Depois de dois anos de investigação e 59 dias de audiências, o inquérito oficial sobre o caso da enfermeira britânica Lucy Letby chega à publicação do relatório final nesta terça-feira sob uma controvérsia central: a apuração não examinou diretamente a possibilidade de que ela tenha sido condenada de forma incorreta. O chamado inquérito Thirlwall custou mais de 18 milhões de libras (cerca de R$ 124 milhões) aos cofres públicos, e analisou como sete bebês morreram e outros sete foram vítimas de tentativas de assassinato no Countess of Chester Hospital, no noroeste da Inglaterra.
Vitenã: Catadora de recicláveis encontra 19 joias de ouro no lixo, devolve à dona e recebe R$ 1.900 e 10 kg de arroz
Investigação aponta feminicídio: Estudante espanhola de 21 anos é assassinada durante intercâmbio no México
Letby, de 36 anos, foi condenada em julgamentos realizados em 2023 e 2024 e recebeu pena de prisão perpétua. Os crimes teriam ocorrido em 2015 e 2016. Ela foi considerada culpada pelo assassinato de sete bebês e pela tentativa de assassinato de outros sete.
A investigação oficial começou em setembro de 2024, sob comando da juíza Kathryn Thirlwall. A publicação do relatório final foi adiada várias vezes.
Entre os temas analisados estiveram a experiência de funcionários do hospital e dos pais dos bebês mortos, a conduta dos profissionais da instituição, o momento em que deveriam ter surgido suspeitas sobre Letby e a cultura existente dentro do Serviço Nacional de Saúde britânico.
Fotografia de custódia de novembro de 2020 da enfermeira Lucy Letby
Cheshire Constabulary / AFP
O inquérito, porém, não fez uma revisão ampla das evidências utilizadas para condenar a enfermeira e não avaliou diretamente a hipótese de que as condenações fossem incorretas.
Especialistas questionam as provas
As dúvidas sobre a base das condenações ganharam força com uma reportagem publicada pela New Yorker em maio de 2024. Depois, dezenas de estatísticos e especialistas médicos passaram a questionar partes da fundamentação apresentada no caso.
Em agosto de 2024, especialistas em neonatologia e professores de estatística enviaram uma carta ao governo pedindo que o inquérito fosse adiado ou que seus termos legais fossem ampliados. O grupo queria permitir uma “análise mais ampla dos possíveis fatores que contribuíram para o aumento das mortes neonatais”. O pedido foi rejeitado.
Jane Hutton, professora de estatística da Universidade de Warwick e uma das signatárias da carta, afirma que o trabalho realizado ao longo dos dois anos reforçou suas dúvidas sobre as condenações.
— Estou ainda mais convencida de que as condenações não são seguras.
Painel de neonatologistas contestou a acusação
Em fevereiro de 2025, um painel independente formado por especialistas de destaque em neonatologia divulgou uma avaliação sobre os casos. Segundo o grupo, não foram encontradas evidências de que Letby tivesse assassinado ou tentado matar qualquer um dos bebês sob seus cuidados.
O painel foi liderado pelo dr. Shoo Lee, um dos neonatologistas mais renomados do Canadá.
— Em todos os casos, a morte ou os ferimentos foram causados por causas naturais ou simplesmente por atendimento médico inadequado.
A conclusão colocou em discussão uma das bases médicas utilizadas no processo contra Letby.
O papel de Shoo Lee nas provas do julgamento
A acusação contra Letby utilizou fortemente um artigo de pesquisa publicado em 1989, escrito em parte por Shoo Lee. Em uma conversa telefônica com o New York Times em fevereiro, o especialista afirmou que grande parte das evidências médicas apresentadas no julgamento parecia “ridícula”.
Segundo Lee, essa seria também a impressão de neonatologistas experientes que analisaram as provas.
Pouco depois da divulgação da avaliação do painel, advogados de antigos executivos do Countess of Chester Hospital também pediram a interrupção do inquérito público. Em comunicado, afirmaram existir uma “possibilidade real de que existam explicações alternativas para essas mortes e colapsos inexplicados, a saber, atendimento e gestão clínica inadequados e causas naturais”.
Mark McDonald, advogado que lidera a equipe jurídica de Letby, criticou a condução da investigação antes da divulgação do relatório final. Segundo ele, o inquérito foi “conduzido sob a premissa de que uma mulher inocente é culpada de crimes que não cometeu”.
McDonald também afirmou:
— Quando Lucy for considerada inocente de todos os crimes, este relatório e suas recomendações serão significativamente enfraquecidos.
O advogado pediu ao governo que suspendesse qualquer recomendação decorrente do inquérito até que as novas evidências fossem examinadas pelo Tribunal de Apelação.
— Eu pediria veementemente ao governo que suspendesse qualquer recomendação até que as provas agora reunidas sejam analisadas pelo Tribunal de Apelação.
Caso está sob análise de órgão independente
As condenações de Letby também estão sendo analisadas pela Criminal Cases Review Commission (CCRC), órgão independente responsável por investigar possíveis erros judiciais na Grã-Bretanha.
A comissão pode encaminhar uma condenação ao Tribunal de Apelação quando identifica elementos que justifiquem uma nova análise. A revisão do caso começou em fevereiro de 2025, depois que os advogados de Letby apresentaram formalmente o pedido.
A avaliação inclui as conclusões produzidas pelo painel de especialistas liderado por Shoo Lee. Uma decisão da comissão não era esperada antes da publicação do relatório final do inquérito Thirlwall.
Os questionamentos sobre as condenações provocaram reações diferentes entre as famílias dos bebês. Algumas expressaram indignação com as dúvidas levantadas sobre o veredito e afirmaram continuar acreditando que os tribunais tomaram a decisão correta ao condenar Letby.
Enquanto isso, especialistas médicos e estatísticos, integrantes do painel independente e a defesa da enfermeira sustentam que existem questões relevantes sobre as provas apresentadas durante os julgamentos.
O que pode acontecer agora
O inquérito Thirlwall foi criado para examinar como as mortes e os episódios envolvendo os bebês aconteceram, como o hospital lidou com os casos e por que as suspeitas sobre Letby não surgiram antes.
A revisão sobre a própria segurança das condenações, entretanto, segue um caminho separado, na Criminal Cases Review Commission. É esse órgão que poderá decidir se existem elementos suficientes para levar o caso novamente ao Tribunal de Apelação.
Assim, permanecem em discussão duas questões distintas: como o hospital lidou com a sequência de mortes e colapsos neonatais e se as provas que levaram à condenação de Lucy Letby são suficientes para sustentar o veredito.
Caso Lucy Letby: relatório de inquérito é publicado sob questionamentos sobre condenação de enfermeira acusada de assassinar bebês; entenda
Depois de dois anos de investigação e 59 dias de audiências, o inquérito oficial sobre o caso da enfermeira britânica Lucy Letby chega à publicação do relatório final nesta terça-feira sob uma controvérsia central: a apuração não examinou diretamente a possibilidade de que ela tenha sido condenada de forma incorreta. O chamado inquérito Thirlwall custou […]