A presença de Nicole Kidman, aos 59 anos, e Mariska Hargitay, aos 62, no Emmy 2026 chama atenção não apenas pelas produções escolhidas para a cerimônia, mas pelo lugar que elas continuam ocupando na indústria do entretenimento. Atrizes de diferentes gerações seguem em atividade, assumem novos projetos e permanecem no centro da conversa cultural. A cena ajuda a ampliar uma discussão que vai além de Hollywood: em uma sociedade na qual as pessoas vivem mais e permanecem ativas por mais tempo, o que ainda determina quando uma mulher deixa de ser considerada protagonista?
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A questão ganha contornos particulares quando longevidade e aparência entram em cena. Para os homens, a passagem do tempo costuma ser associada a experiência, repertório e trajetória profissional. Já as mulheres ainda são frequentemente submetidas a uma avaliação paralela sobre a aparência, que transforma rugas, cabelos brancos, mudanças no corpo e escolhas estéticas em assuntos tão recorrentes quanto o próprio trabalho que realizam.
É nesse contexto que o conceito de longevidade ganha uma dimensão mais ampla. “Quando falamos em longevidade, não deveríamos pensar apenas em viver mais, mas em preservar autonomia, capacidade física, cognição, relações sociais e qualidade de vida. Envelhecer não precisa significar deixar de ocupar espaços, produzir, criar ou participar ativamente da sociedade”, afirma a geriatra Priscila Guerra.
Nicole Kidman
Amy Sussman / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP
A idade cronológica, por si só, também diz pouco sobre como uma pessoa envelhece. Thais Bento Lima da Silva, gerontóloga, docente da USP e parceira científica do Método Supera, explica que pessoas com a mesma idade podem apresentar condições muito diferentes de saúde, funcionalidade e desempenho cognitivo. O envelhecimento é um processo contínuo, marcado pelas experiências acumuladas ao longo da vida e também pelas condições de saúde, pelo ambiente e pelas oportunidades disponíveis em cada trajetória.
Essa perspectiva ajuda a questionar expressões aparentemente elogiosas, como dizer que uma mulher de 60 anos “está ótima para a idade”. A frase parte de uma expectativa prévia sobre como alguém daquela faixa etária deveria se apresentar e acaba transformando a própria idade em parâmetro de comparação. Em vez de reconhecer a pessoa por sua presença, seu trabalho ou suas escolhas, o comentário recoloca o envelhecimento no centro da avaliação.
O mesmo vale para os cuidados ao longo da vida. Thais ressalta que envelhecer com qualidade não significa interromper o processo natural do tempo, mas criar condições para preservar autonomia, participação social e capacidade funcional. O cérebro, por exemplo, passa por transformações ao longo dos anos, mas também mantém possibilidades de adaptação e desenvolvimento em diferentes fases da vida.
Mariska Hargitay
Frederic J. Brown / AFP
A ideia pode ser levada para além da saúde e chegar ao ambiente profissional. Completar 50, 60 ou 70 anos não deveria determinar o fim da presença de uma mulher em espaços de criação, liderança, desejo ou reconhecimento. A longevidade também pode significar ampliar o tempo em que alguém permanece atuante e livre para experimentar novos caminhos.
“A grande conquista não é chegar aos 80 tentando provar que biologicamente temos 50, mas chegar aos 80 com condições de continuar participando ativamente da própria vida”, resume Priscila.
O que Nicole Kidman e Mariska Hargitay revelam sobre o protagonismo feminino
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