Emma Bonino, que morreu aos 78 anos, construiu uma das trajetórias políticas mais marcantes da Itália contemporânea a partir da defesa dos direitos das mulheres, especialmente do direito ao aborto. Ex-integrante do Partido Radical, ela foi deputada, senadora, comissária europeia e ministra das Relações Exteriores, conquistando o respeito de diferentes correntes políticas do país.
“Hoje perdemos não apenas nossa líder, mas também uma das figuras mais lúcidas, corajosas e livres da história política de nosso país”, afirmou nesta sexta-feira no Facebook o +Europa, pequeno partido fundado por Bonino.
Bonino foi diagnosticada com câncer de pulmão em 2015. Em 2023, havia se curado, mas um ano depois foi hospitalizada por problemas respiratórios. Durante a recuperação em casa, recebeu uma visita surpresa do papa Francisco. Os dois compartilhavam a preocupação com os direitos dos migrantes e tinham grande estima um pelo outro, apesar das diferenças culturais e religiosas.
Emma Bonino
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‘Uma arma política’
Em uma entrevista em fevereiro de 2025, Bonino disse que seu corpo estava falhando e que estava pagando um preço físico por tê-lo usado “como uma arma política” durante décadas.
A primeira-ministra da Itália, a ultradireitista Giorgia Meloni, prestou homenagem à ativista e afirmou que, embora suas “trajetórias e visões fossem diferentes”, isso nunca a impediu de reconhecer “sua importância e seu papel na vida pública”.
A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, também lamentou a morte. “A Europa pela qual ela lutou sentirá sua falta”, disse.
Emma Bonino, histórica ativista italiana pelos direitos das mulheres
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O aborto como ponto de partida
Nascida em 1948 em uma fazenda da pequena cidade de Bra, no noroeste da Itália, Bonino obteve um diploma em línguas e literatura estrangeiras pela Universidade Bocconi de Milão e depois ingressou no Partido Radical.
Segundo ela, sua paixão política começou a partir de uma experiência pessoal. Aos 27 anos, acreditando ser estéril, engravidou e decidiu abortar.
“Na minha vida, demonstrei muita coragem, mas não a de ser mãe. Naquela época, abortar na Itália era ilegal, difícil, caro e humilhante. A humilhação foi tão intensa que disse a mim mesma: ‘nunca mais, para ninguém'”, declarou em uma entrevista em 2023.
Bonino conheceu então Adele Faccio, ativista pelos direitos das mulheres e figura do Partido Radical, e aderiu à campanha pela legalização do aborto.
Em 1975, fundou o Centro de Informação, Esterilização e Aborto (CISA), antes de se candidatar às eleições legislativas. Em 1976, foi eleita deputada pelo Partido Radical.
Emma Bonino, histórica ativista italiana pelos direitos das mulheres
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Quando o aborto foi legalizado na Itália, em 1978, Bonino já fazia campanha por outras questões, desde a liberalização das drogas leves até o abandono da energia nuclear.
Atuação na Itália e na Europa
Nos anos seguintes, Bonino também lutou a favor de programas de distribuição controlada de heroína e contra a pena de morte e a fome no mundo.
Eleita várias vezes para o Parlamento Europeu, foi comissária europeia de Proteção ao Consumidor de 1994 a 1999. Em Roma, foi senadora a partir de 2008.
Bonino foi nomeada ministra do Comércio Internacional e das Políticas Europeias da Itália, cargo que ocupou de 2006 a 2008, e ministra das Relações Exteriores entre 2013 e 2014.
Em 2018, voltou a fazer campanha eleitoral à frente de um novo movimento político, o +Europa, para defender os direitos dos migrantes e a União Europeia.
Bonino estava bem posicionada nas pesquisas, com 43%, atrás apenas do então primeiro-ministro Paolo Gentiloni. Apesar de seu lema “Ame-me menos, vote mais em mim”, porém, o partido não alcançou os 3% dos votos necessários para conquistar uma cadeira no Parlamento.
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