Se você costuma acompanhar conteúdos de wellness nas redes sociais, provavelmente já se deparou com garrafas de água coloridas por pós ou sachês de eletrólitos. A mistura de água com sódio, potássio, magnésio e outros minerais, antes mais associada a atletas e situações de desidratação, passou a aparecer com frequência nas rotinas compartilhadas por influenciadores, celebridades e criadores de conteúdo. A promessa de uma hidratação mais completa ajudou a transformar os produtos em mais um item do universo fitness e de autocuidado.
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O interesse pelo tema acompanha o crescimento desse mercado. Os pós de eletrólitos movimentaram cerca de US$ 6,6 bilhões em 2025, segundo a estimativa apresentada no material, e a expectativa é de expansão nos próximos anos. A popularização, porém, levanta uma questão: uma pessoa saudável, que se alimenta bem e mantém uma rotina comum, realmente precisa consumir eletrólitos todos os dias?
“Eletrólitos são indispensáveis ao organismo. Sódio, potássio, magnésio, cálcio e cloreto, por exemplo, participam do equilíbrio de líquidos, da contração muscular, da transmissão de impulsos nervosos e de diversas outras funções fisiológicas. O fato de serem essenciais, porém, não significa que precisem ser suplementados por todo mundo. Para a maioria das pessoas saudáveis, que mantém uma alimentação variada e não apresenta perdas aumentadas, esses minerais são obtidos normalmente pela dieta”, explica a médica nutróloga Marcella Garcez.
Quando a reposição pode fazer sentido
A presença dos eletrólitos em bebidas e suplementos não significa que eles sejam necessários em qualquer situação. Para quem passa o dia trabalhando, realiza atividades cotidianas e pratica exercícios leves ou de curta duração, a alimentação costuma fornecer os minerais necessários, enquanto a água atende à hidratação.
“Para uma pessoa que passa o dia no escritório, realiza atividades cotidianas e pratica exercícios leves ou de curta duração, não existe, de maneira geral, uma necessidade de adicionar eletrólitos à água continuamente. Hidratação não precisa ser sofisticada. Na maior parte dessas situações, água e uma alimentação equilibrada cumprem muito bem esse papel”, afirma a médica.
A situação é diferente quando há uma perda mais expressiva de líquidos e sais minerais. Exercícios prolongados e intensos, principalmente em ambientes quentes e úmidos, podem aumentar a necessidade de reposição. O mesmo vale para quem apresenta uma taxa elevada de suor ou passa por episódios de vômitos e diarreia, sempre considerando as características de cada caso.
“Quanto maior a duração e a intensidade do exercício e quanto maior a quantidade de suor perdido, mais relevante pode se tornar a reposição de água e eletrólitos, principalmente de sódio. Isso é particularmente importante em atividades de endurance, treinos prolongados, competições, exercícios realizados em ambientes muito quentes ou para indivíduos que suam intensamente”, pontua Dra. Marcella.
Mais eletrólitos não significa mais hidratação
A popularização desses produtos também pode criar a impressão de que a água, sozinha, seria insuficiente para manter uma boa hidratação. Segundo a nutróloga, transformar a reposição de minerais em um hábito automático não é necessário e pode acrescentar componentes à dieta sem que exista uma demanda do organismo.
“Dependendo da composição do produto, o uso sem necessidade pode aumentar desnecessariamente a ingestão de sódio, açúcares e outros componentes da fórmula. O primeiro passo deveria ser perguntar: por que estou tomando isso? Se não houve uma perda que precise ser reposta, muitas vezes estamos apenas acrescentando nutrientes que já seriam obtidos pela alimentação”, diz a médica.
A composição merece atenção especial em alguns casos. Pessoas com doenças renais ou que utilizam determinados medicamentos, por exemplo, podem precisar de cuidados específicos em relação à ingestão de minerais como o potássio.
“Além disso, pessoas com doenças renais ou que utilizam determinados medicamentos precisam ter atenção especial a minerais como o potássio. O fato de um produto ser vendido como hidratação ou wellness não significa que seu consumo indiscriminado traga benefício metabólico”, alerta Dra. Marcella.
E os dentes, entram nessa conta?
A frequência de consumo é outro ponto que merece atenção. O problema para a saúde bucal não está necessariamente nos eletrólitos, mas na composição de algumas bebidas e na maneira como são consumidas. Açúcares e componentes ácidos podem estar presentes em determinadas formulações e, quando o contato com os dentes é repetido ao longo do dia, podem aumentar o risco de alterações no esmalte.
“É preciso observar a formulação completa do produto. Algumas bebidas e pós para hidratação podem conter açúcares e componentes ácidos para melhorar sabor, conservação e palatabilidade. Quando há açúcares fermentáveis na formulação, bactérias presentes no biofilme dental podem metabolizá-los e produzir ácidos, reduzindo o pH ao redor dos dentes. Se essas quedas de pH forem frequentes e houver controle inadequado do biofilme, aumenta o desequilíbrio entre os processos de desmineralização e remineralização do esmalte, favorecendo o desenvolvimento de cárie”, esclarece o cirurgião-dentista Hugo Lewgoy.
A acidez também pode provocar outro tipo de desgaste. “Cárie e erosão não são a mesma coisa. Na cárie, existe participação bacteriana. Na erosão, a perda mineral pode ocorrer pelo contato direto e repetido do esmalte com ácidos. Por isso, uma bebida não precisa necessariamente conter açúcar para merecer atenção. Se for muito ácida e consumida com grande frequência, pode aumentar a exposição dos dentes a condições que favorecem a desmineralização”, diferencia.
A frequência de consumo faz diferença
Para a saúde bucal, existe uma diferença importante entre consumir uma bebida em determinado momento e permanecer tomando pequenos goles durante horas. A exposição repetida não dá à saliva tempo suficiente para neutralizar os ácidos e ajudar na recuperação do equilíbrio do ambiente oral.
“A saliva precisa de tempo para atuar na neutralização dos ácidos e participar da recuperação do equilíbrio do ambiente oral. Quando novas exposições acontecem continuamente, esse processo fica sendo interrompido”, destaca o Dr. Hugo.
Por isso, para quem realmente precisa fazer a reposição, vale observar a composição do produto e a maneira como ele é consumido. “Nem todo suplemento de eletrólitos é igual. Há fórmulas com e sem açúcar e diferentes níveis de acidez. Então não podemos colocar todos na mesma categoria”, pondera.
Evitar manter a bebida na boca e intercalar ou finalizar o consumo com água são outras medidas que podem reduzir o contato prolongado com os dentes. “A água pode auxiliar na remoção de resíduos e na normalização do ambiente oral. Porém, mesmo a água mineral, pode ter um pH ácido, então, vale a pena sempre checar o rótulo, e verificar se o pH da bebida que estamos ingerindo é ácido ou não. E, principalmente, não é necessário ficar ‘bochechando’ uma bebida esportiva ou de hidratação antes de engolir”, orienta.
Nos casos de bebidas muito ácidas, a recomendação também é evitar escovar os dentes imediatamente após o consumo. “É preferível enxaguar a boca com água e dar um intervalo antes da escovação, pois o esmalte recém-exposto a um meio ácido pode estar temporariamente mais suscetível ao desgaste mecânico”, recomenda.
No cotidiano, os cuidados básicos continuam sendo importantes: higiene adequada, limpeza dos espaços entre os dentes e uso de creme dental fluoretado estão entre as principais medidas de prevenção de problemas bucais.
A discussão sobre os eletrólitos, portanto, acompanha uma questão mais ampla trazida pela popularização das tendências de wellness: nem tudo que faz sentido em determinado contexto precisa ser incorporado à rotina de todo mundo.
“Um produto pode ser extremamente útil quando existe indicação e completamente desnecessário em outro contexto. Não precisamos transformar todo recurso utilizado na medicina ou no esporte em um hábito diário para a população geral. Antes de suplementar, é preciso entender o que o organismo realmente necessita”, finaliza a Dra. Marcella.
Eletrólitos viraram febre nas redes: será que você realmente precisa deles?
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