Apontado pela Polícia Federal (PF) como o operador que intermediou aportes do Rioprevidência no Master, o lobista Ricardo Siqueira Rodrigues antecipou, em diálogo com o banqueiro Daniel Vorcaro, alterações na política de investimentos do órgão estadual que abriram caminho para aportes de R$ 970 milhões em papéis do banco. Conhecido como “Ricardo Gordo”, ele já foi preso pela Lava-Jato por fraudes em fundos de pensão e virou alvo de outra operação da PF em maio deste ano, que também mirou o ex-governador Cláudio Castro (PL), por suspeitas de irregularidades em aplicações no Master.
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Mensagens obtidas pela PF no celular de Vorcaro, e que vieram à tona após o levantamento de sigilo de documentos do caso Master, mostram que Rodrigues comunicou o credenciamento do banco — primeira etapa para receber pagamentos — horas antes de o documento ser assinado pela diretoria do Rioprevidência, no fim de 2023.
Em áudio enviado a Vorcaro em 19 de outubro daquele ano, às 18h40, Rodrigues o avisou que um “encaminhamento político tem que ser feito” para o início dos aportes do Rioprevidência, e disse que já havia resolvido questões “técnicas”:
“Quanto ao termo de credenciamento, o que eu posso te garantir é que vai ser assinado hoje pelo diretor de investimento”, afirmou o lobista.
No mesmo dia, às 21h45, o então diretor de investimentos do Rioprevidência, Euchério Lerner, assinou o termo que autorizava o órgão estadual a fazer “operação de compra ou venda de títulos públicos e privados” com o Master.
Informações internas
No horário em que Rodrigues antecipou a Vorcaro a assinatura do termo pelo diretor do Rioprevidência, a gerente de controle interno do órgão estadual, Fernanda Pereira Machado, já tinha dado seu aval ao Master. Como revelou O GLOBO, Fernanda chegou a nomear como seu assessor outro alvo da Lava-Jato, Jayme Alves, que foi companheiro de cela de Rodrigues. O lobista já descreveu Jayme como seu “amigo” em um depoimento à Justiça Federal.
As mensagens de Rodrigues indicam que ele era informado sobre intenções da cúpula do Rioprevidência antes de sua oficialização, “transmitindo a ideia de controle sobre etapas internas”, do órgão, segundo a PF.
No mesmo áudio, o lobista avisou a Vorcaro que o órgão estadual passaria a investir em letras financeiras, justamente o tipo de papel negociado pelo Master, o que de fato ocorreu nos meses seguintes.
“Para o ano que vem, a proposta de alteração na política vai fazer um limite que vai ser perto de 1,2 bilhão, 1,5 bilhão em LF (letras financeiras)”, disse Rodrigues a Vorcaro, conforme a transcrição do áudio apresentada pela PF no seu relatório, remetido originalmente ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça.
A mensagem de Rodrigues refere-se ao plano anual de investimentos do Rioprevidência, que traz estratégias de aplicações para os quatro fundos — administrativo, financeiro, previdenciário e militar — que compõem as reservas estaduais para o pagamento de aposentadorias. À época, em outubro de 2023, apenas o fundo administrativo — o menor deles, que correspondia a cerca de 2% do valor das aplicações dos quatro fundos — previa aportes em letras financeiras. Em novembro, logo após o credenciamento do Master, o Rioprevidência direcionou R$ 120 milhões deste fundo para papéis do banco de Vorcaro.
Já em 2024, o plano de investimentos passou a prever que os fundos financeiro e previdenciário, mais robustos, também adquirissem letras financeiras. A partir daí, o Rioprevidência adquiriu, até julho daquele ano, R$ 80 milhões em letras do Master no primeiro fundo, e R$ 770 milhões com o segundo, totalizando quase R$ 1 bilhão atrelados ao banco de Vorcaro.
A PF também destacou que, nas mensagens enviadas a Vorcaro, o lobista diz que o Rioprevidência “tem um dono e esse dono precisa autorizar os caras internamente” a fazer as aplicações. A investigação apura se o relacionamento mantido entre Vorcaro e Castro, com uma série de encontros desde 2023, foi determinante para os aportes no Master.
“O presidente lá (do Rioprevidência) só vai fazer o volume que o operador político determinar (…). Depende muito da boa vontade, da determinação desse operador político que fique em contato com vocês”, disse Rodrigues.
Em sua defesa enviada ao STF, Rodrigues alegou que trabalhava como “consultor técnico sênior” para Vorcaro, e negou que tivesse influência nas aplicações do Rioprevidência. Castro também nega irregularidades no caso. Procurado, o Rioprevidência não retornou o contato.
'Vai assinar hoje': lobista antecipou a Vorcaro mudanças que liberaram Rioprevidência a aportar R$ 1 bilhão no Master
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