grande mesa de jantar, Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta materializam a distância emocional entre Thelma e Jessi, mãe e filha da peça “Boa noite, mãe”, que marca o primeiro encontro das duas no palco e estreia nesta quinta-feira (10) no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro. Escrita pela americana Marsha Norman […]

Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta encaram os abismos entre mãe e filha em peça premiada


Separadas por uma grande mesa de jantar, Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta materializam a distância emocional entre Thelma e Jessi, mãe e filha da peça “Boa noite, mãe”, que marca o primeiro encontro das duas no palco e estreia nesta quinta-feira (10) no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro. Escrita pela americana Marsha Norman em 1982, a peça venceu o Prêmio Pulitzer de Teatro, ganhou montagens mundo afora e adaptações para o cinema, dentre elas uma estrelada por Anne Bancroft e Sissy Spacek e dirigida por Tom Moore, que concorreu ao Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim, em 1987. Foi justamente durante o festival daquele ano — em que conquistou o Urso de Prata de melhor atriz por “Vera”, de Sergio Toledo— que Ana Beatriz conheceu e se encantou pela obra em que mãe e filha têm uma longa e tensa conversa, que começa quando a mais nova anuncia que vai tirar a própria vida até o fim da noite.
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— Fiquei impressionada, eram duas monstras sagradas com um texto muito bom. Quando cheguei ao Brasil, procurei a obra, mas seria uma montagem cara. A ideia ficou guardada nas gavetinhas da cachola para quando eu tivesse maturidade e condições de produzir, assim como fiz com “Sra. Klein”, que remontei só 25 anos depois de ter visto dona Nathalia Timberg fazendo — conta a atriz e produtora, que soma entre seus projetos os solos “A procura de uma dignidade” e “Um dia a menos”, baseados em contos de Clarice Lispector.
Anne Bancroft e Sissy Spacek em “Noite de desamor” (1986), aclamada adaptação da peça “Boa noite, mãe”, de Marsha Norman
Reprodução
Com tradução de José Pedro Peter e direção de Leonardo Netto, a peça se passa praticamente inteira na sala de jantar da casa em que Thelma e Jessi moram. Enquanto arruma o ambiente obsessivamente, Jessi revela seu plano, calculado por meses. Ela parece irredutível em sua decisão, enquanto a mãe vai do desespero à negação tentando dissuadi-la.
Começa então a conversa mais profunda que as duas já tiveram, sustentada por um jogo de cena afiado entre Ana Beatriz e Andréia, que só tinham contracenado em algumas cenas das novelas “Um lugar ao sol” (2021) e “Três graças” (2026).
— Quando se trabalha com duas atrizes desse porte, o melhor é deixar que elas descubram a química. Claro que tudo foi muito discutido, mas o mistério de dois atores em cena, na hora do espetáculo, quando mais nada pode interferir, é assunto de ocultismo, melhor não se meter — diz o diretor.
Entre mágoas, ciúmes, confissões e não-ditos, as duas vão pouco a pouco revelando as várias camadas que constroem aquela relação codependente. Viúva, Thelma conta com a filha para a maior parte das tarefas práticas de casa e para lhe fazer companhia. Jessi, por sua vez, precisa da mãe para se sustentar, já que não consegue trabalhar, e para lidar com seus episódios severos de epilepsia.
Divorciada e decepcionada com o rumo do filho adolescente, Jessi soma descontentamentos que a mãe não consegue compreender.
— A peça é um embate maravilhoso entre subjetividade e objetividade. Entre uma pessoa com uma vida interior intensa, com angústias, sensibilidades, sofrimentos, e outra que só vê a vida de forma objetiva, sem conseguir interpretá-la além da primeira leitura — opina Leonardo.
Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta vivem mãe e filha distantes em “Boa noite, mãe”
Marcelo Theobald/Agência O Globo
Mãe de uma menina de quase 2 anos, Andréia consegue se ver no lugar de Thelma, mas destaca a universalidade do texto.
— Mexe comigo de modo especial, mas mesmo que eu não fosse mãe mexeria, porque eu também sou filha. O espetáculo trata de uma relação familiar e de seus abismos de comunicação. Mostra a intimidade absoluta de uma mãe e uma filha, e ao mesmo tempo o quanto elas são estrangeiras uma para a outra — diz a atriz, de volta aos palcos após sete anos.
Afastadas de início, cada uma em seu canto, mãe e filha aos poucos se aproximam, compartilhando momentos de afeto. Jessi pede carinhos como o chocolate quente da mãe, e se oferece para pintar suas unhas. Thelma, por sua vez, tenta arrumar soluções desesperadas para as questões da filha, desde jogar fora a TV para que ela não precise acompanhar o noticiário, até parar de receber o filho, irmão de Jessi, em casa.
“Eu cantaria até amanhã de manhã se fosse para você ficar viva”, a mãe chega a dizer, enquanto o pequeno relógio de pêndulo na parede, um dos poucos elementos do cenário, não para de badalar, deixando o público tenso e pensando se, até o fim da noite, ela vai conseguir evitar a tragédia anunciada.
— A voz da Jessi ficou na minha cabeça. O que ela está dizendo, o que ela está sentindo. Quis ter mais tempo para tentar compreendê-la, escutá-la com mais atenção e empatia — relembra Andréia. — Procurei olhar para os motivos e as dores dela sem julgamentos e sem tentar fazer uma tese sobre a coisa toda, porque o suicídio é sempre muito pessoal.
Se há 40 e poucos anos a discussão sobre saúde mental era bem escassa, hoje o assunto está em alta. Mas isso não significa que todos tenham o mesmo acesso a informações e tratamentos.
— Durante os ensaios, a irmã da minha assistente do lar tirou a própria vida. Acho que ela nem sabia que a irmã estava passando por aquilo. Acontece mais do que a gente imagina. Acho super importante que se fale nisso. Quem sabe assim o governo passa a considerar a depressão tão grave quanto o câncer, até porque, muitas vezes, ela leva a pessoa tão mais rápido — defende Ana Beatriz.
Lidando com um tema que segue tabu, a equipe espera que a peça ajude a desestigmatizar o assunto.
— O que eu desejo é que esse espetáculo abra conversas. Em família, entre amigos. Porque o silêncio que pesa sobre esse tema é muito danoso. Enquanto esse for um terreno em que não podemos pisar, fica complicado. É preciso, com delicadeza, respeito, e sem julgamento, ir desfiando esse intocável— finaliza Andréia.
Serviço
Onde: Teatro Poeira, Botafogo.
Quando: Qui a sáb, às 20h. Dom, às 19h. Até 25 de outubro. Estreia quinta (10).
Quanto: R$ 120. Assinante O GLOBO tem desconto.
Classificação: 16 anos.

Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta encaram os abismos entre mãe e filha em peça premiada

Autor

BRCOM