O rendimento dos títulos da dívida do Tesouro americano de 10 anos subiu para 5% ao ano nesta segunda-feira, o nível mais alto em três anos, coroando um longo período de turbulência no mercado de renda fixa, que elevou os custos de financiamento para empresas e consumidores.
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Os treasuries, como são conhecidos os títulos da dívida pública dos EUA, são um dos ativos mais negociados do mundo — e, historicamente, considerados um dos mais seguros. Dados os montantes negociados, suas taxas servem de referência para os juros nos mercados financeiros do mundo todo.
Com a alta recente, as taxas dos treasuries atingiram níveis que, segundo temores de alguns, podem representar um risco para a economia.
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A alta — as taxas sobem com a desvalorização do valor de face, em meio a vendas por parte dos investidores; no mercado de títulos, taxas e valores de face são sempre inversamente proporcionais — tem sido impulsionada pelos seguintes fatores:
os efeitos da guerra no Oriente Médio, como a disparada das cotações do petróleo;
as preocupações de investidores com o desequilíbrio das contas públicas dos EUA; e
a explosão de gastos — e demanda por financiamentos — por parte de empresas de inteligência artificial (IA), que disputam os recursos dos investidores com os títulos da dívida americana.
O governo Trump tentou aliviar as taxas do Tesouro intervindo nos mercados financeiros, inclusive por meio da recompra agressiva de bilhões de dólares em títulos. No entanto, esses esforços não conseguiram acalmar os investidores do mercado de dívida.
Petróleo impulsiona alta
Nesta segunda-feira, os rendimentos dos treasuries de 10 anos foram para além de 5% ao ano, enquanto os preços do petróleo permaneceram bem acima de US$ 100 por barril, alimentando temores de uma inflação mais alta.
Na semana passada, o presidente Trump prometeu pagar US$ 5.000 a cada americano se os republicanos mantivessem o controle do Congresso nas eleições de meio de mandato, uma proposta que poderia acrescentar US$ 1 trilhão ao déficit nas contas do governo federal dos EUA.
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O rendimento dos títulos de 10 anos do Tesouro americano ultrapassou brevemente os 5% ao ano em outubro de 2023. Antes disso, as taxas não atingiam nível tão elevado desde 2007 — a economia americana entrou em recessão em dezembro daquele ano, antes da crise financeira global de 2008.
Embora os fatores que impulsionaram a alta dos rendimentos naquela época e agora sejam diferentes, os efeitos são semelhantes.
Uma elevação nas taxas dos treasuries de 10 anos contribuiu para o aumento dos juros das hipotecas. A taxa média de hipotecas fixas de 30 anos atingiram 6,76% ao ano na semana passada, acima dos cerca de 6% no fim de fevereiro, às vésperas do início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.
Ameaça para o mercado de ações
O aumento das taxas também pode ameaçar a valorização do mercado de ações, dizem analistas, caso os investidores repensem a relação entre risco e retorno de investir em ações ou em títulos de renda fixa.
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Títulos com rendimentos mais elevados oferecem aos investidores um retorno sólido com menos riscos do que as ações. Além disso, taxas mais altas também podem pressionar os lucros corporativos, que sustentam o mercado de ações, ao aumentar os custos de empréstimos para as empresas.
A “maior preocupação de curto prazo para as ações”, segundo Antony Ghee, chefe de investimentos em renda variável do escritório de investimentos do Merrill e do Bank of America, é “uma alta sustentada acima de 5%” ao ano no rendimento dos títulos de 10 anos do Tesouro.
O rendimento dos treasuries de 10 anos subiu cerca de 0,8 ponto percentual este ano e está acima de quando o presidente Trump voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025.
A alta no rendimento dos treasuries de 30 anos foi ainda mais acentuada, com a taxa sendo negociado em máximas de várias décadas nas últimas semanas. O rendimento de 30 anos oscilou em torno de 5,38% ao ano nesta segunda-feira.
Recompra surte pouco efeito
Em meio à turbulência no mercado de títulos, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, interveio nos mercados financeiros em um esforço para aliviar as taxas de longo prazo
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent: investidores desconfiam do apetite do governo após anúncio de aumento na recompra de títulos
Aaron Schwartz/Bloomberg
Na semana passada, o Tesouro comprou US$ 5,2 bilhões em títulos com vencimento nos próximos 10 a 20 anos, como parte de um plano para injetar demanda no mercado — com mais demanda pelos papéis, os preços de face tendem a subir, o que faz as taxas caírem, já que são inversamente proporcionais.
As compras do Tesouro ficaram aquém do teto de US$ 6 bilhões que havia anunciado na quarta-feira. O Tesouro recebeu mais de US$ 10 bilhões em ofertas de investidores, gerando ceticismo entre alguns operadores de mercado sobre o real compromisso do governo com essa estratégia.
Os investidores do mercado de títulos agora aguardam que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tome medidas para controlar a inflação. Operadores nos mercados futuros veem agora uma probabilidade de 90% de elevação em 0,25 ponto percentual na taxa básica dos EUA — hoje no intervalo de 3,5% a 3,75% ao ano — em sua reunião desta semana.
Que nem 2007 e 2008?
Em 2007, quando a economia americana entrou em recessão, o rendimento dos títulos de 10 anos do Tesouro atingiu o pico em torno de 5,3% ao ano.
Existem inúmeras diferenças entre aquele período e o atual, mas alguns investidores e analistas observam que em ambos os períodos a alta nas taxas dos títulos públicos acompanhou um crescimento forte e concentrado de um único setor. No passado, foi o imobiliário, origem da crise financeira; agora, são os pesados investimento no desenvolvimento da IA.
As empresas de tecnologia recorreram ao mercado de dívida para impulsionar seu crescimento, tomando bilhões de dólares emprestados para financiar a rápida expansão de data centers e outras infraestruturas. Isso, por sua vez, eleva as expectativas de crescimento e inflação no futuro, o que empurra os rendimentos dos títulos para cima.
Alguns analistas alertaram que, se o impacto transformador da IA — por exemplo, sobre a elevação da produtividade — ficar aquém das promessas, isso poderá representar uma ameaça mais ampla para a economia.
— O paralelo histórico, seja com 2007 ou com qualquer outro período de mudança, é que você tende a ver excessos antes que as coisas se desenvolvam de uma forma mais sustentável — disse Joseph Purtell, gestor de portfólio da Neuberger Berman.
Juro do título de 10 anos do Tesouro americano passa de 5%, maior nível em anos
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