Os Houthis, grupo rebelde do Iêmen aliado ao Irã como parte do “Eixo da Resistência”, reivindicaram uma “operação militar em larga escala” contra a Arábia Saudita nesta segunda-feira, quando novos ataques aéreos atingiram áreas do território saudita. O aprofundamento das hostilidades entre os rebeldes e o governo de Riad ocorre um dia após o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, reunir-se com o chefe do Comando Central das Forças Armadas dos EUA (Centcom), almirante Brad Cooper, para discutir a conjuntura regional de segurança no Oriente Médio, enquanto as consequências da guerra entre Washington e Teerã se confundem com as da disputa em solo iemenita. O barril de petróleo Brent chegou a ser comercializado a mais de US$ 108 nesta segunda, com as instabilidades nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb pressionando o mercado internacional.
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O principal porta-voz militar houthi, Yahya Saree, anunciou que o grupo disparou “dezenas de mísseis balísticos e drones” contra alvos militares no sul da Arábia Saudita, incluindo “hangares de aviões de combate, radares, pistas de pouso, depósitos de munições e outros alvos situados na base aérea Rei Khalid”. A Defesa Civil saudita emitiu alertas na cidades de Khamis Mushait, onde fica a base, e em Abha, alvo de ataques houthis na semana passada. Um morador de Khamis Mushait entrevistado pela AFP afirmou ter ouvido “explosões intensas” que provocaram incêndios.
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Os Houthis reclamaram uma posição de protagonismo no conturbado cenário do Oriente Médio nas últimas semanas, ao lançarem uma ofensiva contra territórios controlados pelo governo reconhecido internacionalmente do Iêmen, apoiado pela Arábia Saudita, no sudoeste do país, e com ataques contra o país vizinho. No fim da semana passada, ataques atribuídos ao grupo rebelde atingiram instalações do setor do petróleo saudita, incluindo do oleoduto Leste-Oeste, por meio do qual o reino havia redirecionado a produção para o porto de Yabu, no Mar Vermelho, a fim de manter as exportações apesar da disputa entre EUA e Irã no Estreito de Ormuz.
O avanço territorial houthi, porém, garantiu ao grupo o controle da faixa litorânea do oeste do Iêmen, incluindo da cidade portuária de Mokha e de um conjunto de ilhas no Mar Vermelho, entre elas a de Perim, localizada quase no centro do Estreito de Bab el-Mandeb — rota que vinha sendo utilizada por Riad como alternativa a Ormuz, para levar seu principal produto de exportação aos mercados na Ásia. Os Houthis já tinham disparado contra navios-petroleiros sauditas, mas o domínio territorial amplia as possibilidades de tentar replicar um fechamento da via naval que dá acesso ao Canal de Suez, como o realizado pelo Irã no outro extremo da Península Arábica, ou realizar um bloqueio seletivo aos barcos sauditas.
Houthis tomam ilha Hanish e Ilha de Perim, no Estreito de Bab el-Mandeb
Arte/O GLOBO
Em um comunicado divulgado pelos rebeldes ainda na semana passada, o grupo afirmou que seus avanços no Mar Vermelho não comprometeriam a livre navegação pela via, o que não foi suficiente para conter as preocupações regionais. O Egito rejeitou uma proposta dos Houthis para negociações diretas sobre a segurança e a liberdade de navegação no Mar Vermelho, temendo que contatos diretos pudessem equivaler a um reconhecimento formal. Uma reunião prevista para esta segunda-feira entre Estados do Golfo e o Irã sobre o futuro de Ormuz foi adiada, com Teerã mencionando que a situação no Iêmen teria sido alegada por Riad “como pretexto” para postergar as negociações.
Embora o Irã tenha contribuído com o desenvolvimento militar, bélico e tecnológico dos Houthis como parte de sua aliança sob o “Eixo da Resistência”, há divergências sobre até que ponto o grupo direciona suas ações conforme o desejo da nação persa. Envolvidos em uma guerra civil desde 2014, retomada em julho deste ano após um ataque atribuído a Arábia Saudita contra um aeroporto iemenita que pôs fim a um cessar-fogo assinado em 2022, os rebeldes demonstram ter objetivos próprios, enquanto a agenda interna parece beneficiar os iranianos.
Teerã tinha ameaçado abrir “novas frentes” na guerra com os EUA, incluindo o fechamento de Bab el-Mandeb, antes mesmo da retomada de atividade militar pelos Houthis. Com o aumento das tensões e o avanço do grupo sobre a região, o porta-voz Esmaeil Baghaei, do Ministério das Relações Exteriores iraniano, afirmou que aliados são “totalmente independentes” e “tomam suas decisões em função de seus próprios interesses”.
— O Irã não interfere nos assuntos iemenitas — declarou.
A Organização Internacional para Migrações (OIM) da ONU afirmou que a retomada dos combates no Iêmen, considerado o país mais pobre do mundo árabe — obrigou cerca de 86 mil pessoas a fugirem de suas casas até domingo. A agência também mencionou um fluxo de 2 mil deslocados em direção ao Djibouti, país do nordeste africano no outro extremo do Estreito de Bab el-Mandeb.
Cálculos sauditas
A retomada dos ataques aéreos contra o território saudita e a campanha terrestre contra as forças do governo internacionalmente reconhecido testam os limites das capacidades de Riad de se envolver no conflito. Autoridades houthis afirmam que a rica monarquia do Golfo teria realizado “300 bombardeios” nos últimos cinco dias — o que não impediu o avanço do grupo rebelde.
Há sinais de que Riad tenta reunir apoio externo para conter os houthis. A TV saudita informou sobre um encontro do príncipe herdeiro com o comandante do Centcom no domingo, no que pode indicar uma nova tentativa de atrair Washington para uma eventual resposta. Até o momento, os americanos se mantiveram longe da frente iemenita, e uma reportagem do portal americano Axios na semana passada apontou que o presidente Donald Trump teria rejeitado por duas vezes pedidos de ajuda.
Em uma entrevista coletiva no sábado, na Irlanda, Trump, disse que conversas com autoridades sauditas estão em andamento, e revelou também ter recebido um pedido dos Houthis para que as forças do país não se envolvessem na disputa no Mar Vermelho.
Trump tem mantido relações próximas com as monarquias do Golfo, e se refere a Salman como um amigo pessoal, tendo escolhido o país como destino de sua primeira viagem internacional no segundo mandato. A família do presidente tem negócios privados na região, que invariavelmente envolvem a família real saudita em alguma medida.
A decisão de ingressar em uma nova frente de batalha no Oriente Médio, porém, incluiria fatores como a divisão de atenção entre Iêmen e Irã — em um momento em que o país tenta estrangular Teerã por meio de uma campanha econômica — e um possível agravamento da crise do petróleo, principal efeito adverso para Trump da guerra no Irã. (Com AFP, Bloomberg e NYT)
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