Dar o primeiro celular ao filho costuma ser visto como um passo natural da infância para uma rotina cada vez mais conectada. O aparelho facilita a comunicação com a família, oferece entretenimento e também passa a fazer parte das relações sociais de crianças e adolescentes. Para Alinne Moraes, no entanto, o acesso à tecnologia exige um cuidado que vai além da escolha do momento certo para entregar o dispositivo.
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Em entrevista, Alinne Moraes, mãe de Pedro, de 12 anos, usou uma comparação com o mundo físico para chamar atenção aos riscos do acesso à internet sem supervisão. Na avaliação da atriz, entregar um celular a uma criança sem acompanhamento pode ser comparado a deixá-la sozinha em uma situação potencialmente perigosa. Ela contou que o filho ganhou o aparelho há pouco tempo, mas utiliza o dispositivo com tempo controlado e acesso restrito a plataformas voltadas ao público infantil.
A declaração chama atenção para uma discussão que costuma ficar concentrada em uma pergunta: quanto tempo a criança passa diante da tela? Embora a duração do uso seja um dos aspectos considerados pelos profissionais, ela não conta toda a história. Também importa saber o que está sendo acessado, com quem a criança interage, quais conteúdos aparecem durante a navegação e até que ponto os adultos conhecem essa experiência.
Para a pediatra Renata Castro, acompanhar a vida digital dos filhos deve seguir uma lógica semelhante à adotada fora das telas.
“Os pais normalmente querem saber onde o filho está, com quem está conversando e se aquele ambiente é seguro. Na internet, essa lógica não deveria desaparecer. A criança pode estar dentro do quarto e, ao mesmo tempo, ter contato com desconhecidos, conteúdos violentos, sexualizados ou inadequados para sua maturidade. Estar fisicamente dentro de casa não significa necessariamente estar protegido no ambiente digital”, explica.
O que a criança faz no celular também importa
Uma criança pode ficar pouco tempo conectada e ainda assim entrar em contato com algo inadequado. Da mesma maneira, duas horas de videochamada com os avós, pesquisa escolar ou conteúdo educativo não representam necessariamente a mesma experiência de duas horas navegando sem acompanhamento por recomendações automáticas.
É nesse ponto que o pediatra Thiago Castro considera importante ampliar a conversa sobre o uso do aparelho. “Tempo de tela é importante, mas não pode ser o único critério. Precisamos perguntar qual conteúdo aquela criança está consumindo, em que contexto o aparelho é usado, se existe interação com desconhecidos e como ela se comporta depois daquele acesso. O celular não é uma experiência única. O impacto depende muito da forma como ele entra na rotina da criança”, afirma.
A própria dinâmica da internet acrescenta outros elementos. Um conteúdo aparentemente inofensivo pode levar rapidamente a outro completamente diferente por meio de recomendações automáticas. Publicidade, mensagens privadas, jogos com interação entre usuários e links externos também fazem parte de uma experiência que nem sempre é fácil de compreender na infância.
Estar em casa não significa estar sozinho
A comparação feita por Alinne Moraes toca justamente nessa diferença entre o ambiente físico e o digital. Uma criança pode estar no próprio quarto e, ainda assim, estabelecer contato com desconhecidos, receber mensagens ou acessar conteúdos que os pais não conhecem.
Renata destaca que a capacidade de reconhecer manipulação, publicidade disfarçada, desafios perigosos ou abordagens inadequadas ainda está em desenvolvimento durante a infância.
“A criança não pode receber a responsabilidade de identificar sozinha todos os riscos de um ambiente que foi desenvolvido para prender atenção e estimular interação. Ela pode não perceber quando uma conversa ultrapassou um limite ou quando alguém está tentando obter informações pessoais. Por isso, supervisão não é invasão da infância. É proteção adequada à idade”, avalia a pediatra.
Proibir o celular também não resolve
Ao mesmo tempo em que a liberdade total pode expor crianças a situações para as quais ainda não estão preparadas, transformar o celular em um inimigo também não parece suficiente. A tecnologia já faz parte da vida cotidiana e, com o passar dos anos, os jovens precisarão desenvolver autonomia nesse ambiente.
Nesse processo, os limites estabelecidos pela família ganham outro significado. Definir quais aplicativos podem ser usados, combinar horários, conversar sobre contatos desconhecidos e explicar por que determinados conteúdos não são adequados ajuda a criança a desenvolver critérios próprios.
“Os limites precisam existir antes do problema aparecer. Quando a família só conversa sobre internet depois que encontra algo preocupante, a criança pode entender aquela intervenção exclusivamente como punição. É mais saudável estabelecer desde o início que o celular possui regras, assim como existem regras para sair de casa, atravessar uma rua ou frequentar determinados lugares”, orienta Thiago.
Quando a tela ocupa todos os espaços
Outro aspecto que merece atenção é o lugar que o aparelho passa a ocupar na rotina. Se o celular se transforma na resposta automática ao tédio, à espera, à irritação ou à dificuldade de dormir, outras experiências próprias da infância podem perder espaço.
Brincar, conversar, movimentar-se, criar histórias e até lidar com momentos sem estímulo também fazem parte do desenvolvimento. “Quando a tela vira a principal estratégia para acalmar, entreter ou preencher qualquer intervalo, outras experiências começam a perder espaço. A infância precisa de movimento, interação, brincadeira, sono adequado e contato com outras pessoas. O objetivo não é criar uma infância sem tecnologia, mas impedir que a tecnologia ocupe todos os espaços”, ressalta Renata.
Algumas mudanças de comportamento também podem indicar que a relação com o aparelho precisa ser revista. Irritação intensa quando o celular é retirado, abandono de atividades que antes despertavam interesse, dificuldade para dormir, uso escondido, isolamento ou necessidade constante de verificar mensagens e vídeos estão entre os sinais que merecem ser observados pelos adultos.
O que considerar antes do primeiro celular
A declaração de Alinne Moraes também coloca em evidência uma questão cada vez mais comum entre famílias: quando a criança está pronta para ter o próprio smartphone?
Para Thiago, não existe uma idade única capaz de responder à pergunta. A decisão depende da maturidade do filho, da finalidade do aparelho, das regras estabelecidas em casa e da disponibilidade dos adultos para acompanhar esse processo.
“Antes de entregar o primeiro celular, os pais deveriam se perguntar se estão preparados para participar dessa experiência. Não basta comprar o aparelho e estabelecer um limite de horas. Será necessário conversar sobre privacidade, exposição de imagens, desconhecidos, violência, sexualidade, golpes e tudo aquilo que eventualmente pode aparecer na internet. Dar acesso também significa assumir a responsabilidade de orientar”, pondera.
Isso não significa que a criança precise ter cada passo monitorado indefinidamente. Conforme demonstra responsabilidade e amadurece, a autonomia pode aumentar. Assim como acontece em outras situações da vida, a independência no ambiente digital tende a ser construída aos poucos.
“Nosso papel como adultos não é preparar uma criança para viver longe da tecnologia, porque essa não será a realidade dela. É ajudá-la a construir recursos para utilizar essa tecnologia sem ficar completamente vulnerável a ela. Primeiro acompanhamos mais de perto, depois orientamos e, aos poucos, damos autonomia. O celular pode caber na palma da mão, mas o universo ao qual ele dá acesso é enorme”, conclui Renata.
Celular na infância: por que o cuidado vai além do tempo de tela
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