A bióloga, educadora, diplomata e ativista Bertha Lutz ficaria chocada se visse esse movimento de “influenciadores” contra o voto feminino. A paulista nascida em 1894 foi uma das líderes do grupo de sufragistas que, no começo do século XX, conquistou para as mulheres o direito à participação na vida política do Brasil. Quando morreu, no dia 16 de setembro de 1976, há exatos 50 anos, Lutz não estava satisfeita com o status alcançado pelo sexo feminino. Queria igualdade de gêneros. Mas, certamente, achava que, pelo menos, a página do voto era algo pacificado e não estaria mais em discussão.
Lara Gurgel: Questionamento ao voto feminino não deve ser visto como caso isolado
Ana Paula Araújo: As mulheres do Brasil têm que marcar posição nas eleições de 2026
Os argumentos retrógrados de homens (e até de mulheres) contrários à presença da mulher na politica não a surpreenderia. Os disseminadores desse movimento atual acham que as mulheres deveriam confiar em seus maridos na hora de escolher governantes. É a mesma afirmação dos parlamentares durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1890-1891, que deu origem à Constituição em vigor no começo do século XX. “Predominando no sexo masculino as faculdades intelectuais, predominam no feminino as afetivas”, disse à época o deputado federal Lacerda Coutinho, de Santa Catarina.
Acervo O GLOBO: Todas as edições do jornal digitalizadas para pesquisa
Esses legisladores tinham tamanha convicção de que mulheres jamais votariam que nem incluíram, na Constituição de 1891, um veto à participação delas. Foi justamente essa brecha que, décadas depois, Lutz e as demais líderes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) aproveitaram. Como não havia no texto uma proibição, “nós tínhamos direito ao voto, pois só os mendigos, os analfabetos e membros de ordem religiosa com ordem de obediência eram eximidos. Tudo não passava de um problema de interpretar a Constituição”, disse ela numa entrevista ao GLOBO em 1971.
Histórias do Acervo: A luta e conquista do voto feminino no Brasil
Na mesma entrevista, Lutz relembrou o início de sua campanha. Contou que, inspirada na conquista do voto por mulheres na Europa, trouxe essa briga para o Brasil. Não foi nada fácil. “Em 1918, combinei uma visita ao Senador Bueno Brandão, do partido de Artur Bernardes. Depois de expormos o problema, ele nos pediu um minutinho, disse que voltava. Mas os minutos passaram e descobrimos que ele tinha ido embora, simplesmente porque não sabia o que dizer de uma reivindicação tão descabida”, disse ela. “Para os homens só havia duas opções para a mulher: ou casava ou morava com os irmãos”.
Alzira Soriano: A bravura da primeira mulher eleita prefeita no Brasil
Maria da Penha: O crime que deu origem à lei contra violência doméstica
Nos anos seguintes, as sufragistas seguiram batendo na porta dos gabinetes de políticos, buscando apoio para sua causa, até que o deputado Juvenal Lamartine prometeu que, se eleito governador do Rio Grande do Norte, garantiria o voto feminino. Em 1927, Lamartine se elegeu, e, assim, as mulheres do estado nordestino se alistaram para ir às urnas (a primeira delas foi a professora Celina Guimarães Viana, registrada em novembro daquele ano, na cidade de Mossoró). “Foi realmente o primeiro passo. O fato começou a se espalhar pelo país”, relembrou Lutz na entrevista em 1971.
Em fevereiro de 1932, o então presidente Getúlio Vargas reconheceu, em um decreto, o voto feminino. No ano seguinte, mulheres do país todo puderam votar nos deputados que fariam parte da Assembleia Constituinte, e, em 1934, o direito à participação feminina nas eleições foi incorporado à Constituição. No mesmo ano, Bertha Lutz se candidatou a deputada federal e recebeu mais de 16 mil votos. Com isso, elegeu-se como primeira suplente e tomou posse em 1936, após a morte de Cândido Pessoa. A cientista foi a segunda mulher a se sentar numa cadeira de parlamentar no Brasil.
Instagram: Siga nosso perfil, com imagens de 101 anos de jornalismo
“Hoje a situação da mulher melhorou. A maioria trabalha, o que possibilita, além da independência financeira, uma visão diferente de todos os problemas e uma maior capacidade para resolver as suas próprias questões”, disse a ativista, filha do médico e cientista Adolfo Lutz, formada em Ciências Biológicas na Universidade Sorbonne, na França, em 1918, numa época em que estudos e cargos científicos no Brasil eram praticamente vedados às mulheres. “A luta continua e muita coisa ainda precisa ser feita”, acrescentou ela, na entrevista ao GLOBO em 1971.
Professora emérita da UFRJ, Bertha Lutz morreu no dia 16 de setembro de 1976, em consequência de uma aterosclerose, aos 82 anos. Morava com cinco cachorros numa casa de três andares no Alto da Boa Vista, no Rio. Nunca se arrependeu de não ter se casado. Dezessete mulheres levaram o caixão da cientista até a sepultura no Cemitério São João Batista. A ativista foi homenageada diversas vezes ao longo das décadas. Até hoje, o Senado Federal confere, anualmente, o Diploma Bertha Lutz a pessoas que prestaram relevante contribuição à defesa das questões de gênero no país.
Bertha Lutz e o movimento contrário ao voto feminino no Brasil
A bióloga, educadora, diplomata e ativista Bertha Lutz ficaria chocada se visse esse movimento de “influenciadores” contra o voto feminino. A paulista nascida em 1894 foi uma das líderes do grupo de sufragistas que, no começo do século XX, conquistou para as mulheres o direito à participação na vida política do Brasil. Quando morreu, no […]